The Project Gutenberg EBook of Os Pobres, by Raul Brandão

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Title: Os Pobres
       Precedido de uma Carta-Prefácio de Guerra Junqueiro

Author: Raul Brandão

Editor: Sociedade Editora

Previous Release Date: July 13, 2007 as EBook #22057

Language: Portuguese


*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS POBRES ***




Produced by Manuela Alves




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OBRAS DO AUTOR


A ÁRVORE:

I--_História dum palhaço_. II--_Os pobres_. III--_Raízes_ (em
preparação).


ROMANCE:

_A Farsa_.


TEATRO:

(De colaboração com Júlio Brandão)

_A noite de Natal_, drama em 3 actos, representado no teatro de D.
Maria II.




RAUL BRANDÃO


OS POBRES


Precedido de uma Carta-Prefácio de GUERRA JUNQUEIRO


LISBOA
EMPRESA DA HISTÓRIA DE PORTUGAL
SOCIEDADE EDITORA
Livraria Moderna, R. Augusta, 95 | Tipografia R. Ivens, 45 e 47
1906




CARTA--PREFÁCIO

_Meu bom amigo_:


O seu livro é a história patética duma alma. Qual? A do Gebo, a de
Luísa, a de Sofia, a da Mouca, a dos _Pobres_ enfim? Não. A sua.
Histórias diversas, que se resumem numa história única: a da sua alma,
transitando almas, a da sua vida, percorrendo vidas. Autobiografia
espiritual, dilacerada e furiosa, demoníaca e santa, blasfemadora e
divina. Confissão verdadeira, plena, absoluta dum organismo que sente a
música misteriosa do universo, dum coração que repercute a dor eterna
da natureza, mas que só ao cabo de oscilações, dúvidas e desânimos,
coordena a idealidade do ser com as aparências do ser, o espírito com as
formas, o Deus,--amor e beatitude, com a matéria,--crime e sofrimento.

Não vejo diante de mim um poema estéril, obra dos sentidos, da
imaginação e da volúpia. Vejo um acto profundo, espontâneo, de imensidade
religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. Não a
confissão mentirosa, a confissão vulgar, da boca que tem dentes, para o
ouvido que tem sombras. Não a confissão-análise, a confissão dos
críticos, rol de inteligência, catálogo de ideias. Mas a esplêndida
confissão das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de
eternidade e de mistério. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, há
labaredas ignotas que dissociam as almas. E, se tais almas se desdobram,
a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da natureza. Andou o
infinito, e lembra-se; andará o infinito, e já o sonha. Quando o génio
explui, conta-nos a natureza a sua história. O génio supremo é o santo.
O verbo do santo, eis a língua clara do universo.

As confissões augustas são as dos poetas e dos santos. No homem vulgar a
personalidade rígida encarcera e coalha as personalidades voláteis e
difusas. O inconsciente imenso não acorda, porque está, como um aroma,
dentro dum bloco duro, impenetrável. É o sonho cativo num ovo
hermético de bronze. As almas emotivas dos grandes visionários, essas
conservam aquela graça radiante, aquela omnipresença espiritual, que
as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cósmica e divina. O
sonhador dos _Pobres_ é um evocador atormentado e religioso. Busquei no
seu livro a imagem ardente da sua alma. Vamos ver se a desenho com
rapidez e precisão.

Alma vibrátil e fugaz, olhando a natureza, o que sentiu? Assombro,
esplendor, pavor, enigma, deslumbramento. Tudo vive, deseja, estremece,
palpita, murmura e sonha. Tudo vive, tudo vive: o homem, a fera, a
rocha, o lodo, a água, o ar, braseiros de mundos, aluviões de nebulosas,
incorporeidade genésica do éter. Fervedoiro de vidas insondável, que o
tempo não esgota, porque a morte criadora continuamente o desorganiza e
reproduz em formas novas e diversas. E todas se cruzam, beijam,
penetram, correspondem. É uma teia vertiginosa de fios sem fim, de fios
móveis, ondeantes, cambiantes, urdindo-se ela mesma, na eternidade
impenetrável, sem ninguém ver o tecelão. Rigidez, solidez, inércia, não
existem. Na fraga mais dura, no bronze mais compacto circulam desejos,
dramas, turbilhões de moléculas e vontades. As cordilheiras inabaláveis
são redemoinhos dentro de enxovias. O concreto dilui-se, o material
evapora-se. O sol tombando, aniquilaria cardumes de planetas, e a lua do
sol, que é sol volatilizado, pesa menos que uma folha de rosa na mão
duma criança. Em cada bloco metálico latejam oceanos dormentes, de
vagas fluidas, invisíveis. Acordem-nos, e o bloco obtuso, electrizado,
irradia no éter. Vede um penedo monstruoso: Parece firme.
Desagregou-se, e é lama; a raiz tocou-lhe e é seiva; a seiva gerou, e é
flor e é fruto; o fruto, alimento; o alimento sangue; e o sangue
vermelho, corpo que caminha, carne que fala, cérebro que pensa.
Natureza! universo!... Vidas infindáveis eternamente circulando numa
vida única. Assombro, esplendor, pavor, deslumbramento! O homem vacila,
desmaia, quer equilibrar-se... mas onde, se não há terra em que poise,
nem muro a que se encoste?! Tudo impalpável, fugaz, incerto, ilusório,
ilimitado... tudo vida, tudo sonho, tudo voragem... Se baixa os olhos do
imenso ao grão de areia, o grão de areia, infinitésimo, resolve-se-lhe em
vidas infinitas. Quer contemple o universo, quer examine um corpúsculo,
a alma engolfa-se, estonteada, no mesmo abismo devorador e criador.

Abismo de aparências ocultas, abismo de vozes que se não ouvem. A
natureza taciturna exprime-se magicamente, em línguas vagas,
silenciosas. E quando num pouco de cisco murmuram mais vontades do que
bocas humanas há na terra, o que não dirá o colóquio formidando de todas
as vontades do universo! Tem cada organismo a sua língua peculiar. Os
que vivem mais próximos entendem-se melhor. O ar segreda à água, a raiz
ao lodo, a luz à folha, o pólen ao ovário. Há fluidos que se casam,
raízes que se querem bem. O oxigénio é íntimo do ferro, o azougue é
íntimo do ouro. Os orbes fraternizam, os metais amalgamam-se, e as
electricidades sexuadas buscam-se avidamente, para copular!

Matéria infinita,--forças infinitas, infinitamente caminhando. E no
pélago vertiginoso da mobilidade universal é cada átomo invisível um
desejo que nasce, um desejo que sente, um desejo que fala...

O lexicon sem principio nem fim, das vozes mudas do incriado, das
línguas tácitas da natureza, alguém o ouviu que se recorde? Alguém: o
homem. O homem, crisálida do anjo, foi monstro e planta e verme e rocha
e onda; foi nebulosa, foi gás impalpável, foi éter invisível. Articulou
todas as línguas, e delas conserva, obscuramente, vagas memórias
dormitando. Por isso os poetas adivinham, e raros com a intuição
prodigiosa do meu amigo.

Abreviando: A sua alma, diante do universo, reagiu por três formas ou em
três fases emotivas. Estudei a primeira,--_a emoção dinâmica_. O mundo
resolve-se-lhe num jogo de forças, num conflito de vontades,
brigando, casando-se, transfigurando-se em aparências rápidas,
ilusórias. Tudo se move, tudo quer e tudo vive.

Mas o que é a vida? Chega à segunda fase. Desliza da emoção dinâmica à
emoção moral. Depois de ver o mundo através dos sentidos, julga-o
através da razão e da consciência.

O que é a vida?

A vida é o mal. A expressão última da vida terrestre é a vida humana, e
a vida dos homens cifra-se numa batalha inexorável de apetites, num
tumulto desordenado de egoísmos, que se entrechocam, rasgam, dilaceram.
O Progresso, marca-o a distância que vai do salto do tigre, que é de dez
metros, ao curso da bala, que é de vinte quilómetros. A fera, a dez
passos, perturba-nos. O homem, a quatro léguas, enche-nos de terror. O
homem é a fera dilatada.

Nunca os abismos das ondas pariram monstro equivalente ao navio de
guerra, com as escamas de aço, os intestinos de bronze, o olhar de
relâmpagos, e as bocas hiantes, pavorosas, rugindo metralha, mastigando
labaredas, vomitando morte.

A pata pré-histórica do atlantossauro esmagava o rochedo. As dinamites do
químico estoiram montanhas, como nozes. Se a preza do mastodonte
escavacava um cedro, o canhão Krup rebenta baluartes e trincheiras. Uma
víbora envenena um homem, mas um homem, sozinho, arrasa uma capital.

Os grandes monstros não chegam verdadeiramente na época secundária;
aparecem na última, com o homem. Ao pé dum Napoleão um megalossauro é
uma formiga. Os lobos da velha Europa trucidam algumas dúzias de
viandantes, enquanto milhões e milhões de miseráveis caem de fome e de
abandono, sacrificados à soberba dos príncipes, à mentira dos padres e à
gula devoradora da burguesia cristã e democrática. O matadoiro é a
fórmula crua da sociedade em que vivemos. Uns nascem para reses, outros
para verdugos. Uns jantam, outros são jantados. Há criaturas lôbregas,
vestidas de trapos, minando montes, e criaturas esplêndidas, cobertas
de oiro e de veludo, radiando ao sol. No cofre do banqueiro dormem
pobrezas metalizadas. Há homens que ceiam numa noite um bairro fúnebre
de mendigos. Enfeitam gargantas de cortesãs rosários de esmeraldas e
diamantes, bem mais sinistros e lutuosos que rosários de crânios ao
peito de selvagens.

Vivem quadrúpedes em estrebarias de mármore, e agonizam párias em
alfurjas infectas, roídos de vermes. A latrina de Vanderbilt custou
aldeolas de miseráveis. E, visto os palácios devorarem pocilgas, todo o
boulevard grandioso reclama um quartel, um cárcere e uma forca. O deus
milhão não digere sem a guilhotina de sentinela. Os homens repartem o
globo, como os abutres o carneiro. Maior abutre, maior quinhão. Homens
que têm impérios, e homens que não têm lar.

Os pés mimosos das princesas deslizam luzentes de oiro por alfombras, e
os pés vagabundos calcam, sangrando, rochedos hirtos e matagais. Bebem
champagne alguns cavalos do sport, usam anéis de brilhantes alguns cães
de regaço, e algumas criaturas, por falta duma côdea, acendem
fogareiros para morrer. Bendito o óxido de carbono, que exala paz e
esquecimento! E a natureza, insensível ao drama bárbaro do homem!
Guerras, ódios, crimes, tiranias, hecatombes, desastres, iniquidades,
deixam-na tão indiferente e inconsciente, como o rochedo imóvel,
bulindo-lhe a asa duma vespa. O clamor atroador de todas as angústias
não arranca um ai da imensidade inexorável. A aurora sorri com o mesmo
esplendor aos campos de batalha ou ao berço infantil, e as ervas
gulosas não distinguem a podridão de Locusta da podridão de Joana d'Arc.
Reguem vergéis com sangue de Iscariote ou com sangue de Cristo, e os
lírios inocentes (estranha inocência!) desabrocharão, igualmente
cândidos e nevados.

A humanidade, enfim, é a vitória dos arrogantes sobre os humildes, dos
fortes sobre os débeis, da besta sobre o anjo. E tendo de escolher entre
vencidos e vencedores, entre o amor e o ódio, o mal e o bem, o riso e as
lágrimas, o seu coração misericordioso de poeta inclinou-se
espontaneamente para a Dor, como as vergônteas para a luz.

A dor é o seu deleite. Busca-a, desejo febril!--por hospitais, por
cadeias, por antros, por alcoices. Fareja-a de noite nos bairros
leprosos, cloacas de humanidade, vazadoiros de almas, onde crimes,
virtudes, vícios, angustias, raivas, desesperos, fermentam
promiscuamente, aglomerados e abandonados, como esterqueiras, como
entulhos. Pesquisa dédalos caliginosos, cafurnas sem fundo, abismos
hiantes, boqueirões de sombra. Explora desvãos, trapeiras, minas, covas,
esconderijos. Louco de piedade, engolfa-se nas trevas mudas e soturnas,
que gotejam sangue, nas roucas escuridões tumultuosas, pávidas de
gemidos, cortadas de clamores, anavalhadas de blasfémias.

E do âmago dessas noites insondáveis pululam turbas espectrais de
crucificados, hordas de monstros, bandos de misérias, cardumes de
abominações e de agonias. Ululam tropéis disformes e sangrentos,
regougam fauces patibulares, choram, coroadas de úlceras, Madalenas
lívidas, bocas de escárnio crocitam sem dentes e sem pudor, arquejam
ralas estorturantes, gemem crianças vagabundas, tossem tísicos, ardem
febres, luzem gangrenas e podridões... E tudo vago, indistinto,
confuso, num rumor longo e subterrâneo. Não se destacam, não se
desenham as formas. Olhos, bocas, gestos, relampeando na sombra... Nada
mais. A sombra voraz esbate as linhas e os contornos. É o mundo caótico
da miséria, que a noite pútrida gerou e a noite soturna há-de engolir...
É o seu mundo, o mundo dos pobres, meu grande visionário, quase
desconhecido e genial.

Homens de gosto coleccionam quadros ou estátuas. O meu amigo colecciona
dor. Não em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biológico
das várias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surpreende,
não a envasilha num frasco, guarda-a no coração.

Conta-lhe os ais, não os micróbios. Em vez de a analisar, decompondo-a,
analisa-a beijando-a. No seu laboratório químico existe apenas um
reagente, que dissolve tudo: lágrimas.

O poeta dos _Pobres_ não é um romancista. A alma do evocador
fluidicamente se desagrega nas almas de sonho que ele evoca.
Dir-se-iam espelhos, brancos, verdes ou azuis, planos, côncavos ou
convexos, reflectindo todos eles um único semblante, que julgamos
distinto, porque aparece deformado.

Chamei aos _Pobres_ uma confissão religiosa. Não há dúvida. Os seus
pobres, meu amigo, são bocas de visões, articulando a alma dum vidente.
Falam a sua língua e contam-nos a sua história. Não a história, no
minuto e na rua, do homem-sicrano, mas a história, no espaço e no tempo,
do homem infinito, que vem de Deus e para Deus caminha.

No drama dos _Pobres_ há dúzias de actores e um só personagem: o
dramaturgo. As suas figuras não constituem individualidades reais,
caracteres verosímeis, logicamente arquitectados e definidos pelas
inúmeras causas de existência, conglobados em duas ordens genéricas,--a
herança e o meio. Os seus ladrões, assassinos e meretrizes, não roubam,
não matam, não copulam: sofrem. Sofrer, eis o seu mister. Mouca, Luísa,
Gebo, Golim,--pseudónimos. O nome real, o nome verdadeiro de todos eles
é um só: a Dor.

Inevitável. Desde que o meu amigo rasgou as máscaras enganadoras ao
Universo, para lhe descobrir a essência e natureza íntima, e desde que a
lei do Universo é o predomínio do mais feroz e do mais forte, toda a
imensa humanidade, tumultuosa e vária, se resume logicamente em dois
homens apenas: o algoz e a vítima, o homem que sofre e o homem que faz
sofrer. Os bons são os que padecem. A miséria, mesmo sinistra e
delinquente, é já um principio de virtude. Nenhum dos ladrões, nenhuma
das prostitutas do seu poema resvalaram ao vicio ou ao crime por vontade
própria, por fatalidade fisiológica. Obrigou-os a fome, calcou-os a
injustiça. A sua infâmia e a sua ignominia é a avareza ou a luxúria dos
homens opulentos e devassos. Todos os ricos, ainda os caridosos, são
perversos, e todos os miseráveis, ainda roubando ou esfaqueando, são
criaturas boas, porque são vítimas dos primeiros. Os retratos dos
benfeitores do seu hospício (pag. 59) parecem-lhe «uma galeria de
afogados, todos solenes, ricos e maldosos, hirtos, de lábios finos e ar
de cerimónia.» E as alfurjas, cadeias e prostíbulos, onde se amontoam,
num horror tenebroso, os vícios alucinados e os crimes exorbitantes,
afiguram-se-lhe à imaginação misericordiosa como templos de angústias,
santuários sagrados de tribulações e de martírios. É um flos-sanctorum
da miséria, a dor do enxurro canonizada e sublimada.

Mas se a lei da natureza é iníqua e feroz, visto os maus triunfarem e os
bons sucumbirem, donde vem essa lei, quem a gerou, quem a impôs ao
universo? Quer a criasse, com o universo, uma vontade alheia, quer ela
seja imanente ao universo infinito, é, nos dois casos, uma lei
monstruosa, negadora da suprema ideia do espírito do homem, a ideia do
bem e da justiça. Contradição inexplicável: A natureza é iniquidade,
porque a lei que a rege assegura o predomínio e a sobrevivência do mais
forte. Mas quem me leva a dizer que a natureza é iníqua? O sentimento do
bem e da justiça, desenraizável do meu coração e do meu cérebro. Logo
existe também na natureza, pois que eu sou natureza, a lei do amor e da
justiça, contraposta à lei da força e da violência. Se Cristo morreu na
cruz, a natureza é o mal. Mas sendo a natureza o mal, como é que dela
nasceu o mesmo Cristo, afirmação de todo o bem?

A ideia do bem e da perfeição, levada ao infinito, é a ideia de Deus.
Mas como harmonizar o absoluto perfeito com a natureza imperfeita? Como
fazer sair a diversidade da identidade, o complexo do simples, o mal do
bem, o universo de Deus?

Chegamos à terceira e última fase do seu espírito: à fase religiosa, à
_emoção divina_.

A natureza desagregada em movimento, traduziu-se-lhe em dor e
resolveu-se-lhe em amor. Movimento infinito, dor infinita, amor
infinito, eis os três rostos da natureza no espelho cada vez mais
profundo da sua consciência, nos olhos cada vez mais abertos da sua
alma. O dinamismo atómico do universo reduziu-o,--pavorosa síntese!--à
dor sem fim, à dor universal. Viver é sofrer, e tudo vive, tudo sofre.
Vida infinita igual à dor eterna, eis a equação matemática da natureza.
Pandiabolismo, satanás-universo. Um círculo infernal, hermeticamente
inexorável. Não há, pois, evasiva? Há. Desse inferno sobe uma escada de
chamas tenebrosas, que vai ao purgatório, e do purgatório uma espiral de
luz radiante, que nos leva ao céu. A dor, que se lhe afigurou a essência
íntima da vida e sua única expressão, não era, ao cabo, o substrato
último da natureza, o fundo irredutível do universo. A dor não era
irredutível. A alma, vencendo-a, converteu-a em amor. Não há beleza
esplendente, que não fosse dor caliginosa. A flor é a dor da raiz, a lua
a dor das estrelas, e a virtude ou o génio a dor ascendente do éter
luminoso, cristalizando no homem, ao fim de um calvário inenarrável de
milhões e milhões de séculos sem conta. A alma de Jesus proclama o
triunfo da santidade sobre o crime, como o corpo de Vénus entoa a
vitória da linha viva e musical sobre a linha inerte, a linha bruta e
desarmónica. Beleza de essência ou beleza de aparência, virtude de
Jesus ou formosura de Vénus, tem, ancestralmente, a iniciá-las o mesmo
horror e a mesma imperfeição. Do verbo odiar nasceu, evolutivamente, o
verbo amar. Se o homem foi tigre, o beijo foi dentada. Toda a alegria
vem do amor, e todo o amor do sofrimento. A alegria é o sofrimento
amoroso, o sofrimento espiritualizado. Deus é, pois, o amor infinito,
vencendo infinitamente a infinita dor. E, vencendo a infinita dor, ele
é a infinita alegria, a paz absoluta, a glória eterna, a bem-aventurança
ilimitada. Deus sustenta-se realmente, como diz o meu amigo, do
sofrimento universal.

Nos meus _Ensaios Espirituais_, ainda inéditos, eu exprimo inúmeras
vezes a mesma ideia. Quer ver? Destaco uma página:

«Só a dor infinita produz o amor absoluto. Deus, amor absoluto,
sustenta-se do sofrimento do universo. É uma luz eterna, alimentada por
um incêndio eterno. Deus, amor absoluto, projecta-se em dor infinita da
natureza. Para ser a perfeição absoluta, encarnou-se na imperfeição
ilimitada do universo. Deus não se compreende sem universo. O perfeito
vive do imperfeito, como a chama vive do combustível. O mal é a condição
do bem, o erro a condição da verdade, o crime a condição da virtude. O
santo é santo, porque venceu o demónio. Sem o demónio, o santo não se
compreende. Sem universo imperfeito não há Deus perfeito. Satanás é uma
das faces de Deus. Mais ainda: Satanás é o corpo de Deus. Deus é Deus,
isto é infinita perfeição, infinito amor, porque vence eternamente
infinitas imperfeições e infinitas dores. Deus é a completa afirmação
do Bem, pela completa e continua vitória sobre o mal. No instante em
que o mal acabasse, acabava Deus. Deus não é ideia, pensando-se
infinitamente: _é acto infinito, amor infinito, a realizar-se pela
infinita vontade na duração infinita. Eliminando o imperfeito, o
perfeito evapora-se. Destruindo o relativo, destruireis o absoluto: _o
absoluto que fica é o absoluto não-ser. O infinito amor de semelhante
Deus seria o infinito amor de si próprio, o infinito egoísmo. É como se
quiséssemos resumir a infinidade dos números em um número único,
infinito, eterno, inalterável, o número absoluto perfeito, e
realizássemos a síntese da infinidade numérica no absoluto do zero. Tudo
igual a nada. Não! Deus é infinito amor, esforço infinito, actividade
infinita. O universo é o corpo de Deus, é a carne de Deus. Deus é
absolutamente perfeito na diversidade infinita, porque sem essa
diversidade infinita não há, nem pode haver, a união suprema. Mas a
síntese da vida é irrealizável na ideia de número e quantidade, na ideia
concreta de matéria. Só na ordem moral se unifica absolutamente a vida
varia do universo. _As quantidades, traduzidas em imperfeições, os
números traduzidos em egoísmos, são redutíveis ao absoluto na ideia
única de amor_. Aí o imperfeito torna-se a condição matemática do
perfeito. Deus, amor absoluto, vive e sustenta-se dos egoísmos
infinitos, continuamente evolucionando para ele. Deus, beatitude
eterna, vive e sustenta-se das dores infinitas do universo. Deus como
corpo, como natureza, sofre infinitamente; mas Deus, espírito puro,
Deus, amor absoluto, não sente dor, nem sofrimento. É a bem-aventurança e
a glória eterna, porque eternamente triunfa dos sofrimentos eternos do
seu corpo. O santo verdadeiro dá-nos a imagem pálida de Deus. Deus é o
santo perfeito, o Cristo absoluto e universal.»

       *       *       *       *       *

Adoramos, pois, o mesmo Deus, unificamos a vida na mesma síntese. Mas o
autor dos _Pobres_ não desvendou, ideologicamente, abstractamente, o
segredo da natureza, a explicação religiosa e íntima da vida universal.
Não a estudou como filósofo, descarnando-a, dissecando-a, até lhe
descobrir as leis inalteráveis e recônditas da sua estrutura evolutiva.
Não fez do cérebro um instrumento de visão, agudo e claro, gélido e
penetrante, com ele interrogando, dia a dia, no sorvedouro cósmico, o
borbulhar infinitiforme da existência. Não mediu a vida a compasso, não
a formulou em teoremas ou equações. Viveu-a. O seu livro não é a
história dialéctica da razão dum homem, sistematizando e codificando a
natureza. Não é a história dum encéfalo, desdobrada em ideias. É a
história dum homem, a história plena e formidável dum organismo
inteiro,--da carne e dos ossos, do sangue e das lágrimas, das mãos que
abençoam e que destroem, dos olhos que choram e que fulminam, da boca
que reza e que tritura, da alma do lobo, que vem de Satanás, da alma do
anjo que se encaminha para Deus. Sim, a história universal dum homem,
gemida e rugida, furiosa e cândida, não para que o mundo lha ouça (então
seria hipócrita) mas para que Deus lha escute, na eternidade e no
silêncio. É a confissão clamorosa, satânica ou celeste, das energias
infinitas, evolutivamente amalgamadas e condensadas no mistério pávido
dum homem. O abismo insondável, retraindo-se, cristalizou num ponto;
e esse ponto, adquirindo voz, confessou o abismo, revelou o insondável.
Almas inúmeras se agrupam na alma sintética e central. Há em cada alma
infinidades de almas. E umas tão horríveis e loucas, que as escondemos
para que as não vejam, e outras tão inconscientes e profundas, que,
habitando connosco, as não chegamos sequer a conhecer. O poeta dos
_Pobres_ conheceu-as e confessou-as todas. Desde a mais clara à mais
crepuscular e tenebrosa, irradiou-as todas plenamente, no estado
nascente, ingénuas e vivas, sem ocultar uma única.

O seu Deus não é o último termo duma cadeia lógica de silogismos. Não o
descobre pela razão, atinge-o pela emoção. O meu amigo não raciocina,
isoladamente, com o encéfalo. Raciocina de chofre e com todo o corpo. As
ideias brotam-lhe espontâneas, como o sangue da facada ou a flor da
haste. Palpitam de vida, mas vida viva,--no estado genésico. Não falam,
não discursam, não discorrem. Gritam, uivam, ululam, gemem, rezam,
blasfemam. Ciclones de ais, de orações, de imprecações, de fúrias, de
lamentos. O meu amigo pensa, forma juízos, como as electricidades formam
raios.

O seu Deus é a expressão da sua emotividade. Ou, bem no fundo, da sua
moralidade. Só crê em Deus, só descobre Deus, quando em si, pela
virtude, momentaneamente o realiza, ou tenta realizar. Se a bondade e a
paz lhe existem no coração, a natureza resolve-se-lhe em Deus, em amor
supremo. Mas, daí a instantes, o egoísmo invade-o, e não é já em Deus,
é na chamusca, que a explicação do mundo lhe aparece. Qual a fonte do
ser, a razão da vida? É o acaso, é o apetite, é o amor, é Deus ou
Satanás, conforme as horas ou os dias conforme o equilíbrio instável da
sua carne e do seu espírito. Logo de começo, a páginas 29 e 30, define
Deus abrasadoramente numa língua de chamas, num paroxismo de dor e de
misericórdia, num êxtase candente e lacrimoso, tão férvido e tão
lúcido, que arrebata e deslumbra. Fulgiu-lhe súbito, no âmago da alma, a
verdade da vida. A vida é um calvário. Sobe-se ao amor pela dor, à
redenção pelo sofrimento. Cristo é um redentor humano, Deus o
redentor universal. É o ser infinito, porque é o amor ilimitado. E a
natureza tenebrosa, vista de Deus, divinizou-se por encanto. Guerras,
lutas, crimes, catástrofes, desordens, evaporam-se e fundem-se em
harmonia mágica e perfeita.

Mas logo adiante, a páginas 42, a natureza, divinizada, reverte e
regressa à sua forma demoníaca, de matéria bruta.

«Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre,
que sonho!»

Do altruísmo absoluto, do absoluto amor, que é Deus, retrogradou ao
individualismo anarquista, ao egoísmo feroz, que é Satanás. Do pólo
positivo saltou ao pólo negativo. Entre os dois pólos, entre o bem e o
mal, entre Deus e o Diabo, vai oscilar e flutuar a sua alma, ora
aproximando-se de um, ora aproximando-se do outro, ora imobilizando-se
quase, pelo hausto indutivo das duas correntes antagónicas.

Tal um Cristo, penosa e religiosamente escalando o calvário, e que, a
meio da encosta, varado de dor, esvaído o ânimo e evolada a fé,
arrojasse a cruz dos ombros, exclamando num ímpeto: «Basta! Se o
caminho do céu é um martírio abrupto, uma inferneira íngreme, desisto do
céu e volto para traz para o conchego do meu lar, para a ternura de
minha mãe, para o afecto dos meus parentes e meus irmãos. Antes risonho
e feliz, junto do meu pai humano, que é carpinteiro, a aplainarmos
cruzes, do que, morto e crucificado, na glória infinita do meu divino
Pai celestial!»

E assim blasfemando, retrocederia na encosta do sofrimento e da
amargura, para já lá no fundo, voltar a subi-la novamente, a cruz nos
ombros, com maior fé e maior ânsia.

O seu poema é a história da escalada trágica do seu calvário. Mil vezes
o meu amigo tomou nos ombros a cruz da dor e da paixão, e outras tantas
a deixou cair, exausto, com ais de desânimo, ou a sacudiu exasperado,
cuspindo invectivas no lenho duro do resgate. Mas por fim, sangrando e
chorando, galgou a montanha do erro e do sofrimento. Chegou a Deus, e em
Deus ficaram imóveis e serenos os olhos tristes da sua alma.
Polarizou-se em Deus, de vez e de vontade. Livre, enfim! Libertou-se.

Não volte à servidão, à escravatura negra e demoníaca. Mantendo-se
liberto, a obra de hoje, patética, mas angustiosa e desigual, a obras
futuras, vastas, claras e radiantes, servirá de entrada e de prefácio. A
arte vale mais ou menos, segundo a porção de amor que abrange e que
revela. A arte soberana é a que conjuga a natureza toda,--homens e
monstros, águas e árvores, pedras e nuvens, sóis e nebulosas, com o
verbo infinito e perfeito, o único verbo criador, que é o verbo amar. O
universo atómico, partículas inúmeras e vagabundas, fraterniza em Deus,
unificado numa só alma e num só corpo.

Rezar o universo é polarizá-lo no infinito amor. Cantar não basta. Rezar
é mais. Rezar é o superlativo divino de cantar. A oração é a canção
angelizada, a canção chorada e de mãos postas. O universo absorve a,
compreende-a. Ouve-a Deus, os homens escutam-na, e as ondas, as águas e
os rochedos, vagamente a percebem, como um hálito amigo, uma carícia
branda e luminosa. Reze todas as dores, pobrezas, misérias, lutos,
sofrimentos. Reze o lodo e o sangue, o ninho, o covil, o hospital, o
cárcere, a enxovia, a terra trágica, ulcerada de mortes, e a noite
côncava e fúnebre, ulcerada de sóis e de nebulosas. Reze a dor, mas reze
também a alegria, que é dor vencida e desbaratada pelo amor. Reze o
triunfo do amor, a alegria ascendente da natureza, a marcha épica da
vida pelo caminho eterno, que não tem fim. Reze chorando, mas lágrimas
fecundas, que façam parir a terra, palpitar o seio e germinar a semente.
Lágrimas de aurora, orvalho vivo e criador. Rezar e chorar, mas
heroicamente, na acção e na luta, no mundo e para o mundo. Rezar, como
Nuno Alvares, entre o fogo ardente da batalha. Enganam-se os que vão
para Deus, voltando as costas à natureza. Quem se quiser salvar, há de
salvar os outros. Quem renegar a natureza, renega Deus. A ascese
egoísta, eis o ateísmo verdadeiro. A imobilidade é sacrílega, a
escuridão é sacrílega, o silêncio é sacrílego. A vida é som, é luz, é
movimento. A vida marcha por abismos, trágica e formidável, mas ruidosa
e sinfónica, vestida de luz e de mil cores. Amortalhá-la de negro,
arrancar-lhe a língua, para que não cante, e os olhos, para que não
deslumbre e não dardeje, é como se lhe cravássemos no coração uma facada
sinistra. O quietismo beato, apagando o universo, apaga Deus. Quietismo
e niilismo,--dois zeros, dois sinónimos. O frade católico, na concha da
mão, exangue e paralítica, sustenta uma caveira. É o nada olhando o não
ser. O monge ideal, na dextra poderosa, em vez da caveira, tem um globo
de oiro constelado. Tem o universo. É o monge futuro.

Seja ele o tipo a que se encaminhe, embora de longe, a nossa fé e a
nossa arte. Rezemos, vivificando e sublimando. Arte criadora, que seja
pão e seja luz.

Se nos acusarem de hipócritas, deixá-los acusar; mentem. E a mentira só
aos mentirosos prejudica. Se nos amesquinharem a fama e cercearem a
glória, desviando de nós as multidões, que não pensam e vão para onde as
levam, melhor. Os que nos querem, os que nos amam, os que nos entendem,
ficarão connosco. Os outros, deixando-nos, prestam-nos favor. Lesam-nos
somente na vaidade, que é vício ruim, grama que custa a deitar fora.
Portanto, melhor. E se nos insultarem e injuriarem, melhor. E se nos
perseguirem, melhor. E se nos apedrejarem e ensanguentarem, melhor
ainda, muito melhor. Quando a alma, ao termo de mil hesitações e
desenganos, cravou as raízes para sempre num ideal de amor e de
verdade, podem calcá-la e torturá-la, podem-na ferir e ensanguentar, que
quanto mais a calcam, mais ela penetra no ideal que busca, mais ela se
entranha no seio ardente que deseja.

Seu amigo e camarada cordialíssimo

1902.3

Guerra Junqueiro.




OS POBRES




I

O ENXURRO


Vem o Inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza
inteira envolve-se numa grande nuvem húmida que tudo abafa e penetra.
As coisas di-las-íeis recolhidas e cismáticas.

É como um rolo misterioso e profundo que vem dum mar desconhecido. E a
chuva começa. É um ruído doce o da chuva. Faz sonhar em tantas coisas
idas e tristes! Primeiro a terra embebe-se e incha. E, depois de cheia,
a torrente jorra até polir as pedras: ara na terra, põe raízes à mostra,
arrasta no aluvião o húmus, as folhas secas das árvores, os cadáveres
dos bichos, os detritos desagregados das rochas, que rola juntos,
dispersa e reúne, atira, entre a baba da água, para um destino ignoto.

Assim a vida. É um rio de lágrimas, de brados, de mistério. A onda turva
põe as mais fundas raízes à mostra, a torrente leva consigo de roldão a
desgraça e o riso; sem cessar carreia este terriço humano para uma
praia, onde as mãos esquálidas dos que sofreram encontram enfim a mão
que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar,
ficam atónitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se
converte em realidade...

       *       *       *       *       *

Vede... É noite. A ventania redobra e nas lufadas que passam viajam
gritos, catástrofes, lamentos. Sou pobre e transido e nada sei da vida,
mas sou um príncipe. De que terra? direis.--Do sonho. E assim neste
prédio revolvido me quedo, sozinho e triste, a escutar... Ouço um rio
que os mais não sentem. Cada criatura nascida traz consigo uma fonte,
fio de água humedecendo a frincha duma pedra ou levada impetuosa e aos
jorros. É ela que tira à vida a sua secura. Em certas criaturas pobres
e simples quase se ouve essa água correr e tão amoravelmente, que dá
vontade de nos chegarmos à sua sombra. É emoção. Minai, não na deixeis
secar: se finda torna-se a vida como os chãos sequiosos.

Neste casarão onde moro a toda a hora se ouve o ruído da levada; corre
sempre como as torrentes desordenadas e esplêndidas. Escutai!... Prega o
Inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutai, escutai!...

       *       *       *       *       *

São meus vizinhos, lá em baixo mulheres perdidas, ao pé de mim dois
casados, e na trapeira um gato-pingado, a quem chamam S. José. As
mulheres passam às vezes na rua, com xailes púrpuras a rasto; o gato
pingado só sai à noitinha, à hora dos morcegos. Mais tímido que eu,
encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e roto.

Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados, para cavar, para berrar,
para que lhes dêem um pedaço de pão e só se deitam no sepulcro. Caminho
sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o cansaço, a
humilhação e a fome.

Se passam pelas árvores, num dia de Primavera, tão lindo, que até as
próprias macieiras de comovidas se vão desentranhando em flor, sabeis o
que acontece? As árvores retraem-se, as coisas calam-se ao vê-los
passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que é que eles vivem
aos gritos, ofendidos, ralé, pedras, sapos? para que é que Deus os
cria?

       *       *       *       *       *

O gato-pingado... Ei-lo que sobe. Cada passo me lembra uma pazada de
terra. É soturno este homem, esguio e magro, com o chapéu alto
embrulhado no lenço do rapé e a casaca dobrada no braço. Nunca fala.
Estou mesmo em dizer que não pensa, este avejão que só sai para os
enterros. Deve ser mau, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos
apedrejam-no quando ele passa pela rua, esguio, vesgo, de chapéu alto
e casaca, rígido _clown_ da morte, que em lugar de gargalhadas toda a
sua vida ouvisse lágrimas. Aposto que, quando arrancam das casas os
caixões como quem arranca o coração dos vivos, ao ouvir gritos, tem um
riso interior, júbilo de quem está farto de viver só, arredado,
humilhado... Gato-pingado! Gato-pingado! Vive de lágrimas, sustenta-se
de dores. E quando vai, de tocha acesa, esguio, a galgar atrás dum
carro funerário, na reles mascarada, em que irá ele a pensar,
esbaforido e triste?...

       *       *       *       *       *

Outros... Casaram há muito. Chamam-lhe a Rata. Pobre e sem mãe
atiraram-na um dia para um colégio de órfãos, onde cresceu entre maus
tratos. Riam-se dela. Era um aborto que crescia por caridade. Passava
a vida na enfermaria e os médicos--acho que de propósito--livraram-na
da morte, para que depois sofresse.

Encontro-a nas escadas, com as botas do homem, os cotovelos rotos, e
magra e desleixada que faz piedade.

--O melhor tempo que eu vivi foi o da enfermaria. Havia lá uma Irmã que
me beijava e fazia festas...

Mais felizes são os cães vadios, mais felizes, incomparavelmente, são as
árvores.

O homem desanca-a. Chega a casa e bate-lhe, faz-lhe tratos. Se ela
chora e se queixa desanca-a mais. E agora, como ela não dá palavra e só
pensa:--Antes eu fosse para criada de servir!--ele quer que a Rata
grite e chore.

Antes tu fosses para mulher da vida, digo-to eu!...

Esta manhã apareceu com os olhos inchados e pisaduras na cara. O
vestido já lhe não serve. E como está frio, reparei, traz os pés
metidos nos sapatões do marido, sem meias e roxos. Aprende na vida,
sofre! Nada te valerá. Até à morte, até que te acabe de matar com maus
tratos. Às vezes, se ele sai, põe-se à janela, a cismar na Irmã,
que, quando caía doente, lhe dava beijos, lhe fazia festas--e
pergunta-se:

--Porque não morri então?....

Cala-te e sofre. E até à morte, até o teu pobre corpo cair exausto,
moído, negro de pancadas. Assim será irremediavelmente, inexoravelmente.

       *       *       *       *       *

Este velho que pára nos patamares das escadas, gordo e mole, de
cabelos brancos estacados, é o Gebo. Todo curvo, olha-vos com um olhar
aguado e tonto.

--Ó Gebo!

E ele, erguendo o carão aflito:

--Anh?...

       *       *       *       *       *

E como este, outros assim. A toda a hora vai o enxurro humano polindo as
pedras. A ventania açouta o casarão e passa, levando poeira de cisma,
ais, para outro mundo ignoto. Com a noite a vida redobra. Eis uma
multidão feita de terriço, de criaturas tendo arrancado a máscara:
certos homens são sonhos, outros di-los-íeis gritos. Põe-se o Gebo a
contar a sua história, surge o Corsário, uma velha trágica, com o caio
dos palhaços, o Astrónomo, um sábio hirsuto, o Gabiru, filósofo esguio
e hirto como uma tábua, que tem descoberto mundos e ignora as coisas
mais simples desta vida. Remexe num brasido de ideias e nunca olhou
cara a cara a existência. Anda atónito na rua, perdido num mundo que
descobriu à proa do seu barco como um navegador. No subterrâneo do
prédio mora--há quantos anos?--_o homem do pacho_, de quem ninguém sabe
a história. Emparedou-se. Odeia a luz: essa poeira azul, que embebe os
seres e as coisas, Março, a árvore, a vida tumultuária e larga como um
rio, nunca mais a viu. Está vivo num túmulo: só as paredes esbraseadas,
à força dele sonhar, a rubro como as pedras duma forja, conhecem a
sua história. Pára no patamar o Gebo contando o que sofreu aos pobres
que o querem ouvir. Muitos fazem roda e ele, pícaro, desata a chorar e
narra pedaços duma triste existência de humilhação e de esmola, sempre
esbaforido e escorraçado, a filha a sustentar, o desprezo do mundo, as
suas correrias, desorientado e com lágrimas, atrás do pão para os seus.
E termina sempre:

--Tenho pena de ter sido honrado...

       *       *       *       *       *

A ventania présaga aumenta, abalando o Prédio. De que é construída uma
casa? De pedra. Todo o globo é revolvido para abrigar o homem. A árvore
e a ossada da terra são arrancadas para o servirem. Juntem a isto
gritos. De pedra, de árvores e de gritos fora construído o Prédio. Juntem
a isto sonho, que transforma as coisas. Um gritava nos subterrâneos,
outro de tanto sonhar empoeirara de oiro o granito negro. De forma que
toda a casa gasta, amolgada, revolvida, tinha tomado alguma feição
daquelas existências. É a habitação do Gebo, das prostitutas, do
Gabiru, do Pita. Escancara-se o portão, caiem-lhe os telhados, mas se,
em cima, nas mansardas arrombadas dá de chapa o sol, acreditá-la-eis a
cismar, a cantar. É efectivamente de pedra--e de sonho.

Chove, mas em torno a terra árida, não tem água nem plantas.

Só uma árvore cresce naquele solo infecundo. Sustenta-se de dor. As
suas raízes foram minando até ao Hospital, construído em frente da
casaria, para sugar a vida dos pobres. Se um raio de lua, escoado pelas
nuvens, a toca--eis um fantasma de árvore todo de pó de luar.

Quedo-me sozinho nas noites estiradas, ouvindo este enxurro vivo. Muitas
vezes são lágrimas que correm ou emoção que brota com o ruído dum fio
de bica cheio de cintilações e rumores. O cair de lágrimas é sempre
duma tristeza pacífica... Na noite negra o Hospital entaipa a cidade:
árvores, noras humedecidas, donde sai a frescura do chão, montes
solitários, parece que os proíbe aos desgraçados: como um velho
sumidouro espera, guarda, construído de pedra e num brasido por dentro,
todos os que sofrem, santos, pobres, mulheres perdidas e heróis.

O Pita, embrulhado no seu xaile-manta, murmura às vezes ao
contemplá-lo:

--A misericórdia humana constrói destes castelos, para que os ricos
não assistam ao sofrimento dos pobres. E fá-los de pedra, de granito
bem sólido, para que se não ouçam os gritos cá fora.




II

O GEBO


Heis de tê-lo encontrado esse velho gordo, de cabelos brancos estacados
e um ar de aflição que faz riso e piedade. Tomba às vezes na rua,
levanta-se, e, todo enlameado, olha para os lados e chora; depois
caminha esbaforido. Parece que vai gritar, esse ser mole e gordo, de
cabelos brancos estacados, e, de súbito, baixinho, pede-vos esmola. Tem
um riso de humilhado e o aspecto duma bola de sebo--de cabelos brancos
estacados. É o Gebo. É um gebo por ser pícaro e roto e por a desgraça o
ter calcado aos pés até o tornar ridículo.

       *       *       *       *       *

Triste existência sem ódio e sem gritos. A vida não na entendia e a
cada empurrão tinha um ar espantado e aflito de quem não compreende.
Que mal fizera? que mal fizera? Pois a desgraça faz rir? o sofrimento
faz rir?

E em torno as bocas escancaravam-se, ao verem-no gordo, pedinchão e
desgraçado.

As piores ruínas resumem-se nesta seca frase--ser infeliz. Há seres
que nascem com uma sina--amargar a vida. Tudo lhe corria torto, até as
coisas mais banais e mais reles, as coisas que para os outros nem mesmo
existem, e ele punha-se a olhar para a desgraça, atarantado e estúpido.
Que mal fizera para sofrer?

Além de desgraçado, este homem fora sempre pícaro: assim no globo passam
existências ignoradas de sofrimento e de bondade, que não deixam o mais
simples vestígio, como os veios de água escondidos e que no entanto são a
vida da terra.

Mesmo posto a chorar, a sua máscara, de cabelos brancos estacados,
fazia rir.

Sempre a suar, quase sem saber gritar nem saber queixar-se, o Gebo tinha
um coração ígneo. Era destas criaturas a quem um montão de desgraças
torna ainda mais ridículas: a ruína, a quebra, a miséria, a fome.
Enlameado pela vida fora, resignado e chorão, ele aí vai...

--Ó Gebo!

E todos se riam ao vê-lo chorar de aflição. Diziam uns:--Que não fosse
tolo!--E os pobres, a quem ele tanta vez valera, gostavam de o ver
calcado e humilde como a terra dos caminhos. Qual é a razão porque a
desgraça alheia consola a nossa própria desgraça, dizem-me?...

A tressuar, aflito, depois de espezinhado, ainda esse ser mole e
gordo, aos quarenta anos, cria na existência como as árvores e as
crianças crêem.

Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o deixou? Há
criaturas em quem a desgraça se escarrancha no cachaço, e é para sempre!
para toda a vida! Nunca mais as larga. Viera a quebra, aflições sem
conto, ainda mais negras que o coração dos outros. Enganavam-no, com a
alegria de o verem rebaixado e perdido, empurrão daqui, empurrão
dacolá, aos tombos por esse mundo.

Era casado o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha!...
Uma filha sempre prende a existência! uma filha pequenina sempre tem nas
mãozinhas uma força!

Assim esse velho ridículo e gordo também fora feliz outrora. Era
destes lares apagados e sumidos, onde a vida corre com a monotonia
duma fonte, sempre igual e pronta a apagar todas as bocas sequiosas.
Uma casinha velha, um quintalório com seis árvores, um fio rumoroso
de água e as janelas abrindo para a sombra amiga das fruteiras. Ali
era a felicidade. Dão-nos as árvores toda a sua sombra: nunca nos
enganam.

       *       *       *       *       *

Muito tempo mentira à mulher, que ia vivendo iludida. Ria o Gebo em
casa, com o coração torcido, para que elas fossem felizes mais algumas
horas--últimas horas tiradas à desgraça. Até que um dia sucumbiu:

--Eu não te queria dizer... Mas ó mulher! ó mulher!...

--Que é? que foi?

--Estamos perdidos, estamos perdidos...

--Perdidos?!

--Sim, estamos... E agora? agora? Ninguém me vale, ninguém se importa.
Tenho pedido, tenho andado... e já não posso! Estamos perdidos,
mulher!...

--Estamos perdidos?

--Sim...

--Tu é que tens a culpa, não tens mesmo finura nenhuma. Riem-se de ti.
Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. Anda, vai!... Tu que
queres? Que há-de ser de mim e da pequena? Nós temos culpa das tuas
tolices, das tuas desgraças?...

--Não, mulher, não, bem sei...

--Anda!

E ele voltava, todo o dia corria esbaforido, até que uma noite a mulher
viu-o entrar, sem chapéu, enlameado, exausto--e de cabelos brancos
estacados. A ingratidão embranquecera-o. Era ao crepúsculo. Tombado,
como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando baixinho:

--Oh a minha filhinha!... E todos se riram de mim, todos!... Ninguém se
importa. Quem quer saber da desgraça dos outros? Ai a minha filha!

Começou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos os lados
havia vozes a clamar, a escarnece-lo:--ó Gebo! ó Gebo!--Nunca mais houve
paz na terra para ele: mesmo no seu lar tinha certo a toda a hora os
ralhos da mulher desvairada e as lágrimas silenciosas da filha. Oh essas
horas férreas em que olhara em torno perdido e só vira secura e risos!
essas horas tinham-lhe deixado suor de aflição para o resto dos seus
dias. Tudo se arrasara. E curvava-se sob as palavras da mulher,
amachucado, sem forças para lutar, quebrado pelos desenganos e pela
indiferença dos outros.

--E agora? agora? perguntava-lhe ela.

E ele caído:

--Agora não sei... Agora morremos todos à fome.

Batera em vão a todas as portas, aniquilado, sem ideias e sem forças. Só
sabia chorar, mole e grotesco, enquanto a mulher, que a desgraça
secara, lhe atirava impropérios, gritos:

--Mas levanta-te! procura! salva-nos!

Anda Gebo! E ele lá saía, tornava aos amigos, pedinchão, desnorteado,
atrás de empréstimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de
súbito a esbracejar com gritos e soluços.

Heis-de tê-lo encontrado esse velho gordo, de cabelos brancos
estacados, aos empurrões na vida e com um ar de aflição que faz riso e
piedade.

--Ó Gebo!

--Anh?

--Conta!

E ele logo, em palavras rotas, precipitadas, bebendo as lágrimas:

--Ó Senhor!... Tanto tenho andado e tanto tenho sofrido! Quanto mais
faço pior, ainda é pior... E já não posso mais... Acabou-se! Só Deus sabe
pelo que tenho passado, as desgraças que tenho rapado e as aflições,
para arranjar ao menos o triste pedaço de pão para a boca... O pior é
delas. O meu coração estala, tanto tenho sofrido. Trago a noite cá
dentro. Que se lhe há-de fazer? Curtir a desgraça. Anh? Tenho pena de ter
sido honrado...

E fica com a boca aberta, chorão, de cabelos brancos estacados.




III

AS MULHERES


Ao vir a noite põem-se as prostitutas a cantar; entre as pedras
ressequidas e o ruído humano põem-se as prostitutas a cantar. São pobres,
tristes, seres de descalabro e piedade, lama que o homem gera de
propósito para o gozo. A treva leva e dispersa essa toada em farrapos,
flocos de tristeza, que são como a alma, a aflição da noite, a
soluçar. Noite... Andai, vinde, remorsos, sonhos, soou a vossa hora! De
blocos negros se constrói uma cidade. Há ainda claridades esparsas,
neblinas, que a Sombra calada, a tactear, de súbito afoga sem rumor. E
dentre as meias portas surgem fisionomias como só o remorso as cria:
diríeis, de tristes e cansadas, que se vão diluir como as das mortas.

É a hora do gato-pingado descer as escadas a passos cavos, do Gebo
contar sempre a mesma história desconexa, dos pobres saírem à procura
de pão.

No escuro as mulheres falam para se esquecerem. Às vezes somem-se as
bocas e da treva rompe aquela voz de tragédia, como se a treva
falasse, ao que dum canto a escuridão responde:

--Ó tu!...

--Que é?

--Lembrou-me agora uma coisa.

--O quê?

--Nesta vida sabeis o que há de pior? É nem a gente poder estar triste.

--Ai começas tu...

Lento e lento, a noite que cai as afoga e na escuridão sente-se pairar
a Desgraça... Calam-se e depois a mesma voz começa:

--Vem um e quer que eu me ria, vem outro e quer-me triste. Quem entra
que se lhe importa?

--E então?

--Nada. Mas ainda assim olhai que é triste a gente não poder ao menos
lembrar-se...

--De quê?

--Do que lá vai...

--Melhor é a gente não se lembrar do que passou.

--Tomara eu ser como morta--afirma outra voz.

--E tu?

--Eu? Tu falas para mim?--pergunta uma magra surgindo do escuro.--Tomara
eu não ter memória, para não tornar a vê-la, como quando a vi estirada
no caixão, por _vê_ de mim...

--Quem?

--À minha mãe.

--Ah!...

--Pois é...--diz a primeira voz--Nesta vida a gente não se deve
lembrar. Toca a cantar raparigas... Cantai!

E as mulheres continuam a cantar, numa toada esfarrapada, duma
tristeza imensa. Depois calam-se e uma torna a falar. Dizem sempre as
mesmas palavras, mais para fazerem ruído do que para que as ouçam. Há
uma que ri de tudo. É magra, pálida e gasta. Traz um pacho negro num
olho e ri sempre, com um ar de máscara, de si, das outras, de todas as
suas desgraças.

--Eu sou a Mouca--começa ela às risadas.--A minha mãe deitou-me fora
era eu pequenina, e eu, se tivesse uma filha, botava-a à roda para
ganhar a vida. Tomaram conta de mim os ladrões, cresci na rua e a minha
cama eram as pedras dos portais... Tomaram conta de mim os ladrões.
Vidas! vidas!...

--Tu não te calarás!

--Em pequena andei todo um Inverno com uma camisa rota. Até foi bom,
agora não sinto o frio. Depois moeram-me. Vocês não querem saber?
Calcavam-me aos pés por nada. Aprendi. Muito custa a levar a vida... Aos
treze anos um ladrão desfrutou-me. Era um velho careca que parecia um
S. Pedro. Chamavam-lhe o Lesma, vocês hão-de ter ouvido falar. A gente
só aprende à sua custa. Vidas! vidas!... Eu sou feita de terra, da terra
que todo o mundo pisa, mas também já tenho calcado. Ele há desgraças
piores, eu sei que há. Já vi gente morrer por não ter uma côdea para a
boca. Olhai que eu conheço a desgraça. Tenho-a encarado... Faz mal quem
se abaixa... Um dia a gente põe-se a gostar dum homem e ainda é pior.
Que se lhe há-de fazer? Todas temos de nos sujeitar, todas somos o mesmo,
as ricas e as que não tem uma sede de água. O pior é quando se começa a
gostar dum homem...

Vocês sabem o que é o amor? O amor é cada qual ser como um cão. É a
gente ser menos que nada e eles serem tudo. Aí têm o que é o amor.
Ele a bater-me e eu a dizer cá comigo:--Tu que me bates é porque
gostas de mim...--Aí têm o que é o amor, é a gente ser menos que um
cão... Eu escrava, ele o senhor. Acabou-se! todas temos de sofrer.

--Todas. Não há nada pior do que nascer mulher.

--Eu nunca tive sorte. Que me importava a mim que ele me batesse?
Punha-me a olhar para as nódoas do meu corpo e a dizer cá por
dentro:--Este é meu amigo.--Um dia partiu-me um braço, mas a gente é
como os cães, que só gostam dum dono que lhes dê pontapés. O pior foi
que ele botou-me ao desprezo. Os homens são todos o mesmo... Vidas!
vidas! Um dia disse-me:--Estou farto de ti.--E sabeis? nunca mais falou
para mim. Ai, quanto mais se pena por amor dum homem mais se lhe vem a
querer!--Mas deixa-me gostar de ti...--Vai ele disse-me:--Fora!--E eu
fiquei passada. O meu comer eram lágrimas. E bebia a toda a hora para
atormentar uma dor que se me pusera no coração. Mas ele vem! ele
torna!... Qual!...

--Como se chamava?

--Que te importa? Não é bom alumiar os mortos. Deixai estar quem está
quieto. Ah, se vós o vísseis morto como eu vi!... Ver morto um corpo que
se teve nos braços é como ver no caixão um filho. Por mais que a gente
grite não lhe dá vida! Trazia sempre no coração a mesma dor... Vai uma
vez vesti-me sossegada e fria como defunta e fui ter com ele.

--A que vens? disse ele. E eu disse-lhe:--A servir-te.--E ri-me.--Já
sei que me não podes ver, acabou-se! não me importo. O que te peço é que
me deixes servir-vos. Venho ser vossa criada.--Ele pôs-se a rir. Depois
veio ela e eu pus-me a rir também.--Venho ser vossa moça, quanto me
dais de soldada?--Eles cochicharam.--Onde vocês puserem os pés ponho eu
a boca. Aqui estou, aqui me têm.--Eles riram-se de mim.--Anda
escrava!--Vai eu e ria-me.--Que quereis de mim?--Rua, escrava!--e eu
ia-me embora. Um dia peguei e dei-lhes rosalgar a comer. Comeram-no.
Então, quando o vi morto, pus-me a rir, a rir, que era uma dor do
coração. Levaram-me em braços. Na cadeia chamaram-me a perguntas e eu só
me ria. Já me doía a cara de tanto rir e via-o sempre morto a meu
lado.--Porque o mataste? E eu desatava a rir-me... Aqui têm, cada qual
cumpre o seu fado. Todas temos de nos sujeitar e de sofrer. Eu sou a
Mouca--terminou às risadas.

       *       *       *       *       *

Aquela porta aberta para a tragédia e para o escárnio fica em frente do
Hospital. As mulheres dos ladrões e dos soldados moram ao pé da dor. As
paredes são negras e húmidas: mãos ao roçarem-nas deram-lhes aflição,
gritos abalaram-nas. Acreditá-las-íeis construídas do mesmo sonho e da
mesma pedra de que é feita a vida.

Lá dentro, a uma luz enfumaçada e oleosa, as mulheres expõem-se como
farrapos de adelo ou máscaras: direis retratos feitos a tressuar
de aflição, tanto desespero resumam as bocas que gargalham. Duas à
porta espreitam, uma cisma com a fisionomia petrificada, de embebida em
mágoa, outra canta, e a patroa gorda e desdentada, calcula o ganho. É
dura, espremida, de feições cruéis e cóleras súbitas. Às vezes
prega-lhes horas e horas:

--O amor sabe a zinagre. É pior do que a morte... Não no queiram,
ouviram?

--A senhora fala! fala!... Bem triste é achar-se a gente sozinha no
mundo,--diz uma derreada e tísica.

--E ter o quê? Escárnio, só se for...--acrescenta outra.

--Eu de mim, se fosse sozinha no mundo, cuido que me afogava.

--Pois andai! andai!--diz a patroa--Fartai-vos de desgraça. É só fartar.
Que sois vós? Menos que terra... Ireis deste mundo fartas de desgraças.
Antes morrer no rio!

--Eu cá--diz outra--tenho o corpo negro, mas que me importa? Se o meu me
deixasse antes queria acabar... Pela minha salvação que ia direitinha ao
rio.

--Depois queixai-vos...--ameaça a velha.--Sereis pior do que arroladas.

--Nem as pancadas dele me doem, e mais o meu faz-me comer
terra,--afiança outra.

--A gente não tem mais ninguém no mundo. Quem quer saber duma
_desinfeliz_?

--A gente não tem pai nem mãe, nem fôlego vivo.

--Se choro, os outros riem-se. Quem entra e sai que se importa?

--E ninguém neste mundo pode chorar sozinho...

--Eu cá--diz a Mouca--eu cá estou tão habituada a que me dêem dinheiro,
que se o meu amigo fica comigo, escondo moedas no lençol... Quando
acordo e as encontro, parece que me pagaram.

As outras riem-se com risos que destoam, e a patroa prega-lhes:

--Vocês nem sequer vêm... O que aconteceu à Maria? Afogou-se e o amante
ri. Hélia lá foi para o Hospital. É morta. E todas morrem se se deixam
ter coração.

--Às vezes mais vale morrer.

--Morrer!...--exclama a tísica.

--Eu já me matei... E depois? Foi quando me vi sozinha no mundo. Ele
tinha-me desprezado. Peguei e bebi um quarteirão de água-ardente com
lumes. Pensais que estou arrependida? Ah, se a senhora soubesse o que se
sente!... Quando me vieram dizer--foi a Mouca--que o meu amigo estava
com outra, foi como se tornasse a ressurgir diante de mim a mãe que eu
matei à força de lágrimas, por me ver na triste vida. Nem podia gritar.
Tinham-me secado os gritos aqui--na boca... Saí, andei...

A porta dela estava fechada e ali fiquei até de manhã ao frio. Os
homens que passavam diziam o que lhes parecia, porque ninguém ideia o
que cada um traz dentro do coração. Cismei, passei a noite ora a
cismar, ora a chorar. Nesse dia pôs-me ele o corpo negro, como este
lenço que trago na cabeça. Olhai... Ainda tenho as marcas. Estas só na
cova me passam.--Farta-te, se queres, mas não me deixes...--Vai ele e
disse:--Fica-te para ai, estupor, que te não posso ver.--Vejam
vocês!... Se isto é assim no mundo, se a gente cá vem para isto, para
nos deitarem fora, e não há mais nada, era melhor morrer... E antes
tivesse morrido para não ter mais que penar...

--O Hospital está à espera, raparigas--diz a patroa dum canto.

--Ouvi dizer que os estudantes cortam a gente para estudar?...

--E a mim que me importa?

--Eu já ouvi a um... E o que eles se riem uns com os outros!...

--Depois da morte a gente não sente.

--Quem é pobre acho que vai sempre para eles aprenderem a estudar.

--Pois a mim é o que me entristece... O meu pobre corpo ser
retalhadinho!

--Lá está o Hospital à espera, raparigas!...

--Tu não te calarás!

Riem-se, uma fica cismática e a patroa continua:

--Filhas ainda podeis enriquecer. O que é preciso é muita experiência da
vida. Olhai que na terra só há dor e vaidade. Não há nada pior do que
envelhecer pobre... O que eles se riem! Se lhes pedis pão, dão-vos
escárnio. E põem-se a rir até do nosso ódio, ouviram?

--Quem nasce para esta vida mais lhe valia morrer.

--E tu para que vieste?

--Foi o meu fado.

E a velha continua:

--Haveis de querer comer e tereis...

--O quê? diz uma ansiosa.

--Pedras.

--Acabou-se! diz outra.

E fica cismática.

--Mais nos valia morrer.

--Mais valia.

--Andai, andai! Lá está o Hospital à espera. Lá tendes todas uma enxerga
e o lençol. E o cemitério pode sempre com gente. Aquele nunca se farta.

--Tem sempre fome,--murmura do lado uma sorrindo.

--Pois tem,--afiança a companheira.

--Deixá-lo ter!--exclama a Mouca.

--Envelhecei pobres e vereis! vós vereis!...--ameaça a patroa pondo-se
de pé.

--O quê senhora?

--Para sempre, traz-se para sempre uma pedra no coração sem se poder
arrancar.

--Então para que nasce a gente? Só para sofrer?--pergunta Sofia.

--Só. A este mundo vem-se para sofrer.

--Ah!...

--Enganai-os. Tratai do ganho, de juntar, de juntar muito dinheiro. O
resto tudo é fingido...

Mas uma, triste e magra, a _tísica_:

--Nesta vida todos nos rebaixam e a gente precisa de encontrar alguém,
um pobre como a gente...

--Inda que seja um ladrão...--interrompe Luísa.

--Ao pé de quem se não sinta desprezada.

--Meteu-se a gente na triste vida e nunca mais pode sair--afiança
outra.--Olhai que me lembro... Cada qual aqui é menos que nada, é como a
terra...

       *       *       *       *       *

Calam-se e cismam ou passam as longas noites de Inverno a cantar, em
frente do Hospital trágico. De dia pela porta escancarada vê-se _o
banco_ do hospital. Nada mais puído do que essas míseras tábuas de pinho
secas, gastas, destingidas, e nada também mais comovente. Vivem,
estremecem. Há coisas que à força de serem tocadas por mãos humanas,
ganham alma, criam fisionomia. Antes da morte ali tombaram os corpos
que, como uma pua, a dor brocou. Aquelas tábuas mirradas, de se
sentirem a toda a hora roçadas pelas mãos de náufragos (todos os que
entram no Hospital ali passam, santos, poetas, pobres com a boca cheia
de gritos) começaram uma outra existência.

Foi a árvore arrancada à terra para amparar os pobres. É ainda mais
bela do que levantada no topo do solitário monte, ao nevão, ao sol, à
tempestade, às estrelas. Ei-la enfim somente erguida para a dor. Tábuas
que já deram sombra na floresta, embebidas de seiva e de azul, vieram
servir de encosto a míseros: tem nódoas de sangue, dedadas de aflição e
suor de desgraçados que se entranhou na madeira.




IV

O GABIRU


No último andar do prédio mora o Gabiru, um solitário filósofo, esguio
e triste como um enterro, armado da mais formidável penca e da mais
estranha sabedoria que Deus tem criado. Nunca viveu. Tudo que existe
para lá do Hospital é para ele um grande mar ignorado e verde.

A realidade também não na entende: solitário e pencudo, da vida só se
fartou com sofreguidão desta fonte que transborda--o sonho. Tem o olhar
extático e, metido na trapeira com ignóbeis calhamaços, deixa correr
as suas ideias à solta como os rios. Assim, metafísico e pobre, de raras
palavras, deitou-se a amar a Mouca, escárnio de soldados.

Nasceu para sonhar. Tem um suspiro de alívio quando se fecha na mansarda
e exclama:--Vou idear!...--Sabe palavras, teorias, cartapácios, e nunca
viu ao pé os rios, os montes, nem as árvores. Remexe em ideias profundas
e nunca encontrou a realidade.

É assim feliz e triste. Posto à janela do cubículo sente correr o
doirado jorro dos dias, cisma num portentoso sonho e ama. Entre as
ideias que vai tecendo surge aquela figura trágica, que todo o dia ri
com os ladrões e os soldados.

Mas ele ignora a vida. Alguma coisa porém existe de imaterial--emoção
violeta e oiro--que o rodeia, quase o toca e súbito foge magoada e aos
soluços. E fio a fio vai tecendo e constrói a sua teoria:

       *       *       *       *       *

«Oh como eu tremo diante das árvores, do luar que corre branco e sem
murmúrio, da natureza esplêndida!... Passo por doido e na verdade eu
quase grito de pavor diante do espantoso universo. Olhai a treva a
escutar, o mistério, a água que brota sem ruído, a árvore de braços
erguidos, o caliginoso mar...

O homem passa indiferente, mas eu sinto-me enlouquecer diante das
coisas mais simples: dum farrapo de nuvem como um sudário a rasto, dum
raio de luz em pó, todo de oiro vivo, que entra no meu quarto. Nunca me
pude habituar a olhar a natureza cara a cara. Isto! que significação tem
isto? É um sonho, um grito de beleza, uma alma? Montes verdes e
etéreos, constelações infinitas, névoa que do mar nasce e sobre o mar
vai, como um portentoso rolo, como um giganteu fantasma...

E não adquiro o hábito. Todas as manhãs é como se pela vez primeira me
achasse diante da monstruosa natura--verde, oiro, azul, como os seus
rios, florestas, o mar a bramir e árvores que são seres!... Por isso,
sobretudo nestes dias de Inverno, em que anda uma prodigiosa voz
de Adamastor a pregar à terra e às coisas dilaceradas, eu me ponho,
escondido e só, a discutir o enigma...

       *       *       *       *       *

Devo, porém, notá-lo: eu sou uma criatura singular. Há até quem me
suponha doido. Todos os que são apenas restos de sonhos vivos e
despedaçados como eu, têm este feitio encolhido e transido. A esta hora
da noite em que o universo parece desabitado e em que até o rumor da
pena no papel me faz medo, fecho-me sobre mim mesmo e escuto-me: alguma
coisa, que não sou eu próprio, se põe então a murmurar baixinho. E
eis-me perdido, no canto duma negra trapeira, encolhido e esguio, a
sonhar em quê? Nesta beleza infinita, o universo ígneo...

Desabituei-me de falar, mas sonho. Há vozes esplêndidas dentro em mim;
de mim brotam árvores, estátuas mutiladas, pedaços vivos de sonho. Oh eu
creio que cada criatura é um composto de almas de montes, de pedras,
de águas, e creio também que existe uma misteriosa ligação entre o homem
e os mundos. Estou preso às estrelas e aos cardos humildes.

Dizem rindo se eu passo encolhido e esguio:

--Lá vai o Gabiru!

Deixá-lo dizer! Eu sou mais feliz do que aqueles que riem, e antes
quero conviver com os desgraçados do que com os outros. Deles tiro
emoção para o meu sonho. Depois fecho-me nesta trapeira alta,
construída nos telhados e donde se vêem seres admiráveis: labaredas
verdes que se agitam--e são árvores; nuvens pousadas sobre a terra com
oiro a flux ou então dum violeta desfalecido--e são montes; e rolos
que correm vivos e fluidos--e são rios. Muito tempo levei a
decifrar-lhes o nome. Nenhum dos desgraçados o sabia, porque o Hospital
enorme entaipa a cidade, e essa vida húmida, noras, torrentes de
detritos, árvores, primaveras, gritos de sol, é desconhecida a todos os
que sofrem lá em baixo, entre o granito ressequido. Só outro pobre, o
Pitta, da trapeira contigua vê como eu a prodigiosa natura--a Mãe.

Oh! e há horas, quando uma neblina de sol cai sobre as coisas
estarrecidas, todas verdes, em que eu quase toco o mistério. Ouço as
palavras da natura, numa linguagem giganteia, de que não compreendo o
sentido. Os sons são sílabas perdidas, umas de oiro, outras verdes. O ar
é fino, alma empoada de luar, as árvores desmaiam e os grandes montes
pálidos, onde o sol deixou fuligem, que vai esmorecendo até ao vir da
noite, falam baixinho, entontecidos. Mais tímido é o murmúrio dos
fontes, como se não quisessem perturbar o espantoso diálogo.

É esta a melhor hora para se ouvir e em que eu quase entendo as
palavras. Há coisas desfalecidas: árvores vão tombar cheias de emoção e
de tudo o que existe sai uma prodigiosa alma etérea e viva, que me
envolve e toca, e que fala! que vai falar!...

Donde nasce esta beleza? donde vem tudo isto?... Se um homem cai
prostrado e grita as suas palavras ígneas são apenas sons, que
misturados a outros gritos de dor, formam palavras dum monólogo
giganteu. E credes que existam montanhas, águias, o mar, crede-lo por
ventura?.... São sílabas, são vozes da Terra que entra no diálogo. E
mundos, estrelas, são palavras d'Aquelle que no infinito prega. É
sempre a mesma força, a única força que cria a beleza e o sonho, a
força donde brota a Vida.

Eu tinha visto que a dor era sempre necessária para se produzir alguma
coisa de belo e de giganteu: para se agarrar um pedaço de sonho, que,
apenas entrevisto, foge: para que nas nossas mãos esquálidas fique um
farrapo dessa figura de prodígio: para que a vida tenha um fim: para
amar: para criar: para que alguma coisa de duradouro reste. Num grito
existe sempre viva uma porção de beleza. Da cova nascem coisas
materiais, formas, árvores, nuvens--da dor jorra a beleza absoluta.

E com que fim? dir-me-ão.

Imaginem um estatuário: para compor uma marmórea figura, para realizar
um fantasma entrevisto, precisa de sofrer. Depois tritura o barro,
petrifica a dor. E acaso se pergunta se o barro sofre? Assim Deus
esmaga o barro que nós somos para construir alguma coisa de
extraordinário: mundos, a Vida e a Morte, alma infinita que tudo
atravessa.

De que precisam os poetas para fazer uma obra de génio? De dor. O
sofrimento cria. Lembram-se das figuras de mármore, para sempre
debruçadas sobre os túmulos antigos? O luar que vem pela rosácea gótica
ao tocar-lhes dá-lhes uma vida de sonho, fá-las todas de poalha:
estremecem, levantam voo, dir-se-ia. Pois a dor, fio a fio, como o
luar, dá vida ao sonho.

Para se criar é preciso sofrer-se. Hoje e sempre só a dor é que deu
vida às coisas inanimadas. Com um escopro e um tronco inerte faz-se uma
obra admirável, se o escultor sofreu. Mais: com palavras, com sons
perdidos, com imaterialidades, consegue-se este milagre: fazer rir,
fazer sonhar, arrancar lágrimas a outras criaturas. Com as simples e
secas letras do abecedário, um desgraçado com génio, mentido numa
água furtada, edifica uma coisa eterna, uma construção mais sólida e
mais bela, do que se fosse arrancar os materiais ao coração das
montanhas.

O que é então a dor, milagre extraordinário, que consegue dar vida às
fragas? o que é esse assombroso fluido, que se comunica, alma arrancada
da própria alma e que se pode repartir como o pão? Nunca houve sob o sol
criatura que sofresse da verdadeira dor cujo sofrimento não consolasse
ou salvasse. Até as mais humildes, tal como árvores que ainda depois de
mirradas, vão aquecer e alumiar os pobres.

A dor dá a vida e não é a própria vida: cria, redime, obra prodígios e
nada há que se comunique, que convença, que torne os homens irmãos,
como ela... Para onde vão pois todos esses gritos, unidos num só
grito? Visto que nada se perde, que é que se sustenta no infinito com
essa enxurrada de lágrimas? Deus?

Por muito tempo escutei o ruído de vozes, de exasperos, de gritos de
criaturas. Vinham da guerra, do Hospital, da miséria humana.

E desse mar espezinhado nasciam clarões, as nebulosas donde surgem
mundos. Esse eterno rio de gritos, a correr desde que o homem existe,
vai desaguar no infinito.

É que a dor é a única força que verdadeiramente cria e destrói: é a
Força. Alimenta Deus e o limo. É um atlântico de fogo, é o espírito do
universo. Cria claridades na alma dos desgraçados e faz nascer
montanhas.

       *       *       *       *       *

As árvores são emoções da terra.

       *       *       *       *       *

Sonhai! sofrei!

       *       *       *       *       *

Este mundo é talvez, como disse um filósofo desconhecido, uma gota
caída dum oceano infinito de beleza.

O universo é o sonho dolorido de Deus.

       *       *       *       *       *

Nada se perde. A alma, as ideias e as emoções, fazem parte da força que
faz florir o céu e os humildes pomares ignorados.

       *       *       *       *       *

Eu colecciono a dor. Passo a vida a juntar farrapos desse manto em
fogo.

O mundo é misterioso, cheio de gritos. A cada passo um túmulo donde
renasce uma amalgama, uma poeira verde, azul, doirada, cova onde o
Desconhecido remexe formas: o mar, as criaturas, as pedras, as
tempestades, tudo vivo e a falar! O homem passa inconsciente mas eu
tremo de pavor.

Estas pobres criaturas que vivem ao mesmo prédio em que eu habito,
ladrões, filósofos, coveiros, mulheres perdidas, são esmagadas para
que alguma coisa se crie. Geram o mistério, o mar bravo da dor, e as
macieiras anãs. Sob a nossa vista indiferente a cada passo se cumpre um
milagre: sol, água a nascer, pinheiros bravios e vivos!...

       *       *       *       *       *

Escutai... As coisas choram. Nesta noite de frio Inverno--ventania--o
que as coisas dirão!... Estão transidas--há que dias chove!...--o vento
despedaça-as e é sempre triste ouvir cair tantas lágrimas. Por momentos
quedam-se numa quietação, como se ficassem a escutar ou se pusessem a
falar baixinho entre si...

Eu tremo e, para me esquecer, deito-me a escrever o meu livro _A
Árvore_. É do lodo destas coisas humildes, que eu construo a minha
estátua disforme... Ora uma tarde destas, embebido nos meus pensamentos
como num largo horizonte, não reparei que pela porta aberta alguém
entrara. De forma que tive um sobressalto, ao ouvir a meu lado numa voz
pausada:

--Maquinações filosóficas, meu preclaro amigo...

--Hein?

Era o Pita, mas o Pita transfigurado e triste; o Pita com dentes a
menos e não sei que doloroso sorriso; o Pita mais velho e mais sórdido.

--Maquinações filosóficas meu preclaro amigo. A realidade é triste e
amarga. Isto que daqui vê e não compreende, árvores, montes e águas, é
no fundo tão revolvido e espezinhado como o lodo humano. Vem uma raiz e
despedaça outra raiz, um braço que se crie empurra logo outro braço.
Cada monte gera tanto ódio como o coração do homem.

--Por ventura o amigo já viu árvores ao pé? Eu só vi a do saguão.

--Sim, conheço-as não só dos bons autores, como de ter dormido à sua
sombra movediça e fresca... São diferentes: são vivas e enormes...

--E o mar?

--O mar, que daqui vê longínquo, todo do poeira verde, é trágico e
feroz. Brame de fúria, despedaça. É esverdeado e cheio de cóleras... Só
eu neste momento lhe posso dar informações categóricas, reais,
absolutas, só eu, Pita da Conceição, é que possuo no universo esse
segredo temeroso.

--E a Mãe, a natureza?

--Uma amálgama, um cadinho cheio de gritos; formas revolvidas e
trituradas, bocas que não podem gritar. Veja...

Para lá do Hospital havia ainda trémulos de luz, fios esquecidos de sol
emaranhados nas árvores, presos nos espinhos do monte. Dir-se-ia no
entanto que a vida redobrava: cresciam e murmuravam os pinheiros,
gorgolejava a seiva ao trepar nos troncos. De certo a água tinha um
ruído mais vivo, e a terra, que o sol queimara, bebia-a toda dum trago.
As noras cansadas pingavam ainda o seu último suor, e da noite que
descera irrompia um murmúrio, vozes de árvores e rios e montanhas.

--Maquinações filosóficas, meu preclaro amigo...»




V

HISTÓRIA DO GEBO


Por fim, na entrada desse frio e rigoroso Inverno, já tinha vendido
tudo, até o oiro da filha. De envelhecido e gasto, de pícaro e gordo,
di-lo-eis um trapo que se deita fora ou um doido de cabelos brancos
estacados, a falar sozinho. Toda a gente o conhecia.

--Ó Gebo!

--Anh?

       *       *       *       *       *

A mulher, que fora sempre boa, azedara com a pobreza. Nervosa e seca
passava horas e horas a chorar, atirada para um canto, ou pregava dias
inteiros: monólogos cheios de gritos, de sonho espezinhado, todos
lavados em lágrimas. Se tudo acabasse!... Mas nem a Morte escuta os
desgraçados, nem o tempo se apressa; vai moendo na sua mó,
consumindo-as, as tristezas, as aflições e o pão negro. O desespero
daquela criatura caía em impropérios sobre a cabeça do Gebo
espantado, a suar, e a quem nem a própria desgraça conseguia empedernir
o coração.

Todos os dias eram da mesma forma iguais, sombrios e tristes. Isto de
chorar um dia e outro dia, dá a impressão de que chove e se não sai do
Inverno.

--Deste, emprestaste a toda a gente. E agora? agora?--dizia-lhe a
mulher--Riem-se de ti ainda por cima, e ninguém te ajuda. Morremos à
fome.

--É o mesmo, mulher, é o mesmo. Paciência...

--O pior é de nós, de mim e da pequena.

--Pois é o que me aflige, que por mim quem me dera morrer!

--Não fosses tolo! olha os teus amigos como trepam.

--Ó mulher, mas que hei-de eu fazer? Tu não me dirás o que hei-de fazer?

--Roubá-lo! roubá-lo!...

E eram palavras negras, aflições sem conto. Às vezes esqueciam-se e
ainda palravam em torno duma esperança, a qual, agora nascida, logo a
desgraça calcava. A mais humilde poeira de ilusão bastava, para que
todos três, gelados pela desventura, se sentassem na enxerga, prontos a
edificar os mais altos castelos e esquecidos de tudo. Só a filha,
Sofia, era sempre a mesma, sem queixas, magra e linda, e com um sorriso
tão triste que lembrava certas horas em que há sol e chuva misturados. E
como o Gebo lhe queria! Pelo seu destino que seria amargo, por a ver
rapar misérias, e por ser o único ser no globo, que lhe não dizia más
palavras.

Lá ia indo pela vida fora, coçado e com um ar de aflição que fazia
rir. Parecia amachucado: as marcas dos encontrões nunca mais lhe saíam.

A mulher passava os seus dias numa luta desesperada com a desgraça,
arrancando-lhe os últimos trapos, disputando-os um a um até vê-los
desfeitos. Ao fim do dia ouviam-se os passos vagarosos do velho nas
escadas e a sua respiração--anh! anh!--sufocada.

--Aí vem ele...--murmurava a mulher.

O Gebo entrava e ela logo, sôfrega, morta por desabafar o que todo o
dia ruminara:

--Até que vieste, homem! E então? Conta. Então há alguma esperança?

--Não há nada, mulher.

E sentava-se arrasado.

--Também ninguém faz caso de ti. Que és tu? Sabes o que tu és?

--Eu não, o quê?

--Um ente inútil. Não há ninguém que se não ria de ti, das tuas
desgraças, das tolices que tens feito... Que é do dinheiro que tanto nos
custou a poupar?

--Eu sei lá agora do dinheiro. Não falemos mais nisso... O que lá vai,
lá vai.

--Pois é o que tu queres... Mas hei-de falar, hás-de-me ouvir. Deste
cabo de tudo, davas dinheiro a toda a gente... Tinhas-me a mim, tinhas a
pequena. Reparasses, era a tua obrigação.

--Ó mulher, ora tu que todos os dias vens com a mesma seca. Não me
basta a minha aflição!... De que serve isso agora?

--De que serve? Serve de muito!

À noite, à luz do petróleo, o Gebo fazia escritas com um cobertor pelos
ombros e as mãos geladas de frio. A filha, sumida na sombra,
compunha-lhe a roupa, e a mulher ralhava, passeando na sala. Batia a luz
do candeeiro na cara oleosa do Gebo, no nariz enorme, nos seus olhos
tristes, e, do outro lado da mesa, só se viam iluminadas as mãos de
Sofia, toda a noite trabalhando sem ruído e sem descanso.

--Já tive uma letra tão linda e agora... Os desgostos cansam a gente.

--É de ti! é de ti! Outros têm penas, desgostos, caem e tornam a
levantar-se...--dizia-lhe a mulher.

--Têm sorte, é o que é. Para tudo é preciso sorte.--E curvado sobre os
livros contando, murmurava mais baixo:--E vão sete--...

--Sorte! sorte! A culpa é tua que não tens energia nenhuma. Procura!
Deixas-te ficar espapaçado para ai... Tu o que queres é comer e dormir.

--Ó mulher!...--E erguia o carão aflito, onde batia a claridade de
chapa. Viam-se-lhe os olhos aguados.--Ó mulher, a gente também perde as
forças... Sempre a desgraça! sempre a desgraça!...

--Tudo nos corre torto!

--Mas...

--Tudo! Deixa-me!...

E desatava a chorar. Então o Gebo, aflito, a mão curta e gorda
ronronando no papel, mentia para lhe dar ânimo.

--Qualquer dia entro aí num negócio, tu verás... Não te aflijas.--E
vão cinco...--Também há-de chegar o nosso S. Miguel. A desgraça há-de-se
cansar de nos perseguir.

E o pão que trazia para casa era quase uma esmola. Mas tanto mentia, que
chegava ele próprio a iludir-se.

A velha reanimava-se. E outra vez passeava na sala, embrulhada no xaile
rapado.

--Não, que é preciso sairmos deste atoleiro.

--Agora vai, agora vai, tu verás. Ando aí com um negócio... Sabes tu
que mais?... Deixa-me trabalhar.

Ia a mãe deitar-se e Sofia, até aí silenciosa, dizia erguendo-se:

--Pai não se aflija.

--Eu não, filha, eu não. Aquilo é génio, coitada. Ela tem razão, tem
sofrido muito. Vai tu também para cama. Dá cá um beijo... Assim. Eu cá
fico com a escrita.

--Muito boa noite.

Sozinho o Gebo cismava muito tempo, olhando a luz. Depois, horas e
horas, ouvia-se a pena correr do papel, parar, tornar...--E vão cinco,
e vão sete... noves fora nada...--até que a vista se lhe toldava, e a
desoras, embrulhado no cobertor, tombava sobre a mesa, soluçando:

--Não posso! não posso mais! E tinha uma letra tão linda!...

       *       *       *       *       *

Na própria desgraça caem por vezes resquícios de sol. Assim houve tempo
em que respiraram. Tinham-lhe dado escritas, mas ia-lhe faltando a luz
dos olhos, e a vida de expedientes tornara-se mais aziaga. Achavam-no
ridículo, ninguém o tomava a sério, a esse homem gordo e chorão, que
vivia com esta pedra a gastá-lo--a sorte da filha. Escondido da mulher
empenhara a casinha onde moravam, e passava as noites trabalhando nos
livros.

Quase sempre ao deitar falavam da filha.

--É o que nos vale a nossa filhinha.

--Sempre nos dá mais ânimo.

--É tão boa, tão nossa amiga!...

A velha trabalhava, ruminava projectos desconexos para enriquecerem; a
roupa andava defendida e cuidada até às últimas. Luziam as coisas e
quase não comiam para poupar, sobretudo ela que tudo guardava para o
Gebo e para a filha.

--Ó homem, mas então? Toda a gente, se arranja e tu estás sempre na cepa
torta!

--Deixa estar, mulher! As coisas não vão como tu pensas.

--Ora não vão! não vão!...

Era ela afinal que o empurrava, àquele ser gordo e inútil.
Fortalecia-o.

--Por vossa causa é que eu luto,--dizia ele sempre.

Às vezes visitava-os uma parenta afastada, a tia Aninhas e as duas
mulheres punham-se a falar das pessoas conhecidas. Há criaturas que só
aparecem quando a desgraça entra numa casa. Era uma velha, de xaile
preto sem pelo, e que vivia de aproveitar os restos da miséria. Trazia
novidades e com que alegria a mulher do Gebo, ao ouvir-lhe dizer, que
pessoas suas conhecidas também eram infelizes, tinha pena dos que
sofriam como ela!

--Ó Aninhas ouvi dizer que a Desidéria está por baixo, coitada!...

--Tem tudo empenhado, filha. Passa muita fome.

E ela numa ânsia:

--Fome? passa fome? Coitada!

--Mesmo fome, filha.

--Que me dizes?

--É isto que te digo. E tu como vais com a tua vida?

--Agora, graças a Deus, vamos indo. As coisas vão-se remediando.

Entretanto o Gebo ia para uma loja conhecida onde se juntavam os
negociantes falidos, os professores sem discípulos, os burgueses
desesperados por terem perdido tudo. Falavam muito, procuravam
iludir-se. Enganavam-se uns aos outros, não por mentirem, mas para
tornarem mais visível a sua aspiração, o sonho que traziam escondido.
Discutiam imaginárias empresas, negócios impossíveis.

--Oh como eu sou feliz!...--dizia o Gebo--Agora tenho aí um lugar...

Nem sequer o escutavam e, se um saía, diziam os outros:

--Cuido que está cada vez pior.

--Um homem que teve um crédito na praça!

--Tem a fome à porta.

--Coitado! Eu agora é que trago entre mãos um negócio...

Porque é que eles não trabalham? Porque a quebra, as aflições, a
ruína, tolheram-nos para sempre. Perderam a energia e só sonham em se
tornar ricos. Vivem iludidos e tombam no sepulcro gastos e com a
cisma em maravilhosos lucros. E não têm porventura razão? Não vão
amanhã quinhoar dessa larga e misteriosa empresa--a Morte?




VI

PHILOSOPHIA DO GABIRU[1]


E que tu acreditas na imortalidade da alma? Bem fundo, bem arreigado?

Tenho horas em que creio: é uma esperança, um raio de luz entrando num
túmulo vazio pela junta abalada duma pedra. Porque crer? porque não
crer? Teorias, palavras... No íntimo, porém, sou materialista como toda
a gente. Dormir na terra funda e gorda é bom--dormir para sempre. Ir ser
árvore, luz, detrito, correr nas veias da terra, é quase
consolador--excelente sono sem sonhos, depois da lide canseirosa dum
dia.

Na Primavera quase sempre sou materialista, no Inverno idealista e com a
mesma sinceridade, quase com ferocidade.

       *       *       *       *       *

Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre,
que sonho!...

Ser só por cobardia, para não ter este aguilhão da vaidade a
espicaçar-me:--Então tu não fazes, e este, aquele, o diabo,
fizeram!--Ser só para sonhar e para ver este espectáculo único---a
natureza; para passar os meus dias vendo as transformações duma
daquelas árvores que daqui contemplo!...

Quando me fecho e estou só, sou tão diferente!... Como o homem é
desconhecido até de si próprio, porque o tempo passa, vem a morte e ele
não esteve sozinho! Se estou só vêm falar-me _vozes_--eu mesmo--mas com
que palavras únicas! Os seres de que sou composto, se me habituo à
solidão, nos primeiros tempos balbuciam, mas depois falam! pregam!...

       *       *       *       *       *

Tenho a certeza de que fui árvore e é por isso que tanto as amo.

       *       *       *       *       *

Há livros que falam baixinho, há livros que falam alto. Uns têm por si
o encanto, outras a força. Às vezes as palavras murmuradas impressionam
mais: passado tempo ainda elas acordam em nós fibras adormecidas.

Porque é que a água, até o mais humilde charco, atrai e faz sonhar os
homens de imaginação?

       *       *       *       *       *

Quanto mais desprezo o homem, mais amo a natureza. Ela é inalterável.

       *       *       *       *       *

O homem prende-se com muitas coisas inúteis: a riqueza, a ambição,
interesses mesquinhos: vive emaranhado numa teia. De forma que não tem
tempo de ver, nem de ouvir, nem de se conhecer. Quantas criaturas,
existem que nunca olharam para o céu? A natureza, árvores, montes, rios,
esse pélago que vejo do meu quarto deixa-os indiferentes; as horas de
preguiça e sonho deixam-nos indiferentes. Nunca tiveram tempo para amar
as coisas simples e grandes da vida. O que é eterno não no viveram. Por
mim antes quero comer pão e cismar, deixar correr as minhas ideias como
um regato corre--até onde tem água. Alguns morrem sem terem reparado que
existiram.

É por isso que eu corto sempre com tudo que me não deixa sonhar--e que
quando encontro razões para acabar com um amigo tenho um suspiro
de alívio. É uma amarra de menos.

       *       *       *       *       *

Habituar-se a gente a viver com ideias simples é como habituar-se a andar
com fatos velhos e rotos. Indigna os outros. De forma que tem de se
viver arredado.

       *       *       *       *       *

A morte aterra-me pouco. Porquê? Porque só penso na morte como numa
divida distante. Fica para muito longe ainda.

Há horas, porem, à noite, de súbito, em que, sem ligação, essa ideia
rapidamente me toma e abala até às mais recônditas fibras. Sufoco então
aterrado.

       *       *       *       *       *

Com que facilidade se matam até os entes mais queridos!... Quantas vezes
me surpreendo a assassinar eu a desejar a morte--é a mesma coisa, com
este acréscimo, a cobardia--de pessoas que sofreram por mim! Por a
menor causa, por o mais leve transtorno, o primeiro pensamento é este:

--Se ele morresse...

É claro que protestas logo. Protesta o teu coração, a tua educação, os
teus hábitos e até a tua hipocrisia. Mas se deixares trabalhar a
imaginação à vontade, sem peias, é uma hecatombe--por futilidades.




VII

PRIMAVERA


O Gabiru sentiu-se aquecido, como a terra quando vem a Primavera. Ia
criar! ia criar!... Aquele chão que só o arado do sonho lavrara, ei-lo
atravessado por este veio turvo, que tudo remexe e transforma--a Vida.
Consumira-o o sonho, tornando-o cambado e gasto, esguio e de olhos
perdidos de cisma...

Acordara enfim para a realidade e ele, que tinha passado a vida a
revolver um brasido de ideias, longe da terra e do seu lodo, amou a Mouca,
rasa como o chão. Todos se riam dela, magra e pálida, de pacho num
olho, com um ar de máscara que vai gritar de aflição.

O seu ideal prendera-lhe os olhos tal qual no-los prende o lume, de
forma que ao erguê-los, dera de cara com a vida e perguntara: Que é
isto? o mundo, a tempestade, tudo o que do cubículo vejo, arfando ao
sol, penetrado de ruídos e de sombras? Árvores acenando-me com os
braços, vozes de águas fartando as terras embebidas? Isto?... Tudo é luz,
é uma chama? E como tudo é belo!

Ver ao pé árvores e montes, a esse esguio filósofo habituado a
conviver com velhos cartapácios, parecia-lhe tão irrealizável como subir
às estrelas. Nos alfarrábios fala-se de tudo menos da vida. Por isso
acordando espantado, interrogava as ondas luminosas, os rios correndo, o
extraordinário mar: «Vós que me quereis?» E no alto da mansarda sorria
para a terra, pencudo e triste, esguio como um enterro.

--Porque a amas tu, filósofo?

--Sei lá! Amo-a. Dá-me vontade de chorar ao vê-la. Amo os seus olhos
tristes, o seu feitio do cão espancado. Amo-a, porque qualquer outra me
desprezaria, envelhecido a sonhar. Ela é parecida comigo, talvez tenha
pena de mim.

Todos somos construtores. De terra e de emoção andamos pelo mundo a
amassar estátuas; de realidade e de sonho arquitectamos as figuras que
se misturam na nossa vida. Elas existem mais pelo que lhes damos de nós
mesmos, do que pelo que na realidade são. De saudade, de sonho, de lodo
e piedade, construíra uma figurinha ofendida e triste, andando no mundo
aos tombos, sem pão e sem abrigo. A ele que passara a vida inteira a
atear um brasido, cabia-lhe em sorte a Mouca, escárnio de ladrões e de
soldados.

A casa das mulheres de dia é fúnebre, mas de noite, à luz do petróleo
que esvoaça e deixa tudo numa meia tinta de aflição--candeeiros
partidos, luzes fumarentas--lembra um circo de desgraça, onde palhaçadas
trágicas façam gargalhar e onde os ladrões e as mulheres enfarinhadas
representem a sério vícios e crimes, com risos e choros à mistura, para
que o publico que paga se possa rir. Vem um Velho, que sem falar
gargalha toda a noite ao vê-las maltratadas, e o Morto, pálido e
soturno, com um laivo na cara. Tem as mãos ósseas e enormes sempre frias
e as mulheres temem-no pela sua crueldade, pelo seu sorriso trágico.
Despreza a dor e os gritos. Sente-se que dele não há a esperar
piedade. Só a Mouca se atreve a resistir-lhe. Aparecem outros e toda a
noite, se ouvem insultos, choros, gargalhadas.

Cada um ali arranca a máscara, transforma-se, fica um ser nu: as
feições endurecem, o riso é atroz. O homem tem vontade de ouvir gritos.
Paga, maltrata. É lodo, não há que ter piedade. E as mulheres cantam
sempre na mesma toada triste e soluçante... Nenhuma fala do passado, com
medo ao escárnio, mas guardam-no para si, sem o esquecerem. A história é
idêntica, o eterno húmus amassado em lágrimas. Elas sabem que nasceram
para sofrer e resignam-se: o esgoto é necessário. Tudo na vida se
alimenta de gritos, como as raízes na terra se sustentam de água. Enganam
nas e não se queixam. É o Fado. Não têm ódio a quem as iludiu; ao
contrário não esquecem esse fio de sonho espezinhado, que ainda sentem
correr na vida, longínquo e triste, quase a sumir-se de todo. O Fado as
faz nascer e as traga. Triste é sempre a vida--lágrimas, pancadas, pão e
assim as leva a sorte até à cova. Ouvi: esta seiva dolorida fará nascer
um dia alguma misteriosa Árvore.

São irmãs e unidas, sustentam-se na desgraça. Os amantes moem-nas e
elas humildam-se, tão triste é não ter ninguém a quem amar. E as
desgraçadas, aquelas que, de confundidas com a lama, se não enxergam,
são as que de todo se sacrificam por eles. Míseras criaturas, a quem se
paga com injúrias, quanto mais afundadas na desgraça e mais pobres,
quanto mais perto da enfermaria e da morte, mais se fazem pequeninas
para que as amem. Ficam dias sem pão para que os amantes o tenham. Tiram
a última camisa do corpo para lhes dar de comer. As arroladas matam-se
se as desiludirem. Seres de ignomínia só amam idealmente. Assim será o
amor das ervas, dos sapos, das nascentes, de tudo o que na natureza é
pequenino ou disforme. O Sonho para o esgoto é a única realidade.

       *       *       *       *       *

A casa é trágica, de tectos negros, sumidouros, corredores onde toda a
noite agoniza uma luz de petróleo.

Há mulheres tísicas, com tosse e a tábua do peito rasa; há-as que
insultam quem entra para serem espancadas. A filha, do Gebo, Sofia, é
alta, curva, cansada, e tão cheia de resignação que parece morta; outra,
Luísa, a quem chamam a Asilada, quase não fala. Olha soturna, com os
negros cabelos violentos todos soltos e a fisionomia empedrada de
mágua.

Ao fundo divide a casa um corredor com cubículos. Às vezes, altas horas,
tudo sereno, ouve-se na escuridão um ruído de choro sufocado.

Fora vê se o Hospital e a rua negra, onde o enxurro humano sem cessar
carreia detritos, lágrimas, sonho. Especadas às esquinas criaturas
esperam... Parecem pedaços de noite destacados da própria noite.
Fazem-lhe nicho as arcarias e arrancaram à treva para se embrulharem um
farrapo do seu manto. Às vezes da escuridão sai um perfil, mãos que
querem arrepelar, mas logo tudo se some entre roupagens, que têm a
rigidez trágica das estátuas. Só a mão, que o lampião ilumina, fica
decepada. Por vezes toda a figura baça e amolgada surge, para logo se
aniquilar. A lama faz-lhe pedestal, passa o enxurro, e elas nem se
mexem, pétreas: se choram são a Dor. Algumas, de viverem dum passado de
fogo, parecem mirradas, outras procuram minguar, extinguir-se, não
ocupar lugar na terra. E entretanto as mulheres vão cantando na mesma
toada de catástrofe, que a noite traga, como farrapos de sonho
espezinhado...

       *       *       *       *       *

Todas as noites o Gabiru lá vai sentar-se a um canto a cismar. Olha a
Mouca sem palavra e sonha. Conhecem-no os ladrões e os soldados e elas
vendo-o entrar, esgrouviado e triste exclamam:

--Lá vem o enguiço!

A Mouca às risadas diz:

--Cá temos o enguiço!...

Mas em vão! Ele, com as enormes pernas dobradas, alheado, a penca
caída, sem ver nem ouvir, pensa num amor ideal e monologa baixinho,
entre as mulheres, os ladrões e os soldados:

«O que eu sonho! Eu que sou tão tímido, ponho-me a falar e a cismar...
E tanto cismo!... Troco tudo. Como é que tu gostas de mim, que nem te
sei sorrir?

Ando a inventar uma língua nova, que seja como a das fontes e a das
árvores, quando desponta Março, para te exprimir o que sinto. Todas as
palavras me parecem mirradas e servidas.

Olha, diz-me: chamas-te Maria, não é?»

E entretanto os ladrões e as mulheres conversam:

--«Tu não te calarás, estupor!»

E uma tísica, magra, só com a pele e o osso, explica:

--Uma mulher da vida... Que estão vocês a dizer das mulheres da vida? Eu
ainda queria ver... Quando tu não tens pão quem to dá?

E o ladrão responde:

--És tu.

--O pão que eu ganho com o meu corpo com quem o parto?

--Comigo.

Mas outra do outro lado berra:

--A gente aqui é como os cães. Toca a rir, raparigas! Se uma mãe
adivinhasse para o que cria aos seus peitos uma filha!...--E virada para
um que entra:--Olha lá, ó coisa, puseste-me o corpo negro noutro dia...
Tu imaginas que uma pessoa é de ferro?

--Abaixo as patas!

Uma mulher pergunta a um velho ladrão calvo, que a um canto só ri, com
uma boca disforme, escancarada na sombra:

--Tu que eras, ó velho?

Mas ele ri-se com a boca aberta saindo do escuro--só boca--como a
fauce desdentada dum lobo, e um outro é que responde:

--O velho era lavrador. Olhai-lhe para as mãos. Cheira a terra e a pobre.

O filósofo a um canto cisma, olhando a Mouca entretida a falar com os
soldados:

--«Tenho muito que te dizer--tanto!...--e não sei o que te hei-de
dizer!...

Se me perguntam:--Tu que tens?--parece-me que acordo e que me puxam para
a terra.

As árvores levam todo o Inverno a sonhar inchadas e um dia acordam
desfeitas em sonho. É o que lhes acontece.

Ora vem aí Março, já rebentaram novas fontes... Maria é um nome tão
lindo!»

Falam aos grupos, num burburinho. Andam todas mal vestidas e com frio.
Uma traz meias amarelas e outra, a quem a tosse desconjunta, anda com
um xaile de seda que a não aquece.

--E tu que eras?

--Eu nada. Basta de conversas. Dás-me um beijo?

--Tira-te! A ti um beijo!... Antes queria morrer. Nem morta eras capaz
de me dar um beijo. Com essa cara! Olhai para ele, raparigas... Já
viram alguém rir-se assim?

--Ó minha arrolada!

E deu-lhe um pontapé.

Entretanto duas mais afastadas conversam no escuro:

--Nesse dia tomo uma bebedeira, que há-de dar que falar.

--Tu?

--Sim.

--A mim minha mãe é que era a capa. Encobria-me.

E ninguém se importa com o Gabiru, que tece, vai tecendo a sua teia,
toda de emoção e de nuvens, encolhido a um canto, absorto, sem ver nem
ouvir:

--«Não sei bem o que sinto, que nunca me vi assim. Do meu coração sai
uma bica que rega as coisas mais secas. E ouço! o que eu ouço!... Ao
luar, lá em cima, ouço as montanhas em diálogo e falarem árvores e
pedras!...»

E a _tísica_, voltada para o ladrão, diz-lhe:

--Que queres mais que te eu dê?

E ele, rindo:

--Ora! dinheiro...

--Nem para pão já o tenho, quanto mais!... Já o não ganho. Quem me quer,
se todos dizem que estou tísica? Estarei...

--Tu arranjas sempre.

--Aonde? os meus trapos estão no prego, este xaile é emprestado por
misericórdia. O lenço que ontem trazia, vendi-o para pagar à patroa. E
amanhã entro para o Hospital.

Ele lentamente ergue-se para sair. Quase à porta murmura:

--Bem sei onde ir buscá-lo.

Magra, desconjuntada, a tossir, a _tísica_ exclama:

--Pois vai! vai!... Se outras te dão mais, vai!... Deixa-me!...

--Pois vou...

E logo ela, arrependida, torna:

--Espera. Dei-te tudo. Escuta... Tens sido como quê? como um filho
meu...--E para as outras com um amargo sorriso:--Ó raparigas, quem há
aí que me empreste algum dinheiro pelas almas?

Uma abaixa-se. Dentre a meia e o sapato tira uma moeda e a _tísica_,
estendendo a mão:

--Já a não ganho com o meu corpo.

E beija as cruzes ao dinheiro.

--Toma.

Dá-lha e baixinho põe-se a pedir-lhe:

--Antes de eu morrer, prometes que me vais ver ao Hospital? Todos dizem
que estou tísica. Não é por nada, mas vai-me custar morrer, sem ver
ninguém ao pé de mim... Quem hei-de eu ver? Agora olha como te portas
sozinho, ouviste? Inda te levam para o chilindró. Vocês em se pilhando à
solta, adeus meu amigo!... Entro amanhã de manhã para o Hospital e na
quinta é dia de visita. Não te esqueças de mim, ouviste? A gente
prende-se e depois custa-lhe. Ora! que é que eu faço neste mundo?....
Tu há bocado disseste que bem sabias onde ir buscar o dinheiro. Era á
Gorda, pois era? Podes dizer que eu bem sei. Estou pronta! Sou um
cangalho, só sirvo de tropeço... Mas olha que fui sempre tua amiga. Já
agora deixa-me acabar, para lhe não dares esse gosto... Só te peço uma
coisa. É que me vás ver antes de eu ir para a cova. Para a terra! Isto
de a gente morrer sem mais nem menos até me parece esquisito... Que
haverá no outro mundo?... Estou pronta. O médico ontem disse:--Estás
pronta!--E atiram assim com a gente para o cemitério!... Eu ainda
queria que me dissessem o que é que a gente cá vem fazer...

--Sei lá!

--Chorar. Só se for... E levar má vida.

Apertando-lhe as mãos, envergonhada:

--Então vê lá se te esqueces de mim.

--Àgora!...

E ela sorrindo com um sorrir triste e piedoso, que lhe ilumina a boca
descorada como um reflexo de sol:

--Àgora! é o que vocês sabem dizer. Os homens são todos o mesmo, falam
todos pela mesma boca. A gente, coitada, prende-se, mas vem a morte e
tudo leva consigo.

O Gabiru, desenroscando as pernas, ergue-se e murmura de si para si:

«Que tempo este em que estamos. Parece feito de emoção... E tudo vai
sonhando o seu sonho, que eu bem sei, bem no sinto nas árvores, nas
pedras e na terra, até na terra mirrada... E eu tanto te queria dizer!
tanto!... Olha, sempre te chamas Maria?»




VIII

MEMÓRIAS DE LUÍSA


É assim a história de uma das mulheres:

«Tive sempre frio. Esta impressão de ter os ossos gelados vem de muito
longe, de pequenina.

       *       *       *       *       *

Nunca tive mãe, nem ninguém. Fecho os olhos e só vejo o Asilo, os
corredores húmidos, o dormitório, o frio refeitório abobadado de
granito. Toda aquela pedra parecia sepultar-nos.

       *       *       *       *       *

Também guardo de pequenina esta impressão: a vontade que tinha de
beijar, sem ter ninguém a quem dar beijos. Todos os que eu conhecia eram
hirtos.

       *       *       *       *       *

Vou ver se me lembro bem... Primeiro é tudo confuso: depois vai-se
espancando a névoa e eu recordo a triste existência do Asilo.

Noite ainda nos erguíamos para rezar. Tocava um sino. Mal sabíamos
andar, trôpegas como velhinhas. A algumas era preciso vesti-las. A Irmã
ralhava se nos demorávamos. Aquele sono da manhã de que nos arrancavam
era como a cova e o esquecimento. Antes nos deixassem dormir para
sempre. Para que vem a gente ao mundo?

       *       *       *       *       *

De tantas que conheci quase todas, mais felizes, morreram por não terem
mãe.

       *       *       *       *       *

Todas, tão pequeninas, tinham o ar de serem já crescidas. E não sei quê
de amargo, de reflectido, de sofrimento, de experiência da vida.
Brincavam sem risos pelos cantos, com bichos, com pedrinhas. Uma vez uma
disse alto:

--Ó mamã!...

E foi um escândalo. Onde aprendera ela, que não tinha mãe a pronunciar
aquela palavra?

       *       *       *       *       *

Quereis crer? Só tenho esta imagem: pareciam velhinhas recolhidas,
tristes por não terem filhos.

       *       *       *       *       *

E no entanto eu curto saudades dessa negra existência do Asilo.

       *       *       *       *       *

Na cerca havia um curral com vacas, que nos davam um leite aguado.
Duma vez uma, já eu era grande, toda a noite gemeu. Por piedade
perguntei ao hortelão o que ela tinha.

--Saudades por lhe levarem o filho.

E há mães que os deitam fora!

Muito deve custar a morrer a uma mãe, que deixa no mundo um filho para o
Asilo!

       *       *       *       *       *

Havia as grandes, as médias e as pequenas. As grandes eram desajeitadas,
de mãos enormes, com vestidos negros e grossos. E todas eram feias.
Faltava-lhes não sei que graça, que só existe nas que têm mãe, por mais
feias que sejam: seres de abandono, plantas que vivem estioladas...

       *       *       *       *       *

Às vezes o senhor provedor visitava-nos. Era um homem seco, ríspido, de
cara rapada, que nos vinha lembrar que vivíamos por esmola:

--É preciso que se recordem disto: a sua vida devem-na aos
benfeitores.

Ele próprio era um benfeitor. O seu retrato lá estava colocado ao pé
dos outros, com o mesmo caixilho fúnebre. Era o último da sala enorme,
gelada, onde os passos ecoavam, toda cheia de retratos em torno. Os
benfeitores!...--Dir-se-ia uma galeria de afogados, todos solenes,
secos e maldosos, hirtos, de lábios finos e ar de cerimónia.

Todas as noites as Irmãs nos faziam rezar por eles, a quem devíamos o
pão e a vida.

       *       *       *       *       *

Era proibido falar, a não ser às horas de recreio, e isto explica
talvez os vincos que todas tínhamos, ainda as mais pequeninas, aos
cantos da boca.

       *       *       *       *       *

O melhor sítio do Asilo era a enfermaria por isto: era mais quentinho:
dava-lhe o sol todo o dia e viam-se as árvores da cerca: e por a Irmã
enfermeira ser a única que tinha coração e que gostava de nos beijar.
Todas éramos amigas dela.

É curioso. Lembro-me das grandes árvores que de lá se avistavam, mas só
as recordo descarnadas e despidas, num céu pálido. Sempre no Inverno.

       *       *       *       *       *

Tenho ainda a impressão de ter os joelhos frios e doridos. Nunca mais
consegui aquecê-los.

       *       *       *       *       *

O pão do Asilo tinha um sabor que nunca encontrei em outro pão, por mais
desgraçados que fossem os meus dias: um gosto amargo e requentado. E em
todo o refeitório havia um cheiro idêntico. Tudo, até o Cristo, até o
caldo aguado, a mesquinha ração que nos davam parecia dizer-nos: «Olhai
que viveis por caridade! Habituai-vos à desgraça!»

       *       *       *       *       *

Quereis crer? Muito mais caridoso seria afogar as crianças que não têm
mãe. Livrá-las-íeis do Asilo, da caridade, da vida.

       *       *       *       *       *

No dormitório tudo era regular, branco e monótono, e, apesar de branco,
fúnebre. O sol, que entrava pelas janelinhas, abertas numa muralha de
prisão, era pálido, e, mesmo de Verão, parecia um sol de Inverno; as
camas, todas de branco, alinhavam-se encostadas às paredes caiadas e
nuas; só ao fundo, por cima da cama da Irmã, um Cristo de louça azul
manchava aquela brancura.

O recreio não era na cerca do convento. Brincávamos sem barulho no
claustro. Parece que tinham medo de nos mostrar árvores e sombras. O
claustro... Por cima via-se sempre, engastado no beiral, um rectângulo
do céu, e a sombra geométrica estendia-se cá em baixo. De um lado era
sempre frio e húmido: as paredes tinham musgo. Ao meio do claustro um
golfinho de pedra deitava gota a gota, pelos dentes cariados, um fio
de água frígida. De tudo aquilo saía uma paz transida de sepulcro. Só
andorinhas cortavam em cima o céu; mas duma vez que em Março vieram,
afadigadas e chilreando, fazer ninho no beiral, as religiosas
deitaram-lhos abaixo. Destruí-los porque? Os restos, farrapos de
penugem quente, ternos diríeis, andaram por muito tempo no claustro.
Passaram de mão em mão com alvoroço. Algumas das asiladas cismavam,
olhando-os: as mais pequeninas brincavam com eles. Uma disse:

--É um berço...

Destruí-los porquê? Para que não soubéssemos que as aves têm mãe e
cuidam dos filhos? Para que não tivéssemos saudades das nossas, que não
conhecêramos? para que ignorássemos?... Mas que candura a das Irmãs se
era por isto! Nós pressentíamos, adivinhávamos tudo aquilo e quando uma
das mais pequeninas explicou às que faziam roda:

--É o berço dos passarinhos...

--quantas de nós já tinham cismado num berço assim agasalhado e
fofo!...

       *       *       *       *       *

Daquela vida idêntica, seca, dura, vinha um dia, quando éramos
grandes, arrancar-nos o provedor.

Era um dia solene. Íamos partir. Quem precisasse duma criada que
comesse pouco procurava-a no Asilo. Uma caderneta, papéis, alguns
trapos, camisinhas curtas e o discurso do senhor provedor:

--Sustentou-as este Asilo por caridade. Se vivem devem-no aos
benfeitores. Ora agora lembrem-se sempre nas suas orações do bem que lhe
fizeram. E na casa que as recebe sejam agradecidas. Tomam-nas por
esmola...

E assim, com uma trouxa debaixo do braço, partíamos para a Vida.

       *       *       *       *       *

Oh! minha mãezinha!»




IX

FILOSOFIA DO GABIRU


Ter os mesmos direitos que as árvores e os bichos à imortalidade,
humilda-me, e fazendo-me humilde torno-me melhor, mais irmão do que é
pequeno e desgraçado.

       *       *       *       *       *

Só as criaturas que sofrem é que são dignas de viver, e na verdade são
as únicas que vivem.

       *       *       *       *       *

No tempo infinito e no espaço limitado as moléculas agregam-se,
desagregam-se... Só química, só a química existe... As moléculas, que
têm em si a força vital, são hoje árvore, amanhã animal, pedra, homem.
Conforme o quê? o que é que as modela?...

Eis-me: eu fui e continuarei a ser neste oceano trágico, o que o acaso
determinar, conforme as minhas moléculas, amanhã desagregadas, se unirem
a outras mais tarde... Tenho vivido até aqui--continuarei assim pela
eternidade.

Quando pois me chegar a vez de ser homem, hei-de viver: quero viver da
minha própria vida: quero que fale dentro em mim o _universo_ que eu já
fui--a pedra que eu já fui--a árvore que eu já fui--o bicho humilde que
eu já fui...

A tua opinião?... De que me serve? E é ela tua, sente-la bem tua, ou é
aprendida, falsa, vinda de outros homens que me querem esmagar?...

Qual deve ser o meu fim? Deixar falar todo o universo que compõe o meu
ser, deixá-lo pregar com a sua voz rouca--com a sua própria voz e não
com a tua. Se eu trago ódio, deixai-me ser o Ódio; se eu trago riso,
deixai-me ser o Riso.

O momento é único, não vale perdê-lo. Porque acaso, porque fúria insana,
depois de que rebeldias, de que horas ou séculos de aguilhão, de
desespero e raiva, estas moléculas, perdidas num oceano maior que o
atlântico, tornarão a ser, se chegarão a reunir para terem a consciência
do Universo? E agora vens tu, homem, e queres emudecê-las com as tuas
leis, as tuas teorias, os teus sonhos...

O momento é único: vai perder-se amanhã. Séculos de canseira para terem
num minuto a consciência do universo; séculos de sonho tremeluzindo no
fundo da obscuridade, para não virem afinal à luz, séculos de amargura,
de esforços, de tentativas abortadas--para não chegares afinal a viver.
É como ir a uma árvore e arrancar-lhe toda a flor...

Mas olha: tudo é feliz em torno de ti, porque tudo cumpre o seu destino.
Cumpre tu o teu. Tudo é harmónico, porque vive da verdadeira vida: as
plantas crescem sem que as outras lhes imponham regras, os animais, a
natureza inteira, não têm remorsos nem dúvidas. Nem tu as terás, se
viveres da tua verdadeira vida e não de outra.

A tua educação deve consistir nisto: em fazer falar o universo que
trazes contigo, com a sua voz. Arreda, mata, calca tudo o que te
contrariar nisto. Sabes acaso daqui a quantos séculos, tornarás a ter
consciência? E que forças perdidas, que lutas não vão ser
necessárias?... Quantos gritos!...

       *       *       *       *       *

Goza tudo: a desgraça, a fome, a terra, o sol, o riso, porque nunca
voltarás a sentir senão numa infinidade de séculos. Impregna-te de
vida, do teu largo quinhão de vida, para que às portas do Nada possas
dizer:--Vivi!...

       *       *       *       *       *

Estão em primeiro lugar os deveres para contigo, do que os deveres para
com os outros.

       *       *       *       *       *

Deves amar os rios, porque já foste rio; os montes porque andaste nas
suas entranhas; a nuvem tua irmã; a árvore onde correste em seiva--e o
homem porque és o homem.

       *       *       *       *       *

Se te não deixam ser o que deves ser--resiste.

Mais vale morrer do que não lutar. Morrendo, triunfarás porque
cumpriste o teu destino.

       *       *       *       *       *

Tu és feito de húmus, tu és feito de terra. Se ela te deu boca para
que foi? Para que falasses. Com que fim cria tantas bocas? Para que ao
fim de mil tentativas se digam as palavras necessárias... Nesse dia
tudo terá voz. Na verdade não haverá fonte, árvore, bicho por mais
esquecido, pedra por mais ignorada, que não tenha voz e não faça a sua
confissão.

       *       *       *       *       *

A educação moderna, ao contrário, tende para isto: para que todos falem
no universo da mesma forma.

       *       *       *       *       *

Nasce connosco o destino. Não o cumprir, seja qual for, é ser
desgraçado.

       *       *       *       *       *

Cada criatura que nasceu ontem há quantos séculos anda a ser gerada?
Sabei-lo?...

       *       *       *       *       *

Não contrariem a vida. Nós somos uma torrente, que Deus criou para um
fim... Assim nascerão criaturas que incarnarão o Mal, dirás... Pois que
o mal tenha também a sua boca e que fale sem gaguejar.

       *       *       *       *       *

Se a natureza cria monstros, é que eles são necessários, como certas
pústulas que purificam.

       *       *       *       *       *

Nunca os tigres afinal venceram.

       *       *       *       *       *

E de que te serve andares mascarado?...

       *       *       *       *       *

O homem tem em si partículas de tudo o que no universo existe: metais,
pedras, etc. É um universo reduzido. Conforme nele predominam
determinadas moléculas, assim odeia ou ama.

Quando é que a química será tão grande, que possa fazer esta análise?...

       *       *       *       *       *

Há pessoas que nunca nos fizeram mal e a quem odiamos. Nunca? quem
sabe?... Se há um infinito que tu vives, se tu exististe sempre e és
eterno.

       *       *       *       *       *

O que é a piedade sincera, abaladora, interior? Uma reminiscência.

       *       *       *       *       *

Fujamos da terra, dizem-te. Não, bem preso a terra, a terra subtilizada
que tu és, a terra tua mãe. Essência da terra, trabalho insano do seu
ventre durante séculos e séculos, homem não a renegues! Ama-a, ama a
vida. Tu és talvez o sonho da terra. Ela pôs em ti toda a sua emoção,
toda a sua maternidade, toda a sua dor e também tudo que tinha de
imaterial: deu-te o sonho. Sê bom, se ela to ordena, sê mau se ela o
quer.

       *       *       *       *       *

Há dias em que a gente se sente responsável por todo o mal que se faz na
terra.

       *       *       *       *       *

No mundo correm e entrechocam-se grandes rios de moléculas--que são rios
de ódio, outros que são rios de amor, outros que são a amargura, o riso,
o sonho...




X

HISTÓRIA DO GEBO


Ele aí vai, aos tropeções, amachucado e ridículo.

Também a dor torna pícaro e as lágrimas no seu carão espantado só nos
fazem rir. Empurra-o a Vida, atira-o, estatela-o no lajedo, aflito,
sem mão que o ampare--e de cabelos brancos estacados. Gritam-lhe:

--Ó Gebo! ó Gebo!...

Não há que ter piedade dos fracos. A própria natureza os repele do seu
seio.

       *       *       *       *       *

Faltava-lhes tudo, tudo se esfarrapava no seu lar. Dormiam em enxergas
no chão, nessas noites de frio Inverno. O que mais lhe custava era ver
a filha horas e horas a cismar. Em quê?... O Gebo ao pensar na sorte de
Sofia cuidava que lhe torciam o coração. Por ela é que se batia ainda
com o destino. E quase não tinha pão para lhe dar!

A mulher clamava:

--Mas trabalha! tu não trabalhas!... Tu o que és és um mandrião. Olha os
outros como furam, como sobem... Tu és um estúpido! Na vida é preciso
ter-se muita finura. Quem é assim não se casa!

--Ó mulher, a gente quando cai nunca mais se levanta.

E afinal caíra para sempre, sem energia e sem forças, prostrado. A sua
vontade seria deitar-se e nunca mais acordar. Correra tudo, batera a
todas as portas e assim se afizera à humilhação e à esmola; a ser mal
recebido, a ouvir repostadas que ferem e despedidas bruscas. Os amigos,
que a principio lhe davam para o rebaixar, falavam-lhe agora com pedras
na mão:

--Volte depois! É demais! Isto sempre não pode ser, você abusa!

As suas melhores horas eram as do sono, profundo, de poço, em que ao
deitar mergulhava logo. Esses pedaços de vida, furtados à desgraça, em
que se não pensa, sem sonhos, dum profundo aniquilamento, eram o único
gozo do Gebo. E tanto mais a desgraça o abalava, tanto maiores eram os
seus cuidados, mais absoluto o seu sono. Ao contrário da mulher, que
quase não dormia e levava a noite inteira a cismar e a chorar, ele,
logo caído na cama, logo tombava como morto. Às vezes a mulher nem
descansar o deixava; queria falar, discutir, ouvi-lo...

--Dormes como um porco! Fala, escuta-me!

E o Gebo, a pingar de sono, lá se punha a dizer palavras, coisas
desnorteadas, até que ela enfurecida exclamava:

--Dorme! Fica-te para aí!...

Mas tinha de acordar e a caça aos magros cinco tostões, que todos os
dias precisava de juntar, começara a ser desorientada e feroz. Viam-no
correr, espreitar um conhecido de outrora, segui-lo, dizer-lhe a sua
aflição em palavras rotas, e depois muito baixinho pedir. Ficava horas
à porta duma loja, esse velho trôpego, com o casaco no fio remendado
pela filha, à espera que um conhecido passasse. Às vezes consumiam-se
os dias e ele sem dinheiro para pão--porque os corações são de pedra.
Rondava num desespero pelas ruas. Não encontraria acaso alguém que lhe
valesse? Despediam-no, e ele fazia-se mais humilde, sem ódios,
pedinchão e sempre a suar. Já não tinha que pôr no prego e muitas vezes
se lembrava da morte.

Opresso o coração, voltava, lá ia à espreita, num desespero sem fim.
Ao chegar a casa, sufocado, pesado, a mulher que o esperava num
transe, perguntava ao avistá-lo:

--E então? então?

--Cá está, mulher! cá está!

Ó descansar, dormir na terra bem pesada, bem funda, para sempre fugir
àquela fadiga de lágrimas, esquecer as humilhações, as horas amargas
passadas atrás dos que outrora servira! ficar no derradeiro sono, de
que nunca mais se acorda nem para a desgraça, nem para o escárnio!...

Que mal fizera ele a Deus e aos outros, para assim ser castigado sem
tréguas, com a fome e o frio e a sua filha desgraçada? E nem na própria
casa o Gebo descansava. Eram infindáveis os ralhos e os gritos. Só
Sofia, linda e triste, pela sua resignação lhe dava ânimo. Se não fosse
ela, seria tão bom morrer!... Os seus amigos estavam ricos e secos
como as fragas. Alguns nem sequer o viam: riam-se outros dele e não
lhe davam esmola. E mais fundo, mais fundo, assim se atascava na
desgraça, gordo e pícaro, atarantado e pedinchão, com uma única ideia ao
acordar: arranjar cinco tostões, para as mulheres comerem.

Já coçados e gastos, todos os dias diziam as mesmas palavras e passavam
pelas mesmas aflições. Transidos pelo frio interior, o verdadeiro
frio, que só a miséria dá, encostados uns aos outros, raro se aqueciam
ainda com um sonho vão. Fixavam o olhar, perdidos, absorvidos pela
realidade, e a Desgraça ali presente parecia rir-se. Gastavam as
últimas roupas, faltavam já trapos usados e ele de cada vez mais gordo
e mais mole. Se acontecia rirem-se por futilidades, todos três juntos,
aquele riso fazia mais aflição do que as próprias lágrimas. Muitas
noites não se acendia o lume e por fim todos três dormiam numa única
enxerga.

A última coisa vendida e que lhes custara as derradeiras lágrimas
de olhos ardidos, fora a pequena casa e o quintal, que de pais para
filhos até eles viera. Sucumbiram ao terem de deixar para sempre as
árvores, que tinham plantado por suas mãos, a horta, o fio de água da
bica, as fruteiras antigas, a que queriam como pessoas. Tudo fora
levado, como uma parte do seu ser, que lhes lembrava os dias de
felicidade, sol que ainda aquecia e que não tornaria a luzir.

A mulher já não ralhava: tombara, com o olhar desorientado e os dias
gastos em monólogos desconexos. E ele ficara, amolgado pelos
encontrões, gordo e ridículo.

--Ó Gebo!

--Anh? anh?...




XI

LUÍSA E O MORTO


O ladrão escondia-se. Perseguiam-no, fugira, andara e nessa noite, com
um pedaço de pão metido entre o seio e a camisa rota, fora dar ao cais.
O céu estava negro e o rio negro corria como lava. A água à noite
assusta: fala, atrai, e a sua frialdade tem qualquer coisa de cova. O
rumor das águas lembra um ruído de vozes a concertar baixinho coisas
presagas.

Estava uma noite de silêncio húmido e abafado. Brilhava uma luzinha ao
largo e ouvia-se a ressaca subir nas pedras, entrar nas cavidades puídas
do cais. E era no ermo o único ruído, aquela respiração estrangulada,
apressada, um marulhar humano e trágico na noite funda, silenciosa e
opaca.

O Morto aconchegou ao seio o pedaço de pão--o seu jantar--e teve um ah!
de alívio. Ali ninguém o procuraria, era como se estivesse sepultado
no fundo do rio. Havia quase dois dias que não comia e ia enfim dar a
primeira dentada no pedaço de pão. Tinha os joelhos doridos e sentia uma
lassidão enorme. Ao sentar-se topou num corpo caído, abandonado. Num
sobressalto, de pé, com o pão a que ia dar uma dentada na mão, perguntou:

--Quem está aí?

Ninguém: a noite negra e o ruído de ressaca minando as pedras.

--Ouh!

As suas mãos ao tactear deram com uma rapariguinha inerte. A saia estava
encharcada e frios os pés.

--Estará morta.

E sossegado tornou a sentar-se para comer o pão. Mas sentiu-a mexer-se.

--Outra desgraçada...--cismou--Quem está aí?

E, saindo da treva, uma voz de criança, começou:

--Sou eu.

--Tu quem és?

--Não sou ninguém.

--Que estás aqui a fazer?

--Não estou a fazer nada.

--Tu que queres, então?

--Vim deitar-me ao rio.

--Ah!...

--Mas tive medo. A água do rio sempre é mais fria do que a morte.

A treva espessa em torno e o mesmo ruído da ressaca a pregar. As nuvens
baixas envolviam-nos num fluido negro, ambos tragados pelo deserto da
noite. Não se viam e aquelas duas vozes, uma infantil e baixinha, a
outra rouca, eram como o diálogo de duas forças ignotas, que o acaso
rola no mesmo turbilhão do infinito. Perguntou-lhe o Morto:

--Como te chamas?

--Chamo-me Luísa.

--Quem te fez mal?

--Ninguém. Estou grávida.

--Ah!...

--Estou grávida. Eu não sabia nada. Estou grávida, acabou-se. Porque é
que não ensinam à gente que todos nos querem fazer mal? Uma pessoa
devia aprender.

--O quê?

--A ser desgraçada. Há dois dias que não como. Tenho andado por aí.
Botaram-me fora, empurraram-me e eu ando por aí a chorar.

--Vai para a tua casa.

--Eu sou do Asilo, não tenho ninguém, nem mãe, nem nada.

--Enganaram-te?

--A mim não, ninguém me enganou. Eu não sabia nada. Quando vim do Asilo
não sabia nada. Um dia apareci grávida e puseram-me fora. Ninguém me
quer assim. Quando a gente está grávida que há-de fazer? A gente não tem
culpa...

--Não fizesses o filho.

--Eu era uma inocente.

--Ah!...

--Não sabia nada, juro-lhe pela minha salvação.

--E então?

--Deitaram-me fora do Asilo e fui servir. O patrão foi quem me logrou.

É sempre o mesmo caso banal e trágico. Se o homem encontra uma pobre
criatura desprotegida e ao desamparo, ilude-a e explora-a. Saída do
Asilo com uma trouxa debaixo do braço e o discurso do senhor provedor,
foi servir. Logo que o patrão viu aquela rapariguinha ao abandono na
terra, pôs-se a falar-lhe baixo, às escondidas.

--Era como se me pisassem o coração...

Ela ouvia e depois com um sorriso triste, em que mostrava os dentes
agudos de esfaimada, ficava muitas horas cismática e a falar sozinha.
Abandonava-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria, já vindo
à terra com este destino amargo--ser explorada. Ele deixou-a logo e
ela continuou a servi-los, com o mesmo sorriso, mais descorada e
triste. Um dia acordou grávida e a patroa pô-la na rua. Remexeu-lhe a
trouxa e gritou:

--O que tu merecias era ir para a polícia.

Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do braço pôs-se a andar pelas
portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, até que foi dar
ao rio, com fome e inteiriçada pelo frio.

Calou-se. Só se ouvia o chapinhar da maré. Só o rio pregava. Tu, rio,
que carreias nas tuas águas, para assim falares toda a noite? Levas
lágrimas contigo, raízes, cadáveres: moeste pão, encharcaste terras,
humedeceste troncos: e entre salgueiros, espelhando a lua, prateado,
foste romântico e triste. Depois banhaste a pedra das cidades, o ferro,
e a tua voz tornou-se presaga. Levas lágrimas salgadas ao seu destino,
tudo levas, ais, confissões, restos, para o profundo mar. Que dizes,
rio? que pregas? Contas a tua vida incessante? Ir ao oceano largo, a
fundos redemoinhos para feito nuvem depois viajares, ora negra, ora
de oiro no poente, trespassada de sol, aquecida e vivificada, caindo por
fim em chuva para matar a sede das terras, e voltares ao seio do
planeta, rompendo de novo em fonte, que acarreta outras lágrimas, outros
sonhos e raízes na mesma condenação eterna e num trabalho insano? É
isto? É para moeres pão negro, passares por troncos conhecidos sempre
rio, mar profundo ou nuvem?...

Uma luzinha, que brilhava ao largo, deixando na água um fio de oiro
tremulo, de todo se sumira. Então o Morto no silêncio e no negrume,
começou:

--Tu que imaginas que é isto?

--Isto quê, senhor?

--A vida. Todos querem mas é enganar. Os ricos fazem mal aos pobres; os
pobres roubam os ricos. Todos querem fazer chorar os mais.

--Todos?

--Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que quiser.
Não grites que é pior. Ninguém te acode.

--Eu não grito.

--A tua mãe botou-te fora, para não te criar, o teu patrão enganou-te.
Tu que imaginas? E que podias fazer senão deixá-lo enganar-te? Que
hás-de fazer? Hão-de enganar-te sempre e só te não desamparará...

--Quem? perguntou ansiosa.

--A fome. Hás-de andar por aí até caíres de velha, aos pontapés e às
voltas com a desgraça. A desgraça é que pode tudo, ninguém no mundo tem
mais força. Se tiveres fome, hão-de-se rir de ti e dar-te terra a comer.

--Ó senhor! ó senhor! Mas então para que me criaram no Asilo? Era melhor
terem-me deixado morrer. Eu não faço mal a ninguém. Que hei-de fazer?
Tenho esta camisa que trago no corpo. Uma saia empenhei-a. Há dois dias
que não como.

--Mata-te. Para que vieste tu ao rio?

--Para me afogar... Mas tenho um medo à água!... Quando meti os pés no
rio tão negro, fugi... Ó minha mãezinha!...

E tombou para o lado.

O Morto deitou-lhe as mãos. Estava encharcada, todo o pobre corpo, ainda
por criar, enregelado e transido.

--Tu que tens?

--Nada. Fome.

--Toma lá o meu pão.

E o ladrão deu-lhe todo o pão que trazia.




XII

FILOSOFIA DO GABIRU


Em todo o caso se a imortalidade existe deve ser bem diferente de tudo
o que se tem sonhado.

       *       *       *       *       *

Ser despedaçado, oprimido, calcado, torna quase sempre o homem grande,
porque abala e acorda vozes adormecidas.

       *       *       *       *       *

Compreendo o materialista sincero, o idealista sincero. Num predomina a
nuvem, no outro a terra. Tudo o que é verdadeiro, arraigado e fundo, é
belo--até o crime.

       *       *       *       *       *

Não importa saber donde nasceu a ideia da imortalidade, o que importa é
saber se a imortalidade existe. Todos a sentem até os mais
materialistas, todos sabem que ela brilha no fundo do nosso ser.
Podem-na abalar, abafar, com teorias, palavras, explicações mesquinhas,
o que não podem é arrancá-la. É como certas árvores que, deitadas
abaixo, deixam sempre profundas e inabaláveis raízes no solo. Para as
extinguir seria necessário tornar estéril a terra.

Cada homem trá-la consigo como uma certeza ou como uma aspiração... Ela
remexe sob todas as cinzas.

Mas que imortalidade?

       *       *       *       *       *

Tomo tudo a sério, até as coisas sem importância--outra razão para ser
desgraçado.

       *       *       *       *       *

E quando é que eu cumpro o meu destino?--dirás. Interroga-te.

       *       *       *       *       *

Se as árvores não fossem necessárias, existiriam árvores? Se os
criminosos não fossem necessários existiriam por ventura criminosos?

       *       *       *       *       *

A educação que nos dão o melhor que há a fazer é esquecê-la. E
esquece-se porque ela nada tem com a vida, é uma coisa à parte. A que
adquirimos à custa de nervos, de sangue, de suor, a que se aprende na
peleja, essa acompanha-nos até ao túmulo. É a verdadeira.

       *       *       *       *       *

O homem procura sempre uma filosofia onde caiba o seu temperamento, os
seus erros--e até os seus crimes. Se não existe, inventa-a.

       *       *       *       *       *

Acho que, ao contrário do que se diz, não sou amigo de ninguém senão nos
primeiros tempos. A principio os ângulos não aparecem ou disfarçam-se.
Depois começamos a ser duros.

Creio que só há amigos até aos vinte anos, quando ainda se não pensa na
vida. Depois endurece-se. Raros são os homens que através da vida a
sério e dos interesses conservam ainda amigos.

Para ficarmos amigos tenho ou de me submeter ou de te submeter.

       *       *       *       *       *

Não, a morte não destrói a essência da vida, mas desorganizando uma
forma destrói a consciência dessa forma, que é formada de milhares de
consciências...

A acção do que se chama espírito sobre a minha matéria produz o meu
_eu_, com os seus erros, sonhos, desesperos, ódios. A mesma força tira
harmonias diferentes duma harpa ou dum órgão. O que resta, pois? A
essência da vida?

       *       *       *       *       *

A predominância de certas moléculas produz o sonhador; a predominância
de outras o herói, etc... Eis a futura química.

       *       *       *       *       *

Não se trata de ser feliz ou desgraçado mas de se cumprir o destino para
que se nasceu.

       *       *       *       *       *

Que ideia tão falsa a de se supor que a vida tem um fim--a felicidade ou
a desgraça! Não é isto subordinar o universo ao homem?

Se a vida tem um fim--é viver. Viver, deixar que cumpramos o fim para
que fomos nascidos. Isto é lógico, inevitável, maior decerto do que o
que supomos, mais belo, mas cedo ainda para se entrever.

       *       *       *       *       *

O homem é uma fonte onde a vida corre límpida ou turva, num fio que a
emoção torna de oiro ou num jacto negro de cólera. Eu ouço assim correr
a minha existência...

Um dia a fonte seca-se.

       *       *       *       *       *

A terra há-de sempre criar os seus tipos, quer os homens queiram quer
não. O homem não é senão a essência do universo e nasce para que tudo
tenha boca. Podemos tentar abafar isto, pôr diques, retardar a
torrente, mas um dia o largo rio da Vida e do Destino irrompe.

       *       *       *       *       *

Não, não é justo que a gente morra de súbito sem protestos, sem
palavras, sem gritos, com os seus erros, as suas ambições, os seus
sonhos... Abre-se de súbito uma cova... Não se pensa mais, não se vê,
não se ouve... E o que custa não é deixar pessoas queridas, nem
hábitos--é não viver. Morrer quando a vida continua da mesma forma
harmónica e impassível--eis o horror.

       *       *       *       *       *

Nenhum outro homem no universo existe realmente para o homem; nenhuma
outra vida senão a sua vida.

       *       *       *       *       *

Ao chegar dos trinta anos abandonam-se os amigos. Se alguns restam é
por hábito ou por interesse: é por cálculo. Se queres continuar a amar
os outros, afasta-te, torna-te um solitário. Ou deixas de ser sincero e
passas a morar com a mentira. A peleja começou: é preciso arredar,
vencer--e cada um nessa idade é o que é. Já se não amolda: é um ferro
desembainhado, saído da forja; tem já os seus hábitos, vaidade,
mentiras. Tudo o que estava apenas esboçado endureceu; é de pedra.

De forma que se quiseres viver com os outros tens de representar. Da tua
idade há centenas que vão contigo pelo mesmo caminho e para o mesmo fim.
Adiante de ti estão os homens de quarenta anos, que é preciso arredar,
conquistar ou iludir. Cada um deles é de aço. Para triunfares tens
de os lisonjear, tens de ser eles e não tu...

Os que têm uma forte individualidade arredam-se porque nunca podem
agradar. O triunfo pertence não aos mais fortes, nem aos mais
inteligentes, mas aos que, sem pessoalidade, podem ser todo o mundo...

Ser parecido lisonjeia: daí tens de afivelar uma máscara igual à do
homem que precisas conquistar.

       *       *       *       *       *

Sim a vida é uma tragédia esplêndida, com todos os seus crimes, sonhos,
ódios. Falam em nós as montanhas, as árvores, as nuvens, e fala até,
num murmúrio, o que é ainda desconhecido.

Que é preciso para que cada um se encontre? Que é preciso para que as
árvores abaladas se carreguem de flor? A Primavera--a Dor.

Tu és a mãe, terra; tu a fecundaste, Dor, e até nós veio como o murmúrio
apagado dos seus gritos.

Amo-te nos bichos, no sol, na luz, nas pedras; na terra onde mergulho as
mãos até as enegrecer, na água que mas banha; no ar que respiro; no
sonho; na morte; na desgraça; no que é humilde ou grande não importa.




XIII

ESSA RAPARIGUINHA...


Quedo-me a cismar tão sozinho neste velho casarão!... De noite ouço
vozes, logo sufocadas, que me querem falar e não podem. Só os meus
crimes de outrora (há tanto esquecidos!) se põem a pregar dentro em mim.
Arqueja o lume no escuro e sinto em redor toda a treva povoada.

Foi há vinte anos e no entanto hoje, como em certas horas presagas,
alguma coisa remove e acorda dentro em mim. Oh não! Bem sei, por demais
conheço a forma porque as ideias se ligam, até as mais contraditórias,
e como um nada recorda um velho crime abafado. Mas não é isto: é do
fundo do meu ser que esta imagem irrompe, desligada, sem nexo, como um
fantasma. Às vezes estou só e esquecido e um estalido atrás de mim
alembra-me, outras acordo de súbito, altas horas, já a pensar nessa
pobre criaturinha explorada. O rumor da vida, outros crimes amontoados,
podem fazer-me esquecer a sua imagem, mas um dia vem em que grito:

--Abandonada! abandonada!...

E no entanto o facto em si é simples e banal, vulgar como essa
rapariguinha das ruas, molhada até aos ossos, a quem nem mesmo soube o
nome, porque nem sequer lho perguntei.

Convenci-a a que me seguisse por vaidade, para ser como os outros, ao
encontrá-la uma tarde, sem pão, expulsa de casa, vagueando na tristeza
das ruas. Teria quinze anos? Teria. Disse-me a medo que sim. E eu,
levando-a para a casa de _passe_, sentia, não orgulho nem prazer, mas
opressão e vergonha. Perguntava-me já: como me hei-de ver livre dela?

Nada mais ignorante, mais puro, mais simples... Foi um crime. Deixei-a
rapidamente, dando dinheiro à mulher, gorda e vesga, que sorria, e fugi
como quem foge ao remorso.

Mais nada. Porque é então--e já lá vão muitos anos--que a certas horas
de silêncio me lembra essa pobre criatura e as suas palavras ingénuas, o
sorriso da mulher vesga e o pobre corpo magrinho e encharcada da chuva,
todo dorido da vida?

Vejo-a aqui, aqui no escuro, descalça, molhada até aos ossos e a
sorrir-se para mim, com um sorriso piedoso, todo lágrimas, com um
sorriso tão triste que me pisa o coração.

Arqueja o lume no escuro todo povoado de _vozes_, que vão pregar, mas
que logo se calam sufocadas. A ventania passa lá fora e na escada soam
os passos do gato-pingado; as mulheres gargalham e eu fico sozinho, a
cismar, neste velho casarão, com os olhos presos no lume que
esmorece...

Ei-lo que pára no patamar a tossir, com o peito escalavrado e roto!...

Na verdade não conheço outro homem tão nulo, banal como a própria
banalidade. A sorrir, a amar, e até com o coração despedaçado, esse
homem fazia sempre rir. Os próprios inimigos tinham por ele piedade ou
desprezo. Sim, piedade ou desprezo, porque S. José era incapaz de ódios.
Nunca pudera aprender a vingar-se e sabiam-no. A mim mesmo me fez algum
bem que depois lhe retribui em esmolas, ao encontrá-lo estatelado na
rua. Nunca lhe encontrei interesse: a sua vida é a vida de todas as
criaturas que se afundam por falta de tino prático para a luta:
enlamear, mentir, triunfar enfim. A vida (oh todas as sólidas
filosofias o ensinam) é de quem possui a força e aptidão... Mas hoje
estou num dia enervado e sinto-me sozinho neste velho casarão. Parece
que a noite tem vozes e que os meus crimes de outrora (há tanto
esquecidos!...) encontram enfim palavras e se põem a falar dentro em
mim.

É talvez para fugir a esta obsessão que me deito a cismar na vida
deste homem banal como a própria banalidade.

Nem sei como conte, com que palavras faça a narração duma existência,
que é como um trapo que se deita fora todo molhado de lágrimas.

Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veio um dia a catástrofe e
incendiou-lhe a casa: mais tarde enganaram-no, mentiram-lhe. E não
faltou a doença a escalavrá-lo brocando-lhe a cara e a tísica a
romper-lhe o peito com tosse, nem a miséria a deprimi-lo. É por isso que
ele, ao sacar das casas o caixão dos mortos como quem o arranca do
peito dos que ficam, decerto ri por dentro, há-de rir consolado.

Quem foi a tua mãe, ó S. José?...

       *       *       *       *       *

Apedrejam-no os garotos ao vê-lo passar para os enterros, fogem dele
os vizinhos e só a Rata fala ao gato-pingado.

A Rata é sua igual, tão maltratada pelo destino como ele. Foi sempre
assim: raquítica, triste e feia. A vida para ela tem sido mourejar.
Sustentou primeiro a mulher que a tirou do asilo, depois o homem com
quem casou, e que logo a deixou sozinha. Com o S. José conversa às
vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal
sabe exprimir-se. Falam os dois como podem comunicar entre si as
pedras, os seres que o acaso rola juntos no mesmo vagalhão da vida. Nem
se queixam--e de que se hão-de queixar? Deus os sustenta na sua mão de
pai.

--A gente é pobre--diz ele.

--A gente é pobre--torna-lhe ela.--E às vezes passa fome.

--Passa.

--Quando a minha mãezinha era viva, eu rapava fome. Era preciso dar-lhe
o sustento e eu mal o ganhava para mim. Até que acabou de penar os seus
trabalhos. Tudo se acaba um dia.

--Pior do que isso é não ter ninguém. É pior do que a fome.

--É o pior de tudo.

--Que se há-de fazer?

--Sabe vossemecê? olhe que eu às vezes ponho-me a cismar porque é que a
gente sofre...

       *       *       *       *       *

E o vento ulula. No coração do Inverno o enxurro leva as lágrimas que
ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino
ignorado. Rola as lágrimas dos pobres nalguma nuvem perdida e gemidos,
ais, palavras leva-as o vento consigo. Noite negra! noite negra! Arqueja
o lume e o prédio sob a ventania arqueja.

Eis-me a cismar absorvido nas brasas, fascinado pelo seu escarlate, ou
com os olhos postos nesse outro lume, o Hospital, que brilha na
escuridão como um brasido de gritos.

A pedra de que o construíram di-la-íeis transida. Foram-no
acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miséria cresceu.
Arrancaram-no ao coração da terra. A ossada dos montes, abraçada pelas
raízes, a fraga escondida que com a água viveu e em si a guardou,
sentindo-a bulir no seu seio, minar para a luz, a pedra irmã da terra,
sepultada na terra, veio ter este destino--abrigo de míseros.

Ao pé da pedra a Árvore cresce. Prega o universo e ela retempera-se. As
suas raízes vão sob a terra até ao Hospital e os seus braços quase
cobrem o prédio. Dum lado o Hospital, do outro a Árvore. Só eles
prosperam. Deita a Árvore pernadas e a cada Inverno o granito aumenta,
qual outra árvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. O Hospital
tem raízes em toda a cidade.

A Árvore é quase uma construção. O tronco é corroído e as pernadas em
cima torcem-se e esgalham-se. Suas raízes vão sugar no Hospital. Com os
anos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-no, abriram
fendas para mergulharem mais fundo na miséria humana.

E para lá? o que há para lá? Ao findar dos dias sinto um ar vivo que é a
respiração dos montes adormecidos, batendo nos muros compactos do
Hospital e ruídos, claridades, mistura de oiro e verde, gorgolejos de
minas, chuva de sol e de água, tombando. Arfa a terra, incham os montes e
vogam no ar aspirações de árvores, murmúrios de fontes, o hálito das
plantas ignoradas. Oh caem noites encharcadas de luar, em que se ouvem
as lágrimas das noras paradas, caindo uma e uma na terra sequiosa e se
pressentem diálogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...

E a Árvore, a este ruído, fica entontecida, abalada até às suas raízes
mais fundas.

       *       *       *       *       *

Esperai! esperai!... A ventania redobra. Depois há um silêncio
prostrado, um silêncio pior do que a lufada, em que eu ouço o esforço
que o mundo, que povoa a escuridão, faz para gritar. A treva arqueja e a
última brasa reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vai
esmorecendo...

Grito! É sempre a mesma rapariguinha que ressurge, magra, pálida e
triste, com um pobre vestido encharcado de chuva ou ensopado de
lágrimas. Sorri para mim, descalça, estendendo-me os braços. Ei-la!
ei-la!... Só uma brasa ainda vive no lume, misturando na escuridão uma
poeira escarlate. E vai apagar-se! extingue-se...

Toda a vida é uma construção de gritos, a cada passo para a frente há
sempre uma criatura espezinhada... Que queres tu?

Não é ódio que ela tem por mim, porque o seu sorriso, que eu sinto
molhado de lágrimas, é triste mas resignado. No entanto o remorso
acorda, o remorso põe-se a rugir... Vejo a mulher gorda e vesga dar-lhe
dinheiro; vejo-a depois partir através das ruas, encharcada até aos
ossos, sem perceber porque foi vilipendiada, enganada e expulsa... Vai
gritar? De que servem os gritos na terra, não me dirão?

Para quem há-de ela apelar no mundo? E não entende. Descalça caminha
pelas ruas desertas à chuva; pela vida aspérrima ao abandono. Vem depois
outro e engana-a, mente-lhe. Para que servem os gritos na terra? Tem de
sofrer e de se resignar à brutalidade, ao escárnio, aos risos; tem de
se afazer a ser explorada, à mentira, à infâmia... E assim caminha,
ensopada de lágrimas, afundada na desgraça pelos que passam e riem;
assim vai pela vida fora até onde?... Até onde?

Oh aquela brasa que ainda reluz como uma poeirinha de oiro, aquela
brasa que vai morrer no lar quase de todo apagado!... A lufada doida
passa lá fora aos gritos. Quanta gente grita neste vale de lágrimas! A
esta mesma hora quantos berram espezinhados, sem mão que os ampare? De
que servem os gritos, não me dirão?... Aquela réstia de lume é como o
último fio duma alma que vai findar!...

E ela aí volta, aí torna! Pobre corpo murcho, nascido para o
sofrimento, já dorido da vida, vestido duma sainha e dum sorriso
resignado de quem já presente o que a espera--quantos gritos! quantas
lágrimas pela existência fora!...

       *       *       *       *       *

Cerrou-se de todo a escuridão. Sufoco!...




XIV

O ESCÁRNIO


No ermo da noite o Gabiru vai tecendo a sua teia:

«A matéria também sonha. Nessa mistura de homens e calhaus, torrente
que leva consigo gritos e forças embravecidas, turbilhão arrasto pelo
infinito fora, não é indiferente ir ser pedra ou nuvem, nascer em
macieira de quintal escondido e humilde ou na água fulgindo duma fraga.
Não é o acaso que reúne ou afasta as moléculas, para as fundir noutras
formas. Há corpos que a química não consegue ligar, porque os separa o
ódio, e outros que se reúnem com sofreguidão.

Depois da morte a matéria entra num mar. Rios acarretam as moléculas,
até que se encontrem as que se devem juntar. O meu coração unido ao teu
há-de florir num simples espinheiro. Será num sítio pobre, mas alguém
que passe nesse Abril, sentir-se-á enternecido para sempre. O meu
cérebro procurará o teu cérebro para vogarmos juntos na mansidão dum
rio. Ora em terra, ora em pedra buscar-te hei inconscientemente até dar
contigo e te fruir nesse oceano bravio. Se tu fores fonte, irei
topar-te e juntos apagaremos a sede a muita raiz esquecida.

       *       *       *       *       *

Criaturas simples vão ser árvores que de anainhas a gente se sente
comovida ao vê-las; os sonhadores, desfeitos em nuvens, andarão nos
poentes do mar salgado, e as penedias, que o sol abrasa, as penedias
eternas, serão construídas do coração dos maus.

       *       *       *       *       *

Ei-lo o prodígio, o extraordinário milagre, esta vida que o Pita me
mostrou, árvores, nuvens, mar, este monstruoso referver de vida, igual
nos montes e nos ígneos mundos. E eu pertenço a este pélago como tu,
passo os meus dias a contemplá-lo!

       *       *       *       *       *

Fico horas a aparar nas mãos o jorro do sol, olhando-o correr...

       *       *       *       *       *

Por força existe uma razão superior senão o homem seria Deus, a
consciência do universo, o que se não compreende: um deus reles, com
misérias e gritos, sempre a escalar o infinito e sempre despedaçado
pelos tombos.

       *       *       *       *       *

Sê sempre bom, porque a bondade eterniza o amor.

       *       *       *       *       *

Os crimes da matéria pune-os a matéria, os crimes do espírito pune-os o
espírito.

Já ouviste que as árvores, o mar e as pedras, tivessem dúvidas ou
tremessem de pavor?

       *       *       *       *       *

Ver o sol, o universo, olhar, já é um prodigioso milagre. Mas tocar,
compreender calhaus, almas, ter raízes em todas as estrelas, no céu e
no oceano--é o portentoso sonho.

       *       *       *       *       *

O homem arranca de si próprio universos de beleza.

       *       *       *       *       *

O homem tem uma centelha de prodigiosa alma que erra no grande mar de
sonho que vai espraiar-se de estrela a estrela e tudo enche, doirado e
enorme, e que em si consubstancia o génio, a beleza, o amor. Logo que a
matéria se dispersa, a immorredoura faísca volta ao atlântico donde
tinha saído.

       *       *       *       *       *

Criamos cada um de nós um universo de angústia ou de beleza, ressequido
ou de fogo. São felizes os bons portanto. Há no entanto criaturas que
vivem sem suspeitarem que o universo existe.

       *       *       *       *       *

Às vezes nos mais simples factos encontra-se mistério, como num punhado
de desprezível terra há uma força escondida. Parece inerte. Esperai,
porém, que Março a toque!... Assim esse pobre desajeitado, sempre tímido
e vestido de negro, tinha uma existência feliz. Na trapeira passava as
horas a cismar nessa rapariga quase tísica, com um ar de máscara que
vai gritar de aflição. A Mouca foi amada como as princesas lendárias, e
esses amores entre um filósofo esfaimado e uma mulher da vida, tinham
não sei que enternecido interesse. Sobre os calhamaços do Gabiru alguém
encontrou por vezes flores ressequidas e nessa Primavera--caso único--o
vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no
saguão.

Ele era feliz. Que importa ter-se fome, se se ama? O amor e a fé não
transformam o mundo até às suas mais profundas raízes? Quem diz que se
não podem construir com aquelas nuvens esparsas marmóreos palácios ou
estrofes de luar?

As suas teorias, as suas ideias ia-as tecendo e olhando a Árvore. Pelo
tronco corriam já estremeções: os gomos pareciam envernizados.
Debruçado na trapeira, fascinado olhava-a de galhos despidos, ainda nua,
mas--como direi?--vestida de emoção.

--Aquela Árvore...--murmurava ele cismático.

Em baixo corria sempre a levada, lágrimas, gritos, gargalhadas, lama
espezinhada que fala, lodo misturado de sonho, logo nascido, logo
atirado a arena, gebos, prostitutas, monstros em cujo corpo de sapo
habita a alma dum deus. Porque? donde? De que ruínas se constroem
estes seres que o destino marcou com dedadas trágicas? São feitos de
pedaços de estátuas e loucura. Falam em gíria. Se riem são o Riso e é
como se dentro deles andasse um doloroso palhaço aos saltos. Têm
olhares de desespero e de ódio. Eis um rio de gritos que já brotou para
sofrer. É a Noite que anda a arquitectar de neblinas os seres
destinados a arena? Este esgoto que passa, todo revolvido, pela natureza
indiferente, é porventura necessário e fecundante?....

Todos os dias o Gabiru lá vai sentar-se olhando a Mouca entre os ladrões
e os soldados, que à noite surgem para se rirem das lágrimas e dos
gritos. Entre a turba sinistra vem sempre o Velho, calado e feroz, que
só ri com uma boca disforme, e o Morto, que fala com desprezo do
sofrimento, das mulheres, da morte. O Gabiru, encolhido e triste,
põe-se ao seu lado a olhar para a Mouca e vai tecendo o seu sonho. Toda
a noite é uma mistura de gritos, de lágrimas e risos. Espancam as
mulheres e quando elas choram, caídas, tornadas em escárnio, ínfimas
como a terra, todos eles riem, com um _anh!_ de satisfação por as
fazerem sofrer.

Mas um deles d'essa noite repara no Gabiru, perdido a um canto sem ver
nem ouvir, ridículo, esguio, alheado. Aponta-o e logo a turba emudece,
trágica. O Morto, pondo-lhe a larga mão no peito:

--Ó tu!

--Anh?

--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Logo o Velho escancara as fauces e todos os outros de repelão se
erguem.

--Esperem... Tu não ouves?

--Anh?--diz ele, acordando estonteado.--Anh?

Então o Morto, que aperta sempre uma contra a outra as mãos geladas,
como se tivesse vontade de maltratar, clama:

--Acho que é poeta! Dizem que é poeta!...

E em torno pega-se o riso feroz como um mar que sobe. As mulheres, que
foram sempre maltratadas, chegam-se rotas, tísicas, rasas como o chão:

--É o poeta!

Há olhares vesgos, de ódio, lume que gela e arde. A maldade ressurge.
Vão-se rir, vão espezinhar. Logo o coro de gargalhadas e de gritos
esturge.

--Olhai para ele... Sabeis como lhe chamam? chamam-lhe o Gabiru.

--É o enguiço,--diz a Mouca.

--Olha lá--avança outro--onde metes tu essas pernas?

--Anh?--pergunta o Gabiru sem entender ainda, tonto de sonho.

E fita os ladrões e as mulheres que formam roda. Esguio e transido de
frio, dentro da sobrecasaca de alpaca, pela primeira vez descobre, à luz
do candeeiro fumarento, a triste realidade, as mulheres da vida, os
seres de descalabro, as caras dos ladrões. Há fisionomias de pavor e em
semicírculo, chegam-se para ele, de bocas escancaradas, só bocas.
Ninguém se ri da dor física como os pobres, que só admiram a força.

--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?

Ele espantado acorda:

--Anh?

Olha-os tonto, magro, esfaimado. Através da névoa do sonho vê a
realidade, e entre o círculo dos ladrões e das mulheres acha-se
transido, tímido e torto. Em redor os outros sentem que vão fazer mal.
Vão-se rir do que é pobre e desajeitado; vão-se rir do que não
compreendem--do sonho.

--Acho que é poeta!...

E os ladrões ululam. O riso é ódio, o riso ignaro é ódio da matéria
contra o espírito. Tem este nome--o escárnio. Ajuntam-se os ladrões e as
mulheres para gargalharem daquele ser encolhido e torto.

Tem passado fome, tem vivido só com pão e cisma, preso a nuvens e de
súbito dá de cara com o escárnio. Há quem se ria da dor, dos gritos, da
tragédia. O mal faz rir? Faz. A dor faz rir? Faz. E a desgraça? Também.

Os ladrões e as mulheres têm vontade de espezinhar porque odeiam e não
compreendem o sonho. Arrastem para um tablado as piores ruínas e as
mais amargas catástrofes que a multidão gargalha. Ponham a Fome a
ulular que a matéria ri. Ri de tudo o que é triste, pobre e torto--e do
que é belo como os astros.

Resuma raiva o escárnio. Neste riso há sempre gritos. Toca a gargalhar
da Desgraça e da Dor; transformem em farsa toda a tragédia humana.

--Diz que estás apaixonado?

O Gabiru cala-se.

--Tu não falas?... Ah tu não falas, enguiço?... É desta que tu gostas?

--É de mim? pergunta a _tísica_ e tosse, rindo-se. É de mim?--Está ao pé
da cova e espezinha, ri com ódio, pelo que sofreu na vida. Cessam num
momento os risos. O que sentem todos é vontade de calcar, de o tornar
raso como eles...

--É por esta? Não? Então tu imaginas que há alguém que goste de ti, meu
desengonçado? Tu!... Vocês vêem-no? Nem sei que parece! Ai vai o
poeta!...

Dá-lhe um encontrão, atira-o e, entre risos e chufas, vai de mão em mão
como um trapo. Todos têm vontade de o amachucar, de o tornarem mais
reles, mais triste, mais pobre e transido, por não lhe poderem tirar o
pão da sua vida--o sonho.

--Aí vai o poeta!...

Até que o largam. De pé no meio da sala, com a sobrecasaca rota,
amolgado, exclama, não compreendendo:

--Mas eu que fiz? eu que fiz?....--Vai rir? vai chorar?....

As gargalhadas redobram ao verem-no espantado e pícaro. As bocas más
clamam, cheias do gritos. O seu olhar aflito procura a Mouca e vê-a
rir-se também. Nos olhos reflecte-se-lhe o abismo que descobre, a
secura dos outros, o sonho calcado e por terra, lágrimas e enternecido
espanto.

--Foste tu! foste tu! Tu riste-te de mim!...--diz, apontando a Mouca.

Os ladrões gargalham e só ela se cala, a Mouca que tem rido sempre de
tudo, da vida, da morte e até da própria desgraça.

--Ó Mouca! ó Mouca! olha o poeta!--gritam todos à uma.

--Que é? Deixem-me!...

E cisma.

       *       *       *       *       *

Altas horas da noite... Saio, erro... A pensar em quê? Em coisas
desligadas, sem nexo: na ambição, no ódio, no exaspero. As ruas seguem
monótonas, negras, enlameadas; dum lado e doutro as casas parecem
construídas de tinta e de lama o céu que se desfaz e goteja. Que mundo
este!... Na minha frente, reparo, caminha um velho... Não o distingo
bem: é a sua sombra que eu vejo, cómica e desengonçada e, ao passar pelo
lampião ia jurar que lhe notei cabelos brancos. Aquela sombra
agita-se. Mexe os braços, com o chapéu na mão, fala sozinho, discute...
Às vezes tropeça, ergue-se e lá parte a pregar por entre a casaria e o
ruído, debaixo da chuva miúda, lama negra que goteja do céu.

Agora as ruelas apertam-se e já reparei, ele dobra, volta para trás,
há meia hora que gira no mesmo sítio, absorto. A chuva enlameia-lhe os
cabelos e o seu braço gesticula num redemoinho.

Das alfurjas vai saindo um ou outro noctívago, que o olha e passa
indiferente, murmurando os seus exasperos ou as suas aflições.

A cidade di-la-íeis farta de tédio, afundando-se em lama. As nuvens
baixas e disformes esfarrapam-se, colam-se aos prédios. Os casarões
alongam-se pesados e enormes, e onde a onde irrompe um golfão de luz. A
sombra caminha, toma por ruelas funéreas. Vai sozinha com o seu sonho
ou a sua desgraça.

Três horas numa torre. Há um silêncio cavo. Chove sempre a mesma chuva
tenaz, com um céu nublado e aflitivo. A cidade morta, sob o aguaceiro,
espapaça-se na lama. Debaixo de cada um destes tectos escondem-se as
mesmas misérias e os mesmos sonhos. Esta pedra abriga ódios, crimes,
escárnio. A sombra perde-se no escuro, torna, pára indecisa...

Que me importa o que os outros sofrem? Uma desgraça? O mundo está cheio
de desgraçados. Um sonhador que se afunda? O mundo está farto de sonho.
Este mesmo céu pesado, esfarrapado e trágico, tem abrigado sempre gritos
e catástrofes. Que me importa o que ele sofre? Cada um por si, cada
um com as suas lágrimas e os seus ódios... O homem por vezes tropeça,
cai; depois lá se arrasta trôpego.

Alvorece e, àquela primeira luz, a cidade parece desenterrada. A
casaria ressurge, imerge da treva, leprosa, cambada, gasta pelo ódio,
pelas ambições, pelos rancores...

Ei-lo que se senta na terra, arrasado. Está enlameado, exausto... Ao
romper da manhã começa de novo a chover e ele chora.

Tanta lágrima! Um dia a desgraça, no outro a desgraça... Aquela sombra
é a minha! aquele homem sou eu!...




XV

FALA


Falo. De súbito a minha vida surgiu-me como um desses dias de Inverno,
pardos e monótonos, em que até o resquício de sonho, que acaso coube em
sorte às pedras, se concentra adormecido. Secou-me na boca o riso que
ia rir, e acudiram-me ideias em que nunca tinha reflectido... Alguém
abala uma árvore até às suas últimas raízes. Arranca-a. O grito que a
terra revolvida dá foi o meu grito.

       *       *       *       *       *

Dêem-me a vida que devem viver os seres e as coisas, a quem ninguém
ensina a vida: que bebem a largos sorvos a existência: em quem a vida
corre desordenada e esplêndida. Quero enfim isto: ser: não fingir, mas
ser, não viver da tua vida, mas da minha própria vida.

       *       *       *       *       *

O momento em que tu deparas, a sós, com a tua alma, que até aí não
tinhas encontrado, toca a loucura--mas depois ouves falar dentro em ti
tudo que estava para sempre adormecido...

O que é isto--o escárnio? Donde vem isto ao mundo? Riem por ventura as
árvores? E os montes e os rios também riem? O escárnio torce o coração.
Riram-se de mim! riram-se de mim!

       *       *       *       *       *

Surraram-me, secaram-me. O que eu sei é aprendido, vão, construído de
palavras que não são minhas. Nada conheço da vida.

       *       *       *       *       *

O homem só é feliz quando é ele. Os outros é que o empurram para a
desgraça. O homem precisa de se encontrar.

       *       *       *       *       *

Entras na vida e modelam-te: mestres, amigos, livros, amassam-te e
modelam-te. Para quê? Para te fazerem feliz--dizem. Deixem-me ser
desgraçado à minha vontade!...

       *       *       *       *       *

Qualquer árvore incha, cresce e por tal forma se liga à terra, pelas
suas raízes, que a esfuranca como nem o ferro do arado a lavra. Só na
minha vida não há raízes. Amigos não os tenho nem os quero, e tudo me
parece pardo e inútil.

Ainda a natureza me prende: fico horas a ver um charco e nunca me
comovi como diante da árvore mais humilde.

       *       *       *       *       *

A desgraça que eu tenho encontrado não é a desgraça, nem isto é a
felicidade: quero tragar a vida amarga, misteriosa, profunda, toda a
vida; quero o meu quinhão tal como o têm os misérrimos bichos, os montes
ignorados e os pobres...

Ou vou morrer sem ter vivido.

       *       *       *       *       *

Só em pequeno é que eu senti correr em mim a vida. Guardo ainda o cheiro
à essência dos pinheiros mansos, que eu vi há muitos anos, o cheiro a
bravio que o mato orvalhado tinha de manhã, e que me fazia cismar na
vida feliz dos lobos e dos bichos, que respiram o ar livre e são; que
dormem sem cuidados nas tocas ou nas sombras fofas; que matam sem
remorsos.

O nosso quintal! No alto há um muro branco, uma cancela, uma mouta de
pinheiros sempre verdes e em diálogo com o mar. Antes de entrar,
voltai-vos... Que imensa serenidade sai desta paisagem!... Mar azul e
céu azul confundem-se: tudo é poeira azul. A luz palpita. Um risco
de areal: ao largo talvez um barco e longe montes sem habitações,
cobertos de pinheiros, esburacados de sombras, solitários, fazendo
pensar numa vida selvagem, livre, num pais sem leis.

Eis o quintal: uma horta com árvores. A principio lembra um labirinto,
uma labareda verde. As couves são do tamanho de árvores e a água
sussurra, mina por toda a parte, em carreirinhos, embebe à farta a terra
negra e gorda. Bordam os canteiros renques de alfazema, cravos, roseiras
de flor singela, e ao fundo há uma figueira grande, de folhas espalmadas
e carnudas que dá uma sombra subterrânea. Todo o quintal esfurancado
pela água ressoa como um cortiço. Cintilações, rumores por toda a
parte, por toda a parte a solidão.

Ali as árvores eram minhas amigas, as coisas conheciam-me e eu vivia
duma vida convencida, forte, bravia...

Vieram depois as palavras, os mestres, os amigos, e eu nunca mais achei
sabor à vida, até que acordei agora com este grito: Nunca vivi!...

       *       *       *       *       *

Ponho-me a pensar: quantas vezes a felicidade e a desgraça não são
verdadeiras, nem sentidas? Máscaras, só máscaras que afivelamos em
determinadas ocasiões, porque os autores, os amigos, todo o trama
complicado em que nos enredam, nos ensina:--Em tal situação tu serás
feliz...

E nós realmente, por hábito confessamos:--Sou feliz...

Mas examina-te... No fundo qualquer coisa de amargo remexe...

       *       *       *       *       *

Fugi. Isolei-me. Não quis amigos, quis isto: ser só.

Para que me chamam o _Gabiru_? Metido no último andar do Prédio,
ponho-me a escutar tudo que dentro em mim fala. Esqueci a realidade,
para conhecer a realidade. Deitei fora o que aprendera, combati comigo
mesmo...

       *       *       *       *       *

Agora vejo a desgraça! agora encontro a desgraça!...




XVI

HISTÓRIA DO GEBO


Assim a miséria foi crescendo nas mansardas destelhadas do Prédio, para
onde a sorte os atirara nesse Inverno. Muitos dias lhes faltava o pão e
o frio era tanto que não saíam da enxerga. Viviam mais pobres que os
pobres e não pediam esmola. Ele saía logo de manhã escovado, limpo,
com a roupa no fio e as botas rotas sem sola. Cheia de tristeza dizia
lhe ainda a mulher:

--Homem, vê se te dão um emprego...

--Anh? Eu vejo! eu vejo!... Não te aflijas, mulher.

Um emprego! quem dá aí pão ao Gebo, amachucado e ridículo, envelhecido
e trôpego, e que já mal sabe escrever, de cego e tonto? Aguilhoado,
todos os dias se levantava para a humilhação e para a correria atrás
duns míseros cobres. Era quase esmola que ele pedia, a chorar--de
cabelos brancos estacados.

Um dia andara, rondara, a tressuar de aflição. Todos o repeliam. Era em
certa terça feira aziaga desse Inverno enregelado e torvo. Nem andar
podia de amargura e cansaço, e via chegar a noite, horas de voltar para
o casebre, onde a mulher decerto o esperava ansiosa:

--Então? então?.... Arranjaste?

Oh se o Senhor lhe valesse! se o Senhor que tudo vê lhe acudisse na sua
miséria profunda! Nada. Todas as portas fechadas, todas as almas
fechadas a sete chaves. Então, a chorar, aquele velho ridículo e gordo,
estendeu a mão a um desconhecido que passava, dizendo palavras
desconexas. Tinham fome em casa... E pediu a um a outro, encolhido,
escondido, bebendo as lágrimas, para que lhas não vissem, numa
aflição de rachar pedras. Na mansarda as duas esperavam esse triste e
amargurado pão, e ele nem dava pelas ruas por onde caminhava com passos
incertos, de bêbado. Suplicava num choro humilde, e nessa
noite--terça aziaga--se o Gebo ainda tinha vaidade ficou-lhe aos
farrapos na lama.

--Então? arranjaste?

--Valha-me Deus! cá está, mulher! cá está!... Apesar dos ralhos, todos
três se queriam dum profundo, dum admirável amor. A desgraça
aniquilava-os juntando-os. Deixava um de comer, fingindo-se farto, para
que o outro tivesse mais pão; se qualquer adoecia, os outros nem dormir
podiam, e um dia a mulher enfim tombada, inútil, sem poder erguer-se,
chamou Sofia para lhe dizer baixinho:

--Olha se cuidas de teu pai. Nunca o abandones. Foi sempre um santo.

Desde então ninguém mais lhe arrancou palavra. Com os olhos aguados,
seguia-os pela casa, até que ficou morta. Acabou gasta de lutar um dia
e outro com a desgraça sempre, depois duma vida de desespero. Ela era
o arrimo, a energia, a força que os sustentava a ambos e impelia para a
vida; era ela quem disputava--em vão!--braço a braço com o destino
férreo tentando ampará-los, e arrancando-lhe os últimos trapos e restos
de felicidade. Em dias de fome ela a primeira a fingir-se farta.
Ordenava, mandava, batalhava. Matou-a a hora em que teve de despedir-se
das árvores do seu quintal, que vira crescer, da água da bica que
correra sempre inesgotável como as suas lágrimas. Morta deram pela falta
que lhes fazia, como só se medem os troncos depois de tombados.

       *       *       *       *       *

Vestida com o seu último vestido, pelas mãos do Gebo e da filha, ficara
branca, mirrada, embebida de serenidade, mais feliz de que os que
ficavam. O velho caíra exausto, a chorar, a um canto, e no casebre
toda a noite se ouviu aquele ruído monótono, triste, infantil. Chorava
e cismava:--Amanhã lá tenho de ir à procura de pão...--Sempre a mesma
vida, sem tréguas, agora sós os dois e a Desgraça. Quando a mulher era
viva, apesar de transidos, ainda cuidavam:--Para o ano, talvez para o
ano a má sorte se canse de nos perseguir...--E assim se gastara a
última energia e os trapos que, de usados, nem sequer aqueciam. Toda a
esperança murchara. O velho ouvia risadas na noite profunda e bocas a
clamarem:

--Ó Gebo! ó Gebo!...

--Anh? aí vou! aí vou!...

Levaram-na para a vala comum num caixão de pinho e ele ficou
abraçado à filha, soluçando.

--Se Deus nos levasse!...

Trôpego, velho, cansado, só sabia chorar, e a filha tinha de o levar
pela mão como quem guia uma criança.




XVII

O QUE É A VIDA?


O Gabiru não entende a existência. A sua alma é como uma penha ferida,
que se desfaz em água. Acha-se de repente num pélago refervendo oiro.
Descobre torrentes impetuosas de ódio, torrentes de escárnio, a Árvore,
as estrelas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho. Para onde?
para onde corre tudo isto? A Morte ao lado duma árvore cheia de flor.
Um caos. Treva e sol, oiro em borbotões, e o homem indiferente... Ao
dar de cara com a existência, transido, ao ver-se escarnecido entre a
Vida, o Gabiru gritou. Pois passa o Inverno e a tempestade, vem a
Primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos ergue? Sob os seus pés
a terra move-se, num burburinho, toda ela viva; sobre a sua cabeça a
abobada do céu arqueja, carregadinha de estrelas--e o homem queda-se
inconsciente? Há o escárnio, pedras, constelações e o mar profundo e o
homem continua impassível.

O que é isto? o que é a Vida? o que é este mistério onde o homem entra
como a salamandra no fogo? Pode o homem de repente dar em uma árvore
cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezível charco se
espelha o sol e tumultua a matéria em combinações infinitas--e o homem
segue o seu trilho inconsciente!...

O que é a Vida? o que é a Vida? Uma alma, um sonho? A vida tem
realidade? O que pratico sobre a terra é indiferente ou vai
repercutir-se algures? Isto é lodo ou fogo, aparência ou temerosa
realidade? E o escárnio e a água a nascer fulgindo dentre a terra, o
amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto é um turbilhão de almas e de
pedras, de árvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplêndida
caminha para um fim de beleza? Ideio numa cova, num sepulcro
fechado, ou vivo da verdadeira existência?

E os pobres? porque é que os pobres sofrem sem gritos, revolvidos como
a terra por este arado férreo--a dor? Só se vem a este mundo para
gritar?

O Gabiru via-os cheios de resignação seguirem o caminho da vida, cada um
com sua cruz, feridos nas pedras aspérrimas, sem pão, escarnecidos,
tombando sem gritos? Porquê tudo isto? Para que sofrer? E toda a sua
filosofia tombara por terra...

Reuniu os desgraçados para saber; foi perguntá-lo ao Pita, ao Sábio, ao
Astrónomo, aos outros, aos pobres, e nessa noite veio gente de todas as
bandas da tristeza e do sonho, para lhe explicarem a Vida.

Partindo, para essa reunião, o Pita e o Sábio falavam:

--Só sabem sonhar e depois...

--São homens extraordinários, afiançou o Pitágoras.

--Veja você... Querem que se lhes explique, o quê? A Vida! Já o outro é
assim.

--O _homem do pacho_?

--Sim, esse...--e a voz do Pita transiu-se--Na verdade existem terras
prodigiosas, chãos que só dão sonho. Há seres inteiramente edificados de
névoa, criaturas cuja alma subterrânea se criou na humidade e no
silêncio, onde nem sequer tomba uma misérrima gota de luz. A alma assim
cresce à solta, branca de certo e com uma forma inexplicável... São
sapos de sonho.

--São sapos embebidos de sonho. O que pode fazer com que uma criatura se
arrede e fuja, não do homem, que não importa, mas disto, do convívio
com isto,--a luz fulgindo sobre as coisas, a vida tumultuária como um
oceano? Não a ver, não a ouvir, não a sentir correr continuamente, toda
de oiro e de verde, com mil formas, mil sons diferentes... Você
compreende?

--Compreendo.

--A mais mesquinha terra gera mistério. É tão admirável e sempre tão
diversa, como isso a que você chama o infinito.

--O quê?

--O infinito. É ainda mais maravilhoso que o próprio maravilhoso, porque
a realidade é sempre maior que a fantasia.

--Muito bem... Ele, porem, quer fugir. Eu bem lhe explico e vou já na
trigésima lição... Esse homem nasceu com uma alma destinada a uma
estátua e coube-lhe em sorte um corpo de mendigo. Eu só o vejo nas
trevas...

--É horrível?

--É. Por isso se fechou e se deitou a sonhar. Eu te conto! eu te conto!

O sabiou parou, olhando-o com admiração:

--Você, Pita, afinal é um experimentador.

O Pita sorriu, todo babado para a lua, e depois disse com modéstia:

--Sim sou alguma coisa experimentador... Eu te conto. Fechou-se para não
sentir a piedade dos outros. Na treva não se vêm olhares de piedade ou
risos. Cada um pode esquecer a sua miséria, à forca de a esbrasear. O
seu sonho é subterrâneo, sabes?

--Sei. É como o das plantas cortadas, só raiz, e que ficam vivas debaixo
da terra, com a vida suficiente para sonharem em crescer e botar flor.
No túmulo cismam no ar azul--e nunca deitam haste.

--Assim é o seu sonho. Depois de que vida desesperada se fechou para
sempre? Talvez outrora perdido buscasse à noite alguém como ele, para
se amarem... Rondou com os sapos, que só aparecem a noite, porque são
grotescos...

--Mas os sapos encontram sapos com quem se põem a falar dalguma
estrela e ele...

--Ele foi feito para viver na solidão. E que fome! e que sede! Água, se
há água no universo, o que ele mal presente, quer vê-la jorrar
inesgotável entre as suas mãos, cheia de cintilações e murmúrios;
montes, se há montes, quê-los subir e calcar sob os pés; e as árvores, e
o céu, e as mulheres com toda a sua imaterialidade de flor. O pequename
vê lá!... Da terra não conhecia nada, quando eu surgi. Mal entreviu o
universo para logo se emparedar. Só sabe o que é o sonho. Refugiou-se em
sofreguidão no sonho--e sonha tudo. Calafetou-se e ainda ontem,
imagina tu, como um fio de oiro, entrasse por uma fresta, como um cabelo
de Maio, ele teve um sobressalto e disso:--Eis talvez ao que chamam o
amor.--Mas aquilo fê-lo pensar na sua miséria e tentou em vão quebrar
esse fiozinho ténue e resistente. Por fim chorou... Tenho-lhe explicado
tudo, a natureza, a vida, mas ele só quer sonhar.

--É que o sonho é o pão dos desgraçados. Todas as criaturas que sofrem
refugiam-se no sonho. Roubar-lho seria pior do que tirar-lhes a última
côdea. Essa gente vem da vida espezinhada e sonha; calcam-nos, toca a
sonhar...

Meditaram. Depois o Pita com tristeza afiançou:

--Amigo, só nós é que já não podemos sonhar...

--Nós não, nunca mais podemos sonhar!...

       *       *       *       *       *

Ei-los reunidos aos desgraçados e todos se põem a falar ao mesmo tempo.
Nenhum quer ser o que é, e cada um para seu lado acusa a vida. Há-os
que têm inveja dos poentes, das pedras, das águas.

--Para quê ser homem?

--Ninguém sabe.

--Quem dera não sentir, andar como anda a essência do tição ardido,
perdida no redemoinho eterno, ora na nuvem, ora na mãe de água ou no
fundo do mar.

--O que é a Vida?

--Sei lá! Talvez uma aspiração, talvez um sonho. Olhai o universo, que
amalgama! Tudo se mistura e se enleia... Na raiz do teu ser que sentes
diante do temeroso universo?

--Tudo é química,--disse o sábio profundo.

--Eis um sonho,--afiançou gravemente o Pita.

Só os mais pobres, arredados a um canto não diziam palavra, porque
também só os pobres na vida sabem sofrer.

--Mas então mais vale a morte.

--Pois mais vale.

Põe-se a discutir e os pobres, sem palavra, ouvem arredados. Há feições
consumidas, olhos fartos de chorar, cabeças simples e grandes de
mártires e de santos. Só eles sentem o mistério da vida; só eles
gastos, mudos e contemplativos, mergulham na vida raízes profundas. Os
outros dizem palavras, constroem com nuvens. Eles edificam.

--A vida, concluiu o Astrónomo, só vale passando-a a sonhar, embevecido
numa obra.

--A sonhar não!

--Eu queria ser poeta...--torna um.

--Se eu fosse poeta quereria isto: não fazer um livro, mas criar uma
nuvem... E encaderná-la. Oh o leitor, o leitor teria um pasmo. Imagine
que tintas e que sonho!... Uma nuvem, pensem nisto...--disse o Pita.

Soara a hora da vida, em que, todas as ilusões caídas, se cisma ou na
morte ou num crime: a teoria em que consumimos anos vividos de
existência, parece-nos, nessa hora, negra e ardida; o livro revolvido
de paixão e de gritos, mirrado; o sonho exausto: cada um desses homens
assassinaria para possuir o que haviam sempre desdenhado, o oiro e o
poder. Só o Pita, outrora tão materialista, protestava em nome do
ideal.

Voltando-se para uma tremenda mulher, toda caiada de branco como um
palhaço, a quem chamavam o _Corsário_, o Sábio começou:

--Só a química existe, creia, madama. No fundo de todas as acções e de
todos os fenómenos, só encontramos a química... Na Primavera e no ódio.
Vocês nunca viram lá fora onde existem árvores?... Sim há árvores e
águas... Aí nestes dias de chuva a terra é como um laboratório
imenso. Tudo se envolve em água, árvores, mato, campos ensopados: nos
montes corre um oceano: as nuvens liquefazem-se... Biliões de gotas. E
de toda esta lama, das folhas secas arrasto, da terra inerte se obram
prodígios: reacções, transformações, a vida enfim. Vocês nunca viram uma
grande nuvem verde pousada sobre os campos?... É erva nascendo... Pois
é feita de chuva e terra... Das árvores--sabem?--caem gotas mais
grossas e o cheiro a terra molhada e a pinheiro inebria. Embebem-se os
troncos, o húmus, as raízes, as pedras, para se desentranharem depois ao
sol, numa vida furiosa.

--Pois a quimicasinha, disse o Pita, tem sua importância... Mas não é
tudo: o infinito existe...

--Onde?

--Onde? Onde não sei, mas é lá que vive a alma daquela pobre senhora
que eu outrora amei desesperadamente...

Os pobres do seu canto escutam em silêncio, atentos àquelas criaturas
nascidas entre pedras e que passam a vida agarradas ao sonho. A cidade,
a desgraça e o próprio sonho, constroem os seus tipos. Marcam-nos.
Triste é chegar aos quarenta anos embebido numa quimera, todo em
brasido, e súbito haver uma hora em que a verdade irrompe como um
punhal. A multidão ri, escancara-se diante do teu poema, do lume que
contigo trouxeste, da tua vida inteira. Quer dizer: se a mulher te
apareceu como um fruto, arredaste-a, para só pertenceres à tua obra: o
riso desprezava-lo: anos, pendurado num telhado, viveste absorto:
queimaste o que em ti havia de melhor: deste-lhe os nervos e o cérebro,
e quando surgiste enfim, exaurido, e pregaste à multidão--ei-lo o
poema!--tudo se riu em torno, e tu mesmo, o que é pior, viste que o
brasido da tua obra era apenas terra inútil--pedras. Nessa hora amarga,
a tua alma desmoronada e a tua fisionomia adquiriram um endurecimento e
uma tristeza inexprimíveis: dir-se-ia que ficaste com uma fisionomia
dilacerada. Começas a fugir de ti mesmo. Nenhum outro sonho te é
possível: só o álcool te dá ainda ilusões, e as conversas desesperadas,
monólogos, gritos, como os teus iguais, todos os que tombaram do sonho
para a terra, agarrados a farrapos desse passado radioso, que ainda os
ilumina, como a mendigos que envolvessem a sua nudez em pedaços
arrancados ao poente.

Para o _Corsário_ chegara a velhice: desdenhavam-na e ela mergulhava
no ódio; ao Sábio caíra a sua teoria; o Pita empobrecera; só o
Astrónomo vivia alheado. Se haviam pensado no suicídio?... Quantas vezes
todos juntos tinham discutido a morte!...

--A nossa desgraça, rompeu o Pita, é a falta de dinheiro. Com oiro
triunfaríamos ainda.

--Com oiro! berrou o _Corsário_.

--É que, respeitável madama, hoje ele é o único poder, a grande força.
Permita-me que lhe afiance: é Deus. O oiro é tudo!

Cada um ruminava as suas ideias sem se importar com o Gabiru. Do saguão
vinha um rumor de papéis velhos: folhas de árvore, coisas apodrecidas à
sombra, queriam entrar na aluvião eterna.

--Sem oiro mais vale a gente enforcar-se.

--Enforcado não. Lembra um palhaço. É a morte a deitar a língua de fora
aos vivos, um trapo pendurado... É aflitivo e dá vontade de rir.

--Já tenho pensado nisso. Eu, por mim, escolheria a água.

--Um horror, a água!... O corpo arrolado, a lama das marés...

--Perdão, no mar largo...

--Uma bala, uma bala seria mais pronto. É até elegante. Repare que é a
morte dos namorados.

--E o veneno?

--Sempre escolhido pelos príncipes aborrecidos da existência, pelos
banqueiros falidos, por todos os que se querem ir embora sem rumor, o
veneno a mim aterra-me.

Ficavam um pedaço a cismar. O que os prendia afinal à vida? em que
criam? Nesse fim da tarde, chovia e aquilo era lúgubre: como que as
coisas os empurravam para a morte. Na vida tudo lhes falhara e aos
quarenta anos já se não constroem nuvens. Só o Astrónomo todo se
consumia em sonho: os outros, sentindo-o ainda feliz, puxavam-no para
o fundo, como os afogados aos que se querem salvar.

--Sonhar! sonhar!--pregava.

--Sonhar, deixe-se disso!... Na vida só o oiro vale.

--Que querem se eu nasci para isto? Eu só vivo na solidão, e a vida para
mim é sonhar. Como hei-de eu, que vivo lá em cima, pobre, com este
casaco que de gasto nem sequer me aquece, compreender a existência?....
Dum lado estou eu, misérrimo, do outro um turbilhão de astros... Quantas
riquezas! Astros todos de oiro, astros de crime, plagas duma areia fina
e rubra e depois largos oceanos desertos... Talvez o céu seja uma árvore
sempre na Primavera... Infinitos mundos, colossos mudos, que passam, e
eu pobre, transido de frio, compreendo e vejo!... Depois, se desço cá
para baixo, nu, a vida parece-me triste e logo corro a refugiar-me no
céu.

--Mas a natureza...--disse o Pitágoras.

--Eu sei, eu vejo do meu quarto: havendo sol é belo: é tudo de oiro e
verde. Sei que há árvores, o mar, rios, mas nunca ninguém os viu ao
pé...

--Perdão! mas já muita gente... O amigo confunde!

--Na minha pobre cabeça tudo se confunde.

--Sempre sonhar, sempre sonhar! Eu por mim já estou farto de nuvens!

--E que querem que faça, se eu não sei mais nada? Nem me sei rir, nem
sei falar...

       *       *       *       *       *

Falavam do suicídio, riam do Astrónomo--um sonhador!--e no fundo todos
temiam a morte e quereriam ser como ele. Morrer sem ter vivido!... Era
desesperador. O que haviam tentado realizar, esse esforço para
materializarem a própria alma, que outra coisa não é criar, dera-lhes
como resultado um bloco gélido e informe, talvez vivo mas em bloco.
Porquê? Porque a sua alma era assim, sem harmonia. Por isso a morte os
aterrava, a morte que era o _nada_ para todos, até para o Pita então
idealista. Sabiam que iam morrer sem ter vivido. A existência não era de
certo como eles a haviam compreendido: alguma coisa lhes falhara.
Tinham rido de tudo. Só a Morte ainda restava intacta, sem dedadas na
sua roupagem negra, com todo o seu mistério e toda a sua beleza. Ela
põe, até no homem que na terra representa a omnipotência, o banqueiro,
arrepios de alucinação e terror, quando acaso a Havas diz à Terra que
um Rotschild acabou de uma forma idêntica à dum pobre diabo ou dum
poeta, ou dum santo. Ela iguala, porque enfim é indiferente ir
apodrecer num palácio de mármore ou na vala comum: ela mistura
pobres com ricos, heróis e cépticos, egoístas e santos, e desse oceano
negro não saem nem gritos, nem bênçãos, nem palavras. É o formidável, o
misterioso silêncio. Nem o sol, nem a morte, se podem olhar fixamente,
diz La Rochefoucauld.

Morrer, dormir, dormir! Sonhar talvez!...--Ela impõe-se ao homem, negra
e férrea: quase sempre, porem, sob o seu manto tem claridades de
relâmpago. Nada lhe escapa, e, se para uns é madrasta, para outros é
noiva. Ora avança como uma fúria, ora coberta de flores como Abril.

As criaturas grotescas, os que nascem para sofrer, escravos, párias,
esperam-na como a redenção. De tanta lágrima, de tanta aspiração,
alguma cousa se deve ter criado no infinito...

Os humildes, que vêm ao mundo para gritar, aqueles para quem a vida é
aziaga e que vão de rastros até essa praia, onde o mar desconhecido rola
as suas ondas silenciosas, veêm-no dourado, cheio de claridade, numa
madrugada eterna. Apenas caídos, exangues, sem fibra que não tenha sido
torcida e despedaçada, sem boca para gritar--eles sabem-no--vão
erguer-se e, transfigurados, embarcar nas naus que os esperam para uma
viagem de maravilhoso sonho. Para os cépticos esse mar é negro,
tumultuário, de horror, como aquele oceano nunca dantes navegado, onde
só monstros cresciam.

Para eles a morte era o fim da vida, porque nenhum tinha vivido da
verdadeira existência. Ei-la a cova, a imobilidade, o Nada.

A diferença é simples: ela é termo de misérias, ou o termo do gozo.

Há pobres e tristes que passam a vida a esperá-la, a sonhá-la. Os
humilhados, os ofendidos, amam-na porque ela iguala, os escravos
porque ela liberta, e até os incompletos, aqueles a quem não é dado
nem sonhar nem amar, porque nela deve existir o Sonho e o Amor. Cada
um encontra nesse pélago o que lhe falta na vida...

--Este fim para que nós caminhamos, com terror e angústia quase sempre,
é o termo da vida? é o início da vida?--perguntava o Pita.

--As filosofias e as religiões respondem. Cada uma assegura a fala. O
mais certo, porem, é seguir o conselho de Platão: escolher a melhor
opinião e embarcar nela como numa jangada, para atravessar a
existência,--dizia o Pitágoras.

Só o Astrónomo lhes explicava:

--A morte é a vida,--cadinho onde tudo se refaz e renova. Da morte do
que é matéria resultam belas formas, árvores, nuvens, cores; da
transformação do que é espírito alguma cousa de radioso deverá surgir...

Há muito que eu conheço duas figuras, que através das idades, vem
pregando ao homem as suas doutrinas: ri uma, a outra chora.

Em certas horas de tristeza, em certas horas de crepúsculo, as palavras
duma, como murmuradas, empoeiram de sonho a alma; a outra prega, a
outra fala entre desesperos e ruínas. Vós, meus amigos, conhecei-las--a
figura do Céptico e a figura do Idealista. Representam os dois grandes
tipos da humanidade. Às vezes confundem-se, misturam-se: cabeças de
idealistas e corações de pedra. Acontece também que, quase sempre, uma
segue a outra, para derrubar ou para construir. Têm assim vindo pelas
filosofias, pelos sistemas, ora nas palavras de Platão, ora nas
palavras de Epicuro. Creio bem que, quando o imorredoiro espírito
precisa de falar aos homens, cria uma boca--Jesus; quando a matéria
quer pregar--aparece Falstaff.

Eu tenho-as ouvido dentro da minha própria alma, tenho assistido aos
seus combates dentro do meu coração. Uma afirma, a outra nega. São duas
grandes vozes, que nasceram com o homem.

Uma crê apenas na realidade, no universo tangível, a outra põe mais
longe os seus olhos--no Sonho. O espectáculo doloroso da miséria humana,
desola-a, mas não a faz descrer:--Lá, lá, tudo se realiza e os próprios
gritos são necessários à Harmonia.

Uma é feita de sacrifício. Arde. Morre e renasce, aponta a terra como
lodo, o infinito como fogo; a outra afirma-te que _depois_ só o nada
existe.

E assim é: o nada para que os que crêem no nada, a beleza eterna para
os que para ela vivem. Nem era admissível que milhares de espíritos
tivessem sofrido, cheios de abnegação, sem a terem criado, à
imortalidade. Se ela não existia formou-se, desde que os desgraçados e
os simples o quiseram. Do nada nada se cria, e da imortalidade tem
saído forças e palavras, que espantaram homens e abalaram mundos. Desde
que o primeiro humilhado viveu para ela e nela pôs a justiça eterna e
a sua fé--o infinito criou-a.

Eles, porém, ouviam com temor estas palavras. Esse problema da morte,
que vem desde os tempos perdidos, como um largo rio, trazendo à tona
ideias, explicações, teorias, apavorava-os. As suas águas acarretavam
ídolos, religiões, mantos púrpuras de homens, que se debatiam, a
gesticular, querendo compreender, ver. Ao pé dessa figura negra e
indecifrável, como no soco duma estátua, havia sangue amalgamado com
teorias, brasidos, lama, desesperos, que não conseguiam sequer pôr uma
ruga na sua impenetrabilidade brônzea. Ela enchia o céu, trágica e
muda, e da fila de homens, que lentamente, inexoravelmente, para lá
caminhava, numa caravana infinita, se algum erguia os olhos, céptico,
desesperado ou resignado, sentia-se sempre desvairado de pavor...

--Então a quem morre...--perguntou alguém.

--Acabou-se-lhe o sonho.

--Quem sabe? O sonho consome-os. Ardem.

--Sempre sonhar. E vem a morte e leva-os!... Que vale tudo isto? Ah o
oiro, sim, o oiro filhos, o oiro respeitável Corsário, o oiro Gabiru!...

--O dinheiro!...--exclamou o Corsário e quedou-se a meditar.

--Pudesse eu ir à terra arrancar-lhe as entranhas de oiro até a fazer
gritar!--exclamou o Pita.--O oiro é a vida. Tivesse-o eu! Gargalharia
do alto duma montanha de oiro da humanidade e dos sonhos que ela cria.
Botam as árvores flor e as criaturas emoção... Tudo isso seria meu.
Poderia destruir, conquistar, mandar. Eu, Pita da Conceição, seria
talvez nomeado Imperador do Mundo. Ó filhos lembrai-vos!... O mal a
imperar, o mal a rir do alto de assombrosas montanhas de oiro da dor, do
heroísmo, da piedade! E o pequename a subir a montanha. Porque notem
bem: tinha o pequename todo, estava-se todo a criar para mim!...

E como o Pitágoras fosse a sair:

--Espera. Para onde é a ida, filósofo?

--Prego a revolução. Ando a pregá-la...

E curvou-se sobre o ouvido do Pita, que exclamou sobressaltado:

--Ao pequename! Rica ideia! E filosófica! Um grande elemento. Pois é
atiçar-lhe!...

E saíram ambos.

       *       *       *       *       *

Então o Gabiru ficou sozinho com os pobres. Eles não sabiam explicar a
vida: sentiam-na e sofriam. De pé explicou-lhes:

--Foi assim... Disseram-me um dia:--Eis aqui um tesouro, cava! E eu
pus-me a cavar. Dum lado e doutro acumulou-se a terra. As minhas mãos
eram negras, os meus vestidos cheiravam a terra e eu cavava. A mina era
profunda como um poço. O céu esquecera-o, as árvores esquecera-as. Um
dia topei pedras, que me pareciam luzir como oiro puro e embebido a
contemplá-las esqueci-me do tempo, da terra, do mundo... Súbito, cá
fora, ouvi rir. Trepei pela terra acima e achei-me com pedras negras nas
mãos, cheio de terra, feio e cego como os bichos que nunca viram o
sol... E tudo era belo! Tudo o que esquecera, tudo o que desprezara!...
Atónito, com as pedras inúteis na mão, olhei... E assim desperdiçara a
vida à procura dum tesouro que tinha ali à mão!...

Ninguém lhe respondeu. Só o Corsário, curvando-se-lhe sobre o ouvido:

--Eu sei o que tu tens, eu sei o que tu tens...

--Que é?

--É pena. A vida não se torna a viver. Perdeste-a. Esqueceste-te dela
a sonhar... A sonhar!... Trocaste, o sol, o ódio, trocaste a realidade
por nuvens.

E, ai! a vida não se torna a viver! A vida para ti foi como a água que
passa límpida pelas mãos duma dessas estátuas que tu vês nas fontes.
Nunca cessa, igual, fresca, cheia de cintilações, e nunca também
estanca a secura dessas figuras de pedra... Ai, não se torna a ter na
boca o sabor a sangue e a mocidade, nem agora as árvores são as mesmas
árvores e o riso o mesmo riso. Queria ter fome e ser moça... Perdeste-a!
perdeste-a!...

--E tu?

--Eu?.... Eu fui nova e todos dariam a vida por mim. Amaram-me, mas o
que eles queriam era o mármore do meu corpo e a minha boca moça e
viva. As rugas vieram, mirrou-se-me o colo, seco e inútil, e então
arredaram-me. E dentro do meu peito ardia ainda o mesmo amor. Como pode
meter-se uma nuvem dentro duma pedra ressequida? Desci à humilhação, a
procurar o amor que se paga. Isto! isto!... Só então entendi que os
homens nos aproveitam e usam para nos deitarem fora depois de
servidas... Olha para mim... Envelheci. Há muito tempo que moro com o
ódio. Diante do espelho, ao ver-me mirrada, tornei-me ainda mais seca.
Escarnecida, deitei-me a odiar... Oh fazer gritar os homens que nos
desfrutam, para depois se rirem... E sonhei... Eu sou inútil, o meu
ódio murchará comigo, sem poder florir. Inútil, velha, caída, quem
toma aí a sério o meu ódio?.... O que eu tenho sonhado!... O que eu
daria para ter uma filha!... Tivesse eu fome que o pão iria arrancá-lo
às mãos dos pobres; secos os meus peitos o leite iria roubá-lo. Ela
seria o meu ódio vivo. E bela, para que me vingasse. Era forçoso que
fosse criada como um lírio de sonho e que ao mesmo tempo tivesse uma
alma de pedra, pior que a minha, mais má que a minha. Dir-lhe-ia tudo,
ensinar-lhe-ia tudo, tudo o que sei, tudo o que do mundo aprendi.
Explicar-lhe-ia o egoísmo, a vaidade e que no fundo de cada ser só
existe secura e interesse. As mulheres se são honestas é por vaidade, e
quantas ao pé do túmulo choram uma virgindade inútil!... Ela seria
minha filha! A semente germinaria, caída num coração mais duro que as
pedras. Por dentro dum corpo lácteo, haveria uma velha mais ofendida,
mais rancorosa que eu, a pregar-lhe o ódio. Odiar-me-ia a mim própria,
sua mãe--e havia de sustentar-se de lágrimas e gritos!...

       *       *       *       *       *

Saiu. Só os desgraçados ficaram encostados uns aos outros--e a um canto
os pobres, gastos, com fisionomias de santos e olhos murchos de tantas
lágrimas choradas. Não sabiam queixar-se. Alguns puseram-se entontecidos
a narrar, numa voz amarga--a voz da desgraça. Erguiam os braços e de
cansados e sinistros, acredita-los-íeis foragidos do hospital e da
guerra.

Um disse:

--Eu gosto de ver sofrer! eu quero ver sofrer!... Como ele anda a
espreitar ilusões a ver se as calca! Onde nascem flores logo as
esmigalha, nada lhe sabe, nem o sol às levadas. Calca tudo e ri, tudo o
que nasce, mesmo a ponta verde da erva que rompe dentre as lajes.

Um velho gasto e de botas rotas queixa-se. Quer viver e exclama:

--Fui sempre como as toupeiras, como os bichos que, no fundo da terra,
minam e minam e cismam sempre na claridade e nunca chegam a ver o sol.

--Há desgraças e dores que fazem rir,--diz alguém.

Outro ri, ri sempre de aflições, de catástrofes. Procura dores para se
rir e doido ei-lo a rir e a clamar:

--Calcamos terra, hein, calcamos dor... A terra está farta de sofrer.
Ris-te, hein, ou sou eu que me rio?

--Queremos ter saúde e ter risos. Eu nunca me ri, eu nunca me pude
rir,--prega uma boca na escuridão.

O Gabiru sente-se agarrado pelo _homem do pacho_.

O olhar luz-lhe odiento e a sua voz, através do pacho, parece provir
dum túmulo.

--Leve-nos! mostre-nos o oiro, as árvores, os montes todos de oiro...

--É impossível...

--Oh não saber nunca o que é amar, viver como os outros que se podem
rir--e ser só, ser diferente!... Eu vi! eu vi!... O Pita mostrou-me e
depois, sabes? tive ódio. Ódio... Não eu não sou amigo do sol nem das
árvores. Tenho a minar-me a alma uma ferida como esta... Os risos com os
outros se riem, os seus risos--e eu sem boca para rir!... Esta ferida
come-me a vida--e triste vida de aflição a minha! Fui sempre doente.
Até em pequeno senti a piedade agasalhar-me. Porque é que Deus faz
nascer criaturas com vida e dá a outras um quinhão de negrura? Tenho
frio e fome de sol, de saúde, de forças, e vivo gelado, sempre gelado, e
sem poder olhar nada no mundo sem sentir rancor. Tenho inveja até da
terra onde nascem pedras e cardos, porque ela ao menos não sofre.
Dêem-me o quinhão de risos que me pertence!... Se eu te escancarasse a
minha alma, tu a verias transida, negra, mirrada... Ouvi dizer--é
certo?--que até as árvores noivam... Eu apenas sei que existe a inveja,
a dor e a enfermaria, onde o próprio sol requentado sabe a hospital. E
nunca ninguém quis saber de mim, nunca! Quem me dera beijar! ter boca
para beijar! Dize-me: há porventura pedras nojentas?

Arrancou o pacho e uma fisionomia de túmulo, onde os dentes surdiam
pela carne dilacerada, rompeu dentre os trapos que a cobriam.

--Olha! olha para mim!...

Saíram--e atrás de todos, não tendo dito palavra, caminharam os pobres,
curvos, descalços, resignados. Havia-os gastos pela dor; havia-os
tirando o pão da boca, para o repartirem; havia-os com uma vida de
lágrimas. Saíram uns atrás dos outros, sem queixas nem gritos.

       *       *       *       *       *

Afinal todos se tinham ido; só na escuridão ficara uma velha prostituta.
Era quase uma coisa--a podridão. Não sabia falar, nem sabia queixar-se.
Tinha aparecido para dizer o quê? Que acusação tremenda contra a vida?

Chegou-se a ela o Gabiru e pôs-se a olhá-la. Depois perguntou-lhe:

--Tu que tens? tu que queres? Vai-te!...

Ela não respondeu, e ele esquecido ficou muito tempo a cismar. O que
era a Vida afinal?... Pouco e pouco um clarão se fazia na sua alma... O
Gabiru absorto sonhou, até que a seu lado uma voz rouca lhe disse:

--Mas então para quê? para que criam a gente. Eu tenho amargado a vida e
nem posso gritar... E tu?

--Eu também... Mas olha: eu gosto de sofrer... Escuta: sofrer é afinal
reanimar uma labareda, um fogo que se extingue... Possuir um sonho e
vê-lo calcado!...

--Eu cá fui sempre assim, andei sempre assim... Quem se importa? Não me
lembro de ter sido feliz... Não me lembro... Sempre se riram de mim e
toda a vida me bateram.

--Tu sim, pobre de ti... E amaste?

--Lembro-me... muito longe... amei. Mas o que eles se riram! Depois de
servida batiam-me. Eu fui sempre menos que nada. Quem se importa duma
_desinfeliz_? Inda se a gente encontra o pão de cada dia... Agora sempre
anda um frio!...

--Tu, sim... Pobre, pobre de ti! Eu fui feliz, fui sempre feliz afinal.
E batiam-te?

--Punham-me o corpo negro... Mas era para se rirem, não fazia mal... E a
ti?

--Puseram-me a alma negra.

--E tu?

--Eu sofria.

--Pois se a gente tem pão e uma enxerga ainda ao menos é feliz.

Encostados um ao outro, para se aquecerem, cismavam enregelados, quase
cobertos pelos mesmos trapos. Noite escura, mas no sítio onde eles
encolhidos sonhavam, pareciam arder faúlhas, restos dum lar a apagar-se.

--Ouve, não chores... Tens frio?

--Estou gelada de frio.

--Olha: sofrer não importa, sofrer na vida que importa? Tu imaginas
que o que se sofre se perde? As lágrimas e as dores vão criar, para
depois, alguma coisa de extraordinário. Do que se espezinha vem sempre a
nascer. E se tu amaste e se riram de ti alguma coisa brotou, que se não
extingue e germina com as tuas lágrimas e os teus gritos. Amaste?

--Amei. Muito longe... Mas tudo perdi! tudo perdi!... Não fales! oh não
fales! não me lembres!...

--Se tu amaste e sofreste nada é perdido. As tuas mãos estão geladas,
mas as minhas ardem.

--Eu já não sinto o frio... Só me sinto de rastros, pequenina e
perdida... Oh doe-me e tenho pena de mim. Tu para que falas? De que
serve a gente lembrar-se? Para chorar? É melhor dormir, dormir sempre...

--Sofre. Nada é perdido. Olha: vai-se criando com as nossas aflições
e os nossos gritos, uma outra terra!...

--Aonde?

--Uma terra toda alma, cria-se, para depois, quando à última dor, aos
últimos gritos, se esbrasear...

--Conta! conta-me!

--Escuta: quando se traz um sonho... Sabes um sonho?

--Um sonho?!

--Um sonho é como se tivéssemos na alma um mundo maior que este. Todo em
fogo... Quando se traz um sonho e se sofre mais ele cresce. Tanto mais
puída é a matéria, mais ele arde!... Isto não se perde... Constrói-se
das nossas lágrimas... É um palácio. As pedras de que é feito são os
gritos... Sabes?

--Assim quando eu amei e se riram, maior se tornou o meu amor...
Consumiu-me.

--Assim...

--Um sonho!...

--Tudo se ilumina dentro em nós. E a cada humilhação ele se torna
maior. Depois que sofri, é que comecei a ver o que nunca tinha
pressentido. Tudo. Sabes as árvores, as nuvens, as estrelas? Vejo-as
agora transformadas, de fogo. Arde... Nunca é noite. E tanto mais
sofro, mais se ateia o meu sonho.

Ambos se perdiam, unidos, gelados, na escuridão. Por fim só a voz dele
corria: ela escutava-o sufocada, unida contra a terra.




XVIII

HISTÓRIA DO GEBO


Para nada me importa a história banal que esse homem gasto conta,
abalado pela dor, a suar de aflição... Morta a mulher, o lar ficou
gelado. Por onde a Morte passa deixa muito tempo um frio de túmulo que
transe os corações. A filha caíra a um canto sem palavra, e o Gebo
pôs-se a engordar e a chorar. Se tudo acabasse!... Mas não, era preciso
tornar à mesma vida de desespero, pisar sempre o mesmo chão, atrás de
esmolas para a sustentar. Nos dias, agora amiudados, de fome, já ninguém
o esperava numa ânsia como outrora:

--E então? então? Arranjaste?....

Sofia, essa pobre rapariga que da vida só conhecia aflições, não tinha
para o Gebo nem más palavras, nem queixas. Amava-o. Aquele velho todo
branco, gordo e chorão, era o seu pai. Escondia as lágrimas para não o
afligir.

--Não se consuma! não se consuma!

--Que há-de ser de ti se eu te falto, filha?

--Sempre havemos de viver. Há gente mais pobre.

--Acho que não! acho que não!...

Depois da morte da mãe, ela o cuidava como quem cuida um filho. E o
Gebo de olhos postos em Sofia, embevecido, só sabia dizer, numa voz
molhada de lágrimas:

--A minha filha! a minha pobre filha!...

Fazia falta a mulher, que o atirava para a vida, e muitos dias, sem um
exaspero, sem um grito, embrulhado nos farrapos, quieto na enxerga, ele
era como uma bola de gordura, donde corria um ruído de choro resignado
e triste. Se saía chegava-se a todos, pedindo pão, com os cabelos em
pé e um ar desorientado, de doido, que fazia rir. Perdera a timidez.
Arrastava-se pelos amigos, que o achavam pitoresco, sempre a carpir
desgraças, aflito, cambado, exausto, e cada vez mais pedinchão e mais
gordo. Divertiam-se. Tinham-lhe posto essa alcunha--o _Gebo_, e
perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:

--Hein, diz lá, ó Gebo, então tu não tens uma filha?

E ele logo com um riso no olhar:

--Tenho, sim, uma filha, a minha filha...

--E que tal, hein, boas pernas, diz, boas pernas?

Humilde, coçado, à espera da esmola, sem forças para protestar,
respondia com um sorriso e lágrimas à mistura:

--Boas pernas... boas pernas...

Vida negra, de cão, a que nem sequer resistir podia. Lá ia levado,
enlameado e de rastros, a chorar. Ilusões? já as não tinha, se ilusões
não servem senão para se sofrer. Quando viva, a mulher, era quem ainda
arcava com a desgraça. Esbracejava. E juntos aquecia-os no mesmo lar,
com pedaços de sonho, como quem, depois de repartir os últimos farrapos,
agasalha com a própria alma. Um sonho cai por terra? Estreia-se outro
sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ela, seca e nervosa,
pregava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os, e, juntos,
todos três iludidos ficavam naquela negrura e desespero, todos três a
cismar.

Mas agora nem isso... Enregelados não apelavam para a ilusão. Ele
chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambos sem palavras que
dissessem. Oh seria tão bom morrer, descansar, dormir por uma vez sem
mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridículo, aquele homem pícaro,
apegava-se como um desesperado à vida. Ainda por cima o Gebo era
cobarde: tinha um grande medo à morte.

Assim comiam o pão negro, ajuntando-lhe as lágrimas que choravam. Sob
este solo que calcamos atrás, das nossas ambições, anda um humilde rio
de lágrimas, um rio subterrâneo de dor, de gritos, que se alastra e
corre sem ruído...

Já não saía a pedir todas as madrugadas. Agora cansava, mal podia
andar; embrulhado e tiritando de frio, não se erguia da enxerga. Quereis
crer que estava mais gordo e mais pícaro?

E como ele dormia! com fome, aflito, tombava num sono de sepulcro,
espapaçado, os cabelos todos brancos e a fisionomia cansada e
amargurada. Nunca se queixava; apenas repetia a miúdo:

--Tenho pena de ter sido honrado...

Porque é que a desgraça se não cansava de o perseguir? Este aguilhão
cravado no peito não lhe deixava um minuto de descanso: a sorte da
filha. Nada lhe custava mais do que deixá-la no mundo ao desamparo.

--Tenho pena de ter sido honrado.

Para que serve ser bom? Os maus que conhecera, estavam ricos e
escarneciam-no, os bons espezinhados. Criaturas a quem o Gebo salvara
acolhiam-no com risos e só fizera ingratos.

O Gebo não entendia a vida.

--Ó Gebo! ó Gebo!--gritavam-lhe.

E ele meio tonto:

--Anh? anh?.... Se eu não tivesse sido honrado...

Ela era uma criaturinha triste, resignada e pálida. Falava pouco.
Cismava. Da vida tudo ignorava, a não ser a história dos seus: o lar
apagado, a aflição da mãe, o choro do pai ao voltar para casa sem pão.
A velha dizia às vezes más palavras ao Gebo, quando lhe perguntava
ansiosa:

--Arranjaste?

E ele a bufar, exclamava sucumbido:

--Valha-me Deus, mulher!

Nesses dias aziagos ela dizia impropérios à vida e ao Gebo, que nem
sequer tinha forças para as sustentar a ambas.

--Olha os outros! olha os outros!

E ele atrapalhado:

--Mas que hei-de eu fazer, mulher?

--Vai roubá-lo! vai roubá-lo!...

Aquilo terminava por lágrimas e por o velho perguntar, perdido de fome,
todo o dia na negra faina:

--E agora como há-de ser?

A mãe tinha escondidos alguns vinténs tirados à boca e em torno do pão,
esquecidos, lá se deitavam a falar da sua miséria. Ela dizia que não
havia honra nem Deus--tudo no mundo era questão de dinheiro--oiro! Mas
quantas vezes a velha repartia com os pobres o pão que lhes fazia
falta!... O que a tornava amarga era a luta exasperada com a má sorte.

De forma que Sofia nada sabia da vida, e assim fora crescendo sem
queixas, resignada e pura. A Deus rezava todas as noites pela vida do
velho, pela saúde daquele ser ofegante e grotesco, que passava horas
e horas a chorar.

--...O pão nosso de cada dia nos dai hoje...

--Filha que há-de ser de ti!

Engordara, não se podia mexer. Faltavam-lhe de todo as forças. Estendia
a mão na rua como os mendigos. Um dia foi preso, e expulsavam-no das
lojas. A ideia da filha abandonada e com fome, alucinava-o:

--Eu já não posso mais! eu já não posso mais!...

       *       *       *       *       *

Os dias passaram-se desesperados, idênticos, ferozes. Todos os dias se
pareciam, como a desgraça se assemelha à desgraça. Até que caiu por
terra e durante a noite inteira correu na mansarda aquele ruído de
lágrimas baixinho e monótono; toda a noite infinita o Gebo chorou
prostrado. Quis tentar, quis ainda erguer-se, mas a desgraça havia-o
enfim aniquilado: engordara-o, exaurira-o e pregara-o para sempre a
chorar num colchão de trapos.

Então Sofia, que um dia e uma noite o viu chorar sem tréguas, de olhos
postos nela; que outro dia e outra noite, sem gritos nem frases, o
viu todo branco e com fome, de olhos aguados, no mesmo choro
de aflição--alheada, mais alta, desceu as escadas e entrou em casa das
prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com pão para
o Gebo, que só lacrimejava prostrado, gordo e ridículo, como uma bola de
sebo--e de cabelos brancos estacados.

Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos, é a voz dos
desgraçados, dos pobres, dos que não têm pão, nem felicidade, nem arrimo
na terra!...




XIX

O GABIRU TRESLÊ


Noite de luar. A Árvore mergulha os braços num oceano de luar
translúcido, biliões de átomos luminosos errando. É um colosso de
verdura e de bondade, uma construção cheia de frescura e rumores.
Cruzam-se as pernadas sólidas, torcidas, esgalhadas, donde partem
ramos, folhas que se agitam e vivem uma vida misteriosa e grande. E o
luar é tanto que faz aflição. Sente-se a satisfação giganteia da
Árvore, por mergulhar as raízes no seio da terra e por ser forte,
simples e bondosa. Por pouco ouvi-la-íeis falar... Escutai-a na noite
calada, branca e cheia de tanto luar que faz aflição. Por entre os
raminhos tremuleiam fios de luar esquecidos, coados por entre as folhas
sobrepostas. No chão a sombra faz mancha e os fios de luar dão-lhe vida.
Diríeis que ali anda fôlego vivo. Fora da Sombra é tanto o luar que só
se vê uma brancura.

O Gabiru cisma. Os olhos abertos, todo ele dolorido, deita-se ainda a
cismar. Vivera sempre tão transido e pobre, tão sozinho--que lhe não
fugisse o seu sonho--e nada lhe ficara entre as mãos. Só escárnio! só
escárnio!...

       *       *       *       *       *

Bate o luar em cheio naquela figura exótica e transforma-a. Não é
ridículo. Corre-lhe o luar nos olhos, nas mãos estendidas, e cheio de
luar sorri extasiado...

       *       *       *       *       *

Hein, que queres tu? Nasce uma criatura para a desgraça. Em pequena anda
rota, quase nuazinha, e o pão da vida dão-lho os ladrões e soldados.
Maltratam-na, irmã da terra, rasa como a terra. Nada sabe do sonho--e
que culpa tem ela de não sonhar? Violam-na, tornam-na igual das
pedras, seca como as pedras, mesquinha, e arrancam-lhe todas as
aspirações, cospem-lhe em todos os sonhos. Só sofre. Vêm uns, vêm
outros para a fazerem gritar, e ela um dia põe-se a rir e ri-se até da
desgraça.

       *       *       *       *       *

Julgaríeis que na sombra, sob a árvore, o luar constrói e tece, à medida
que o Gabiru vai tecendo. É não sei o quê de incerto que mexe--fio de
luar ou vento que passa e vai transir a sombra misteriosa. O Gabiru olha
extasiado.

       *       *       *       *       *

Da terra dilacerada surgem formas de prodígio. Quanto mais revolvida a
matéria, mais bela é a eclosão do sonho. Da vida da Mouca que começou a
sofrer em pequenina, logo a principio se criou algo de radioso. Ela
ri, a Mouca, escarnecida e calcada, sem ter tido quem a ampare senão
prostitutas e ladrões. Nasceu para gritar--e ri. Mas nada se perde na
vida. Ela que tudo ignora, rolada como as pedras no enxurro, conhecerá
o extraordinário sonho. Daquela matéria espezinhada vai nascendo uma
maravilhosa forma de luar.

       *       *       *       *       *

O filósofo sorri extasiado para a Sombra. Ei-la! Uma fisionomia
pálida, onde os olhos cegos se perdem, ténue, construída de luar ou
construída de sonho. Diríeis que essa figura esguia, sustentada a luar,
de negros cabelos de sombra, desaparece no escuro, torna a surgir nos
fios de luar...

       *       *       *       *       *

--Fui eu que te criei, és minha!--diz ele absorto, erguendo-se.
Caminhas para mim alheada, não me querendo olhar e não me podendo fugir,
pálida e tremendo. Vens sob o tecido do luar. Oh que palavras te hei-de
dizer, ajoelhado, que singulares monólogos feitos de nada e enormes,
arrancados à via láctea, com palavras que nunca aprendi, nem soube
dizer, mas que me brotam da alma como nascentes! Quem me dera ser a
noite, a árvore, o luar, que me enche de aflição! Juro-o, as árvores
falam com o luar, as montanhas namoram-se ao luar. Brilham perdidas
tantas estrelas pelo céu, meu amor!... Os sapos, confundidos diante da
giganteia natura, cantam nesses pios que, ao longe, na solidão, magoam
como ais de alguém a quem aconteceu desgraça...

Olha: eu sento-me distante de ti, para que não fujas desfeita em luar.
Gostava tanto de sentir a tua mão pousada na minha cabeça, tanto!
Olha!...

       *       *       *       *       *

Sob a Árvore--realidade ou ilusão?--uma figura se constrói de luar, na
sombra opaca uma tremulina toma forma. Juntam-se os fios de luar,
amontoam-se névoas e alguma coisa treme, prestes a fugir--mas viva!
viva!... Diríeis que é só um sorriso, um olhar muito triste... O Gabiru
corre e tudo se esvai... Só a Sombra resta e um ruído de gotas de luar
tombando sobre folhas.

Ele sorri e diz:

--Eis como se cria uma alma!

       *       *       *       *       *

Todas as noites, muito tarde, volta para ao pé da Árvore.

--Uma é terra, outra é luar,--murmura. Quanto mais a Mouca sofre, mais
esta se cria. Oh, não me fujas! Vens com a noite, melancólica e pálida
como as mortas arrancadas ao sepulcro. Criei-te de lágrimas. Os teus
cabelos esparsos perdem-se na sombra. Nunca vi na escuridão os teus
olhos, mas sinto a irradiação da tua alma!...

O Gabiru, na noite branca e calada, sente-a aproximar-se e olhá-lo
muito tempo.

--Minha alma!

Nem um murmúrio. Noite a noite era mais o luar. Absorvia tudo. A sua
claridade misteriosa diluía a terra e as coisas. A Árvore, esmaecida,
toda se desfazia em pó claro. E noite a noite também a Sombra opaca se
tornava mais espessa e funda. A certas horas o silêncio estremecia, num
ai baixinho e triste. Era a criação! A alma da Sombra acordava. Ei-la!
ei-la!...

--Minha vida!

Via-a perfeitamente. O oval do rosto pálido, os negros cabelos
compridos, inteiramente feita de sonho e de lágrimas. Só os olhos se
perdiam em duas sombras, cega talvez de tanto ter chorado--por a outra
rir.

--Não fujas!

Correu um dia para a Sombra. Lua cheia, lua alta. O mundo, todo embebido
em luar, era como um grande sonho de beleza. Logo a imagem se esvaiu e
na sombra funda, na sombra opaca, restavam apenas manchas vagas e
dispersas, luar desfeito... Apalpou a terra. Havia um ruído ainda--pelo
chão corria um fio de água ou um fio de choro...

--Meu amor! meu amor!




XX

A MOUCA


Noite de chuva, desta chuva miúda que enlameia e entristece como uma
angustia. Na rua Sofia passa com o xaile de rastro. Há um clarão de
tochas à porta. Vai sair um enterro. Morreu o pequeno do gato-pingado.
Trouxe-a para casa uma noite, a essa criança que encontrou caída na
rua. Um rapaz de dez anos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe
quer o gato-pingado fazer, não me dirão?...

       *       *       *       *       *

Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixão dum garoto, que não
lhe é nada. Ele que não tem onde cair morto, chora o pão que tiraria à
própria boca para o dar a outro.

       *       *       *       *       *

Morreu-lhe ontem. É decerto um gato-pingado a menos.

Primeiros farrapos da noite a esvoaçar, d'essa noite de Primavera negra,
em que todos se põem a contar baixinho os seus sonhos à escuridão.

--Deitam flor à noite...--diz o Sábio.

A treva entope os buracos das ruelas. As tochas tem debaixo da chuva
sinistros clarões de incêndio. Vai uma balbúrdia na rua e o redemoinho da
noite traga o bairro acastelado. Eis o enterro. Vão mulheres perdidas e
a Rata, a tossir, vai o Astrónomo, e na frente dum caixão de passarito,
comboiando a turba, lá marcha o gato-pingado, de brandão em punho,
chapéu alto e casaca a esvoaçar... A que irão eles deitar fogo na noite
trágica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ralé, o velho tísico... Na
volta vêm decerto a cair de bêbados.

       *       *       *       *       *

Todos os dias desaparece alguma das mulheres levada para o Hospital.
Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que lhe resta?
O Gebo a sustentar.

Todas as manhãs sobe à mansarda onde o velho dorme, levando-lhe pão, que
ele mastiga com um nó na garganta. Olha-a com lágrimas e só diz:

--Filha!

A existência é como um circo. Não há piedade.

       *       *       *       *       *

Dizem-me: a que recanto espantoso vai a natureza buscar esta ígnea
bondade? A que esconderijo, a que veio oculto? De que força é que se
constrói, de que química é que se forma a bondade profunda, inabalável,
inextinguível, que sustenta e ampara os pobres?...

As prostitutas que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora _menina_,
depois que a vêem sua igual. Repartem com ela o pão que ganham, e ao
vê-la tombada, chorando, ficam aflitas, pois não sabem consolá-la.

--Mais lhe valia deitar-se a afogar,--diz uma.

--Isto aqui é uma vida de cão.

--Olhai que ter fome!... Sempre a fome é negra,--conclui outra.

       *       *       *       *       *

Só a Mouca a odeia. Ela que foi sempre a mais maltratada, maltrata
agora. Se pudesse, pisá-la-ia aos pés. Ela, de quem todos se riram com
escárnio, cuspida pelos soldados, queria enfim fazer sofrer. Não havia
ser mais degradado, não porque fosse má, mas porque era como todas as
criaturas filhas da terra, que o homem cria para o gozo.

A principio todas faziam sofrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar, de
a verem chorar lágrimas de aflição, para a igualarem.

--Cá temos a _menina_!

--Quem no diria? Não falava a ninguém a mosquinha morta! É para
aprender!

--Deixai-a!

--Deixai-a o quê? Ela é como as outras.

--Deixai a pobre, que não faz senão chorar. Vocês não têm coração.

--Também a gente sofre.

       *       *       *       *       *

Riam-se, empurravam-na para os piores tratos, mas pouco e pouco, diante
daquela dor silenciosa e profunda, calaram-se e puseram-se a amá-la.
Tratavam-na por _menina_. Uma queria penteá-la, outra ajudá-la. Só a
Mouca lhe tinha o mesmo ódio.

--Olha lá, ó parida!

--É comigo que fala?

--Faz-te tola! Acaba lá com esses ares de senhora. Já estou farta. Tu
aqui és tanto como eu, sabes?

--Sei--diz Sofia.

--Tu conheces-me? Olha se me conheces, senão ensino-te quem sou.
Acabou-se! embirro com isso. Pareces uma sonsinha... Tu falas?

Sofia olha-a silenciosa.

--Ah, tu não falas? Olhas para mim com cara de escárnio? Não quero que
olhes para mim, não quero, ouviste? Ai, não falas? Toma!

E deu-lhe uma bofetada.

--E agora? agora? Quiseste, aí tens. Toma. Tu aqui és uma desgraçada
como eu. Aqui não há meninas. E agora? agora? pensas que és mais do que
as outras?

--Sou mais desgraçada.

E pôs-se a soluçar.

Mas de súbito a Mouca clamou:

--Perdão! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba: não a podia ver
por inveja. Fui sempre assim. Não me fique com raiva. Eu dizia cá
comigo: Então os outros tem mãe e eu nunca a tive? Os outros são
infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Sou filha da
terra. Criaram-me os ladrões, já deve ter ouvido. Tenho sido muito má
para a menina, peço-lhe que me perdoe. Era por inveja. Peço-lhe que se
ria para mim, para me mostrar que não está zangada comigo. É boa! eu
dizia cá por dentro: Hei-de pô-la tão rasa como eu. Que é ela mais do
que eu? Sabe porque lhe tinha esta _osga_? Por ver que a menina era
infeliz e boa para todos. Eu sou assim, sou como um cão. Peço-lhe uma
coisa... Bata-me para eu acreditar que é minha amiga.




XXI

AÍ TÉM OS SENHORES A NATUREZA!


Nessa madrugada o Pita arrastou o Gabiru por um esgoto que do prédio
ia desaguar ao outro lado do Hospital e de que só ele sabia a
existência. As paredes arrombara-as donde a onde a raiz torcida da
Árvore.

--Anda! anda! Estas raízes são mais duras que a pedra. Nada lhes
resiste, nem o granito. A Árvore há-de acabar por nos tragar a todos.

Tinha chovido na véspera e era ainda noite quando saíram do esgoto.
Abala-os logo uma lufada de ar vivo, deste ar que é como a água da
rocha, que apetece sempre beber e que traz consigo existências
de árvores, cheiinho de emoção. Param. Uma brancura, nebulosa na cova
onde se criam mundos, ainda erra esparsa. No céu brilham estrelas e
sente-se sobre as terras lavradias o nevoeiro espesso, que das árvores
tomba em gotas grossas como chuva de verão. Os troncos além são
espectros e outros, mais longe, de todo desaparecem. Ao norte luz uma
estrela enorme. Sobre o monte abre-se um rasgão de claridade... Eis o
sol fraco, escorrendo por entre troncos, misturado de branco e sem
calor, tal qual luar. Nos regos do arado correm rolos de névoa e a
verdura da erva, na manhãzinha, é imaterial, como se fosse a
respiração da terra. As aves, nas moutas, começam o seu dia cantando.

--Que sentes?--pergunta o Pita ao Gabiru.

--Espera! espera!--diz o outro entontecido.

--Ouço gritos e só vejo uma brancura e gestos... Mas o que eu ouço! que
sem número de vozes, de palavras precipitadas!

--Vês árvores?

--Só vejo um clarão. É como um relâmpago, ofusca-me! Mas o que eu ouço!
quantos gritos, que amalgama de gritos! Sei agora que existem árvores
porque ouço o seu ruído e a sua voz...

--Procedamos com método. Eis aí a terra, aí a tens a teus pés. Aí
tens um charco.

Tudo já estava cheio de sol.

--Isto negro e isto de oiro? pergunta o Gabiru.

--Sim. Revolve isso negro, inerte e no entanto vivo. Afunda as mãos. Aí
nas tuas mãos, nesse pedaço de lama, tens tudo, partículas de árvores e
de sonho, realidade e emoção...

--Isto é então...

--Um turbilhão,--afiança gravemente o Pita.

--Isto é vida?

--É vida. Esse pedaço de terra é húmus. Incha com a Primavera, fala.
Está morna e escuta, põe-na ao ouvido... Ouves?

--Ruído, vozes, gritos de embriões, um burburinho...

--Ora repara. É sempre a mesma coisa. Maquinações filosóficas... Isto
é um mundo e isto--e aponta um charco--é um mundo. Nesse charco
adiante, aí, vês?...

--É oiro.

--Não, é água onde o sol se espelha, apenas água...

O Gabiru curvado mergulha as mãos afiladas e negras na poça. Tira-as
depois para fora fascinado. As gotas daquela água turva caem qual
oiro liquido, trespassadas pelo sol, num chuveiro de faíscas.

--Eis estrelas! exclama comovido.

--Perdão, é apenas como te disse, um charco, um desprezível charco.
Habitua-te primeiro a ver.

--Quero ver mais!

--Habitua-te primeiro a ver...

O sol que tomba a flux corre, afoga, doira, penetra os seres e as
coisas. No dia húmido ouve-se o ressurgir da vida: a lama mexe-se, os
troncos engrossam, a água nasce inchada, nessa manhã de Primavera, em
que tudo se transforma sob a esteira do sol. Tinha chovido na véspera e
até nas mais pequenas coisas, na pegada dos bois onde a chuva
encharcara, irrompe uma vida exuberante, apressada, de seres que em
minutos de existência têm uma prodigiosa tarefa a cumprir: amar, criar,
morrer...

--Eis uma árvore--aponta o Pita.

--Como ela gesticula para nós!

--Pois aí tens uma árvore.

--Que coisa enorme e bela que é uma árvore! É diferente da outra... E
é uma árvore? Uma árvore dá água, ouço a água a cair.

--E o ruído das suas folhas.

--Uma árvore é viva. Fala? É o ser mais belo que eu conheço. É verde,
mexe-se...

--E ali, longe, um monte.

--Aquilo pequeno? Um torrão como este que os meus pés desfazem. Só é
violeta. Maior é uma árvore! maior!... E esta poeira luminosa que nos
envolve, que é? Alma?

--Maquinações filosóficas... Caminha agora, vê... Eu vou-me deitar à
sombra... Podes ver...

O Pita tirou as botas e estendeu-se ao pé dum sobro. Da algibeira
sacou o caderno de notas e pôs-se a escrever: _Deve_ à D. Antónia, três
meses em atraso--30:500 rs.; _a Haver_ das explicações da natureza aos
domicílios--25$000... Diferença...

O Gabiru vai andando ao acaso. Pica-se nos espinhos, esmaga entre as
mãos flores e rebentos, magoa-se nas pedras. Encontra sebes orvalhadas,
árvores brancas todas flor, abrunheiros em flor, e uma hora fica
absorvido defronte dum velho muro, encostado ao qual uma macieira
treme, carregadinha de flor. Há galhos que lhe parecem emoção. Os pés
calcam ervas espezinhadas, que também deitam cá fora o seu sonho;
esquece-se ao pé das fontes vendo-as jorrar e põe-se a respirar fundo,
querendo embeber-se daquele ar carregado de vida.

De repente cai um destes chuveiros de Primavera, precipitados e
rápidos. A chuva que tomba é morna. As plantas bebem-na, as flores
abrem-se tontas e escondem gotas nas corolas; veêm-se crescer as
pequeninas folhas verdes como se inchassem e os gomos tingidos de
resina estalam, abrem, com um ruído sufocado--ah!... Tudo fica baço a
principio, a terra molhada é dum negro gordo; um frémito corre nas
folhas tenras... Depois, como um véu que se rompe, o sol começa de novo
a correr. As fontes deitam oiro, as plantas têm fios de oiro e no chão há
toalhas e caminhos de oiro e sombras.

--Senhor Pita, eu quero ser isto...

--Isto quê? resmunga o outro concentrado.

--Quero ser isto!...

Mas o Pita, enfronhado nos cálculos resmoneia:

--Maquinações filosóficas. Deixa-me... Eis a diferença--22$000
réis... Eis!...

O Gabiru caminha. Depois cai entre a erva tenra e nascida e deita-se a
ver os rabiscos do sol e um galho tão em flor, que parece uma teia de
luar esquecido. Primeiro o tronco incha: há como ponto negro que
estoura, para ser botão e depois flor... Medita. Está um dia morno e
húmido. Saíram das tocas os bichos internados todo o Inverno. Vespas
passeiam a sua roupa de oiro no mármore das flores e toda a terra remexe.
Acreditá-la-íeis viva.

Em que se põe a pensar? O seu ouvido de enclausurado, afeito ao
silêncio, ouve até ao fundo da terra o rumor dos bichos, tanto tempo
empedernidos, que esfuracam para o sol; das sementes que rebentam e
sobem para a luz, o _glu glu_ das raízes gordas e felizes ao mergulharem
no húmus.

É um barulho de maré longínqua que cresce, galga, aumenta, transborda...
Espavorido deita a correr... Por toda a parte as sebes, as ervas
escondidas, os tojos bravios, para quem ninguém repara, crescem. Há-os
nas pedras; há-os no ventre ressequido dos calhaus.

Anda, anda, e dá com águas grossas, felizes, apressadas; com
quintalórios onde a verdura cresce aos borbotões; pinheiros, depois
silvas, bravios--e até nos sítios mais estéreis encontra a mesma vida e
o mesmo amor.

Que força é esta que faz mexer a terra e a abala?

É uma torrente, um rio subterrâneo branco e verde, que vem à supuração?
Um riacho de tintas, brotando á superfície do solo em labaredas verdes,
todas roxas, inteiramente brancas? Há verdura tão ténue que di-la-íeis
uma névoa verde; folhinhas que parecem feitas dum hálito que se pegou
aos troncos.

A sombra das árvores enche-o de refrigério, envolve-o na atmosfera de
simpatia e frescura que elas exalam.

Por fim o Pita vai encontrá-lo tolhido, de olhos extasiados entre flores
esmagadas, Nas mãos flores, aos seus pés flores esmigalhadas.




XXII

FILOSOFIA DO GABIRU


Oh descubro agora a torrente esplêndida que é a vida! É a emoção. Ela é
o veio límpido onde todas as sedes se estancam. Liga os homens,
prende-os--e o egoísmo afasta-os.

Todos os rios, como todas as vidas, vão desaguar ao grande atlântico de
beleza. As criaturas humildes e simples tem uma existência como um fio
corrente--água ou lágrimas, mas sempre claro. A cólera, a ambição, os
interesses turvam a vida, como a terra revolvida turva a água.

       *       *       *       *       *

Amar os outros, sofrer pelos outros, viver para os outros, é tornar a
existência simples, monótona e grande; é fazê-la parecida com as mantas
grossas, duma única cor neutra, que agasalham os pobres.

       *       *       *       *       *

O homem que tem emoção e que ama é sempre feliz: as coisas conhecem-no,
as árvores são suas amigas. Sente-se enternecido diante do mais
ressequido calhau.

O que odeia, o ambicioso e o mau, passaram pela natureza como o homem na
guerra: não viram nem ouviram. As coisas emudecem para eles. Nada lhe
dizem, porque não sabem ouvir. Tu, que enternecido paraste diante dum
sítio recolhido e simples, diante das desgraças alheias, tu, pobre, que
tombaste na cova desprezado, roto, e a quem a terra recebe como a um
amigo, tu que adormeceste no derradeiro sono quase consoladoramente,
como morre tudo o que é simples, tu viveste... Comunicaste pela piedade
e pela emoção, com a natureza inteira e o teu amor repartiste o pelos
mundos que rolam no infinito, por Deus, pelo homem, pela pedra. Tu
soubeste e pressentiste tudo.

       *       *       *       *       *

O que é grande é sempre simples.

       *       *       *       *       *

Desperta em ti a emoção para que possas dizer:--Vivi!

       *       *       *       *       *

Todo o homem que nasce deve ter um quinhão de terra--seu sustento e sua
cova. O pão de cada dia deve granjeá-lo com o suor do seu rosto.

       *       *       *       *       *

É singular a inconsciência com que o homem trata as coisas mais
profundas da vida--e a gravidade com que discute as que são apenas
aparências vãs.

       *       *       *       *       *

A desgraça é sempre boa--porque aproxima o homem dos desgraçados.

Tudo na vida se simplifica sendo a gente simples. É como a folha que se
deixa vogar na mansidão de um rio até que o oceano a traga.

       *       *       *       *       *

Nada na existência nos prende como os grandes espectáculos da natureza:
o monte, a árvore, o fio de lágrimas que as fragas choram, o homem de
coração e vida simples, pacífica e grande.

Para se ser feliz na vida é preciso ser-se pobre. Sentir-se que o pão
que se come não é tirado a nenhuma boca, nem o lume que nos aquece
roubado a alguma velhice friorenta.

Ser pobre, lavrar uma terra que nos dá o pão saboroso e negro e o tronco
para o nosso lume!...

       *       *       *       *       *

Quando se ama, a emoção sai de nós como duma fonte e a gente prende-se
aos outros. Não se sente sozinha: faz parte da Vida, duma torrente
de amor misteriosa e esplêndida. O amor torna-nos irmãos.

       *       *       *       *       *

O homem não faz senão complicar a vida, que em si é afinal bem simples.

       *       *       *       *       *

As coisas desprezadas são as melhores da vida: a paz, as horas
esquecidas, a água desnevada que se bebe, os minutos de silêncio em que
se sente Deus connosco.

De que serve acumular ódios, ambições, riquezas? Não é isto demais para
uma vida terrena?

       *       *       *       *       *

Não saber nada senão amar--repartir emoção com os outros!

       *       *       *       *       *

De rastros! de rastros! Ódio, ambição, gritos, tudo isso é nada! Toda a
existência perdida a sonhar, a viver sozinho, absorto em coisas nulas,
quando a vida é tão grande e tão simples e se reduz--a amar! Pelo amor
conhece-se tudo, até o que os sábios ignoram. Olha para um mistério com
amor, e ele desvenda-se logo; olha para um calhau com amor, que até
nele encontras mil coisas imprevistas; chega-te ao homem, teu irmão,
até ao mais degradado, com amor, que nele depararás com Deus. Deus
vive ao pé de ti, contigo, tocá-lo a toda a hora. Que precisas para o
sentir? Amor.

Vive uma vida simples, a vida de que os pobres se aproximam, com emoção
e o teu pedaço de pão negro, olhando o prodigioso mistério, e serás
feliz.

Lavra o teu campo, e, nas horas perdidas, olha, prende-te à abobada do
céu, ao homem, à montanha, à árvore, ao mar--e ouvirás Deus em ti,
sentindo atravessar-te uma frescura mais viva do que a água das rochas.

Deus está muito perto de ti--e é por isso mesmo que o não vês. A palmos
da secura passa muitas vezes um veio de água escondido. Basta cavar na
crosta da terra, para que o chão gretado e pedregoso se transforme. Que
torrente de emoção não vai atravessando os mundos, os homens, as folhas
secas e os globos de oiro do céu!

O homem enredou se de tal forma na ambição, no ódio, na guerra, que
perdeu o sentido da vida--tão simples e tão larga--e que deixou de ver
Deus, sempre presente ao seu lado.

Para o encontrar, precisa de voltar ao amor das coisas simples e
grandes--ao amor dos seus irmãos, da natureza, e de abrir o seu coração
a esse fluido misterioso.

A vida artificial é que transformou o homem. Da vida artificial é que
nasceu o orgulho, e que nasceram a ambição, os erros, o crime--e até a
piedade. Se todos vivêssemos da verdadeira existência--o homem seria
feliz. Como se pode redimir tudo isto? Pregando o Amor. Só o Amor nos
pode ainda salvar.

Agora vejo! agora vejo! Que montão de infâmias! que montão de crimes! O
homem trabalha desesperado, atrás do oiro, da ambição, da vaidade, do
sonho vão, para quê? Para ser desgraçado. Um trabalho férreo e
hercúleo--para gritar, e encontrar-se ao fim, a dois passos da cova, com
inutilidades, carregado de dores e de opróbrios. Não hesitou em
despedaçar, em calcar, em mentir--em busca do que ele julgava a
felicidade, e que era apenas o erro. Não teve tempo para olhar a
montanha, o mar, o céu--o espectáculo de Deus não o viu--porque corria
atrás da felicidade. Não perdeu uma hora apanhando sol como um mendigo,
tendo piedade de seus irmãos, dando a mão aos desgraçados, porque vivia
numa aflição, atrás do quê? Da felicidade. Não se sentiu a sós
consigo, não se encontrou, nem sequer um dia da sua vida perdeu
olhando-se cara a cara, ele e a sua alma, fechado com o seu coração.
Porquê? Porque corria atrás da felicidade. Desprezou tudo, a vida, a
respiração dos montes; riu-se do amor, da emoção--futilidades--porque
feroz, incansável, negro como um mineiro, ele buscava, sem perder um
minuto--a felicidade! Chegou ao termo da jornada, tendo amontoado oiro e
pão, tirado a outras bocas, tendo feito gritar, blasfemar, contente o
seu orgulho e a sua vaidade mas afinal profundamente desgraçado. Está a
dois passos da cova. Interroga-se e não compreende. Então isto é que
era a felicidade? De que me serve tudo isto? O desgraçado não reparou
que a felicidade na vida estava exactamente no que ele tinha
desdenhado!

Ama, ama a teus irmãos e vê-los-ás transformados e cheios de beleza:
mesmo nos mais secos irás encontrar coisas inesperadas; ama a natureza,
os montes, as pedras--e verás que espectáculo sublime; ama que sentirás
a mão de Deus pousar se sobre a tua cabeça.

Torna à vida simples e serás feliz. A tua vida não custará gritos; o teu
pão não será furtado a bocas famintas. Por cada homem que amontoa oiro,
há cem criaturas morrendo no desespero e na aflição.




XXIII

A OUTRA PRIMAVERA


Os dias passaram-se e a Árvore era um colosso.

Nessa noite o Sábio encontrou o Pita desvairado, com o xaile-manta ao
vento.

--Pita você tem um ar estranho.

E o Pita, transido, murmurou:

--Você deve tê-los visto. Nascem, irrompem da treva...

O outro, cheio de serenidade, afiançou:

--Foi a Primavera.

--A Primavera isto! O amigo desvaira. Como a Primavera? Eles só
aparecem de noite, criam-se nos saguões. Deparo com criaturas que nunca
vi. Uns são lama viva, outros que são?.... Homem, dir-se-ia que todos
os sonhos tomaram corpo.

--Tomaram. Tenho pensado nisso. Pois foi a Primavera. Você tem visto um
charco, lama e água revolvida? Vem a Primavera e aquilo transforma-se.
O mesmo sopro que faz bater mais alto o coração dos montes, cria
naquele palmo negro a vida--murmúrios, gritos, um arrancar de
mistério. A Primavera faz isto; transforma o húmus inerte numa vida
furiosa. Eu já vi...

--Então...

--Então, Pita, você medite, é isto... Esta lama que se cria nos
saguões, homens, gebos, emparedados, pôs-se com estas noites a criar...
Veio dali--e apontou para os lados do Hospital--um eflúvio, o mesmo
que faz nascer as árvores, e eles estremeceram abalados.

--A noite tem realmente qualquer coisa que aflige... Opressão,
mistério...

--Emoção que foi até às tocas onde eles criam. Puseram-se a sonhar e
criaram. Ora escute... Ouve um frémito, o escachoar dum riachão,
gritos?.... E, como se a gente pusesse o ouvido de encontro à terra...

--Criaram?

--Criaram. Isto que nós vemos não são eles, são aparições. É o que
eles sonharam. Os sonhos dos desgraçados tomaram corpo. Só nós é que
não podemos sonhar.

--Nós não, nunca mais... Os sonhos dos desgraçados tomaram enfim corpo!

--Tanto sonharam! tanto sonharam!...

--Mas foi a Noite então?....

--A Noite. Uma Primavera negra, feita de emoção e de noite. Eles só
deitam flor à noite e só podem sonhar à noite.

--E você como soube?

--Meditei.

--São afinal, é certo, sonhos. Uns parecem estátuas vivas, outros são
disformes...

--Eu tenho visto. É uma amalgama singular. Criaturas de fogo, outras de
crime. Di-las-íeis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que
tudo acarrete...

--O que eles sonhariam para chegar a materializar!

--De cada canto surgem. É inesperado e imprevisto. E dos sítios mais
negros é que eles irrompem em brasa. Ontem vi um que parecia uma
flor---branco, todo branco ou de luar gelado...

--E falam!

--Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?

Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O Prédio tremido até aos
alicerces, queria ele próprio criar. O rio subterrâneo estrupia
cóleras, engrossara, rompera para a luz; o esgoto acossado carreava
oiro, como as poças que reflectem um poente. O Gabiru pregava aos
desgraçados. O Pita mostrando-lhe ao pé os montes, as árvores, a
natureza, desvairara-o. Viam-no curvar-se sobre os míseros e falar-lhes
baixo, precipitado, ronco. Deixava-os a cismar de olhos febris.

As suas palavras ardiam. E subterrâneo, incansável, férreo, minava. Ia à
procura de ódios para as atiçar. Pregava-lhes, apontando o Hospital:

--É ali! ali!...

Falava dos montes e das águas, mas confundia tudo: aquela manhã de
Março esbraseara-o.

--É uma coisa esplêndida! É ao mesmo tempo a frescura e o fogo, um
incêndio verde que pacifica e estanca toda a sede. Águas a rolar e
árvores esgalhadas falando... Sabeis o que são árvores? Há ali
montanhas de riqueza, tesouros... Deitai abaixo! deitai-o abaixo!...

Todos os desesperados conheciam essa figura que surdia com a noite,
esguio como um enterro.

--Há montes todos de oiro erguidos para o céu, há oiro nas árvores, oiro
nos montes e no tojo... Todas de oiro são as águas a rolar. Há seda viva
e árvores... Há árvores! E tantas vozes a falar. Tudo fala! tudo fala!

E os pobres, os transidos, os homens encardidos de desgraça,
escutavam-no e punham-se a falar sozinhos. As palavras do Gabiru
empoeiravam-nos de inquietação e tristeza, e a noite era como um brasido
que alguém remexe. Ouvira-se primeiro o murmúrio, a zoada do sonho
afastado; ouvia-se agora rolar como um rio que incha e transborda.

--Há oiro! para lá há oiro!...

E era como se do globo tivesse irrompido uma torrente de sonho. O Prédio
parecia abalado. Todo aquele terriço de criaturas o esbraseara.

--Tanto sonharam! tanto sonharam!...

Pobres que fariam senão deitar as mãos tábidas a um outro universo que
eles pressentiam ígneo?

À força de sonhar materializaram o sonho.

Ei-los gastos e ardidos. Depois de dar luz, um toro converte-se em
cinza, e no rescaldo todos os toros se confundem. Não conheciam da vida
senão a dor. Gesticulavam, olhavam absorvidos, perdidos de emoção, como
quem descobre nova terra e deitavam-se a falar uns para os outros sem se
entenderem. Nem sequer se ouviam. Cada um narrava a sua ânsia, dizia a
história pobre ou doirada da sua alma. Pelos sótãos, nas mansardas e nos
saguões, encontrava-se aquela levada cismática, tolhida de sonhar. De
uns para os outros ia o Gabiru, falando com palavras que os doloriam e
lhes faziam precipitar as ilusões represas... É verdade afinal que há
árvores e fontes todas de oiro? Porque é que eu nasci para sofrer?
Porque é que existem vidas, como a de certas sementes, que não chegam a
ter força para germinar?

Tocados d'essa Primavera negra, de que falara o sábio, juntavam-se para
se queixar e cada um, à força de sonhar, criara uma figura,
desdobrava-se. Dos seres trágicos, rotos, calcados, nascera uma
aparição duma beleza estranha; de outros névoa, fantasmas. Todos
traziam o seu companheiro--e havia homens acompanhado por árvores, pelo
ódio, pelo riso, por monstros...

--Ei-los que deitam flor! ei-los que deitam flor!...

E na noite eles botavam realmente flor, e de tanto falarem nas árvores
e nos montes até as pedras cheiravam a terra arada.

Sonhos tristes, mealhas, almas que nem sequer podiam exalar ilusões,
sonho de sebes, de calhaus, de tudo que no planeta se cria de ignorado e
humílimo.




XXIV

A MORTE


Oh eu já não sei bem, pobre de mim, o que é realidade e o que é sonho.
Por vezes me parece que o próprio Hospital se põe a falar pela sua boca
de pedra. Em noites de luar, quando tudo para lá se envolve em álgido
luar, ei-lo que enternecido conta sonhos rotos e tristes, o sonho dos
pobres, dos cegos das estradas, coisas humildes e no entanto vivas, como
os fiozinhos de água, que apenas convivem com uma lapa e um farrapo de
musgo, esquecidos no globo, mas que exalam uma frescura enorme...

       *       *       *       *       *

Encontraram ontem o Astrónomo estendido na latrina. Ultimamente ia-lhe
no crânio um ruído estranho. Constelações de fogo, mundos e coisas
terrenas confundiam-se. O olhar absorto, tremendo de frio dentro do
casaco de alpaca, olhava o céu num êxtase. De que tombara? De fome ou
dum sonho? Consumira-se como um tronco num lar.

Deram com ele caído na tábua molhada daquela ignóbil latrina de casa
de hóspedes. Nos seus olhos, mesmo mortos, ficou luciluzindo uma poeira
de espanto. Morrera surpreendendo algum mundo desconhecido ou
descobrindo outro sonho tão vivo, que, de vê-lo, caíra fulminado? Em
torno era o asco: as paredes com dedadas, versos obscenos e legendas
prodigiosas. Havia um desenho alegórico, um _viva a república_! outro,
_morra a D. Antónia_! contas e um soneto bocagiano pela mão do Pita--e
entre aquela lama o Astrónomo morto era como a claridade das
constelações, que luzem até no fundo das latrinas.

       *       *       *       *       *

Um rio, dir-se-ia um rio, com coisas trágicas à tona. Só a Árvore
cresce e à medida que ela cria forças a Mouca se consome. A tosse
desconjunta-a. Criou-a a desgraça humana, construiu-a do lodo das ruas
e de abjecção. Mas a dor vem e purifica: é como o fogo que torna um galho
apodrecido, atirado ao lume, num ramo do oiro mais fúlgido. Magra, alta,
luziam-lhe os olhos dum brilho estranho. Riem-se os soldados, batem-lhe
os ladrões e só ela não ri como outrora. Se a fazem sofrer, a Mouca
chora. Um dia ao ver que batiam em Sofia diz-lhe:

--E se nós nos matássemos?

--Cala-te! cala-te!

--Sabe a menina? Eu não sei que tenho, já não me importo de viver. Perdi
o amor à vida. Olhe para o meu corpo. Já não tenho senão ossos. Porque
será que a gente muda? Diga-me: é por amor do velho que se não quer
matar?

--É, está calada.

--Eu cá sou assim, que quer? Às vezes, quando não tenho com quem falar,
ponho-me a falar sozinha. Antigamente não me lembravam coisas que me vem
agora à ideia. Esta vida sempre é mais negra, não é?

--É.

--Pois é, eu bem digo e mais não conheci outra. Sempre a gente nasce com
cada sina! Olhe quando eu estiver para morrer, não me deixe ir para o
Hospital.

--Não fales...

--Porquê? Eu bem sei como estou. Dá-se-me bem! A gente tem de morrer,
não é? Então quanto mais depressa melhor...

Uma noite que os ladrões espancaram Sofia, a Mouca pôs-se a olhá-la como
um cão ao dono. Por fim disse-lhe:

--Vamos ambas ao rio quer? Eu não me importo de morrer. Mais vale
acabar. E a menina? Que ando eu a fazer neste mundo? Se a menina tem
medo da água, eu deito-me primeiro ao rio.

--Não, deixa! não te aflijas!...

--Eu, sim! Bem me importo!...

       *       *       *       *       *

De noite muitas vezes tinha aflições, sufocada. Agarrada a Sofia:

--Ó valha-me!...

No entanto falava de curar-se, quando tornasse o sol. Por ora tudo
estava transido.

--Na Primavera...

--Sim, na Primavera.

--Vês a Árvore, vê-la? Assim que tiver flor, é mais quentinho...

Mas veio Março e depois Abril e que transformação! Quase que nada
restava da Mouca, escárnio de ladrões e de soldados. Até a voz se lhe
sumira...

       *       *       *       *       *

Dia soturno, de névoa, cinzento e húmido. Começo da noite. Fora, na rua,
lama e gritos; dentro as mulheres acendem um candeeiro fumarento. Vai
morrer a Mouca. Limpam-lhe as prostitutas o suor da agonia e pé ante pé
vêm os ladrões e os soldados para ao redor da enxerga vê-la acabar.
Moldado pelo lençol um corpo ressequido e no silêncio de espera ouve-se só
a rala aflita, o estertor, a ânsia de quem quer ainda vida e que a
morte esgana--mais perto! mais perto!...

O Velho, com a boca enorme some-se no escuro e de lá os seus olhos
brilham; à cabeceira Sofia ajeita-lhe as repas curtas e húmidas. O lenço
está ensopado de suor de aflição.

--Ajudai-a a morrer--diz uma das mulheres.

--Está a passar?

--Shiu! baixinho...

Chegam-se mais os ladrões e os soldados e curvam-se em volta da
enxerga--o Pita, o Morto, os outros. Nas suas feições cruéis, há
espanto e terror.

--Inda fala?

--Shiu!...

Esperam. E a rala enrouquece, mais aguda, como se a morte fosse
apertando--mais perto! mais perto!... A Mouca abre os olhos enormes na
cara branca e imaterializada:

--Menina! menina valha-me!...

--Estou ao pé de ti.

--Tenho frio, muito frio...

Juntam-se as caras dos ladrões e dos soldados, todos em roda--e pé ante
pé também o Velho se chega para a cama. A Mouca abre os braços e dum
lado o Morto, do outro Sofia, seguram-lhe nas mãos.

--Aqui está uma manta--diz o Velho baixinho. E apresenta um farrapo de
manta coçada.

--Shiu! já não precisa.

--É melhor deitá-la com a enxerga no chão, para acabar de
penar--aconselha a patroa.

A Mouca respira aflita.

--Tenho frio... nas mãos, na cara...

       *       *       *       *       *

Devagarinho, arrepanhando o lençol, rodeada de todos que a tinham
maltratado, do todos os que se tinham rido dela, devagarinho se fina;
a vida extingue-se-lhe como a última gota dum fio de água que acaba de
correr. Haviam ficado em volta imóveis.

Este acto do espírito se libertar é de tal forma grande, o início do
mistério, que até o Pita olhava estarrecido. Fora disse para os
ladrões:

--A morte, rapazes, ensina. Não há lição mais formidável. É doloroso e
no entanto pacifica. Ver morrer, enche de grandes ideias, filhos!...




XXV

A ÁRVORE


O Morto tinha um feitio singular. Uma força desconhecida--dessa
corrente a que estamos sujeitos toda a vida--impelia-o para o mal. A
sua maneira de falar era curiosa, como a de todas as pessoas que vivem
sós e a quem o tempo sobra para reflectir.

--Quem és tu? disse-lhe o Gabiru.

--Sou filho do crime. Que te importa o meu nome? O meu nome ao certo
ninguém o saberá. Não tenho família.

--Quem te criou?

--Os ladrões.

--Se não tens onde dormir, deita-te lá em cima.

E enquanto o ladrão dormia aos solavancos, acordando de estacão, para de
novo mergulhar num sono profundo, o Gabiru cismava, olhando-o.

Às vezes o ladrão tornava e o filósofo repartia com ele o seu pão.
Depois dizia-lhe:

--Dorme.

Mas nessa noite o Morto não quis dormir. Sentados à beira um do outro
falam durante largo tempo.

--Não sei porquê este tempo aflige--começa o Morto--Não devia haver
este tempo.

--Qual?

--Este, de Primavera. Até na cadeia, quando numa noite assim o luar
consegue entrar pelos buracos, os ladrões acordam sobressaltados. Tenho
visto assassinos abalados. Havia duma vez um velho, que matou uma
criança por nada, para se rir, e que numa noite destas encostou a
boca às grades para respirar com sofreguidão e desatou a cantar. Este
tempo tira a força.

--Escuta. Não ouves nada?

--Nada... Durante o tempo que persisti na cadeia conheci cada um... Os
que matam ainda são os que tem melhor coração.

--Tu para que roubas?

--Roubo porque tenho de roubar. É o meu fado. Cada um tem o seu. Tudo o
que a gente faz está escrito no livro do destino. Eu bem sei que ainda
hei-de fazer pior quando soar a hora...

--Que hora?

--A minha hora. Todos neste mundo têm uma hora em que cumprem aquilo
para que foram criados. Cada qual nasce para o que nasce. Há-os, por
exemplo, que chegada a sua hora matam. Pensa que é para roubar? Matam
uma criança que nunca lhes fez mal.

--De que serve fazer mal?

--Em primeiro lugar é fazer mal, e quando a gente nasce para fazer mal,
é sempre bom fazê-lo. Tenho horas em que tudo em mim--tudo!--me prega
que faça mal e as minhas mãos procuram logo quem matar. Às vezes sonho
que mato. É sinal que a minha hora ainda não soou.

--E Deus?

--Deus foi que me criou, Deus não se importa. Que tenho eu que fazer
neste mundo? Só mal. É porque Deus me criou para o mal.

--Resiste.

--Quando a gente é criada para isto, não há nada que nos impeça.

--Antes viver com um sonho, ignorando tudo.

--Mas viver!... Viver com toda a força! Tu não vives. Morrer sem ter
vivido!... Que sabes tu da fome? E da desgraça? Que sabes tu de ser
perseguido e de fugir? E do minuto em que se mata?.... Que sabes tu de
seres tu? Há instantes em que se vive uma vida inteira. Para se viver é
preciso cumprir se um fado, com todo o nosso ser, é preciso a gente
sentir-se só contra todos e no entanto prosseguir o seu destino... Andar
ainda que esmague. Para onde? É para o mal? Que importa!...

--Mas o mal...

--Que sabes tu do mal?

--Nada.

--O mal sabe... Ter as mãos ensanguentadas e esmigalhar nas mãos!...
Fugir de noite com os pés nas pedras, perseguido, sem poder respirar;
encher depois o peito, com o coração a estalar, escondido num canto
negro ou estender-se a gente no chão e sentir na boca o travor da
terra!... Não respirar e ter a noite por amiga!... A gente poder fazer
chorar! Eu ter entre as mãos uma vida e vê-la finar-se!...

--E eu que tinha pena de ti!...

O Gabiru reflecte. A noite é espantosa. Toda a lua se desfaz em luar e,
no silêncio branco, vem-se da trapeira, os montes, o mar e as árvores,
com formas de sonho.

--Pobre de ti!--diz por fim o filósofo--Tu és a terra, tu és a terra a
falar... Tu és só terra. Eu não vivi? Tu és como a forja apagada e eu
não, eu não, eu ardo!... Olha! Olha!...

Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar?

--Não, não quero ver. Isto tira a força à gente.

--Olha! olha!

Mostrava-lhe, esguio e parecendo um D. Quixote banhado de luar, um
sonho que o outro não podia ver...

       *       *       *       *       *

Foi esta noite! foi esta noite! Há dias em que eu sinto como uma
torrente impetuosa que vem do outro lado do Hospital. As pedras
estremecem impelidas. Há como uma ligação entre a Árvore e o que para lá
existe. Os seus galhos engrossaram quase a rebentar e ontem à tarde eu
vi que a Árvore já não era a mesma. Foi quando, como agora acontece
sempre desde Março, o sol lhe deixou poeira de oiro nos galhos. Vai-se o
sol embora e ainda vou jurá-lo--lhe fica sol nos ramos. Ontem à tarde
parecia transformada, diríeis haver nela não sei o quê de
extraordinário. Tinha o ar dum herói ou duma mãe. Pus-me a vê-la tronco
por tronco, depois as pernadas e os raminhos e enfim descobri perdida,
quase sumida, uma flor tão miúda, tão ténue... Qualquer sopro do vento
levá-la-ia para sempre.

       *       *       *       *       *

A noites estremecia despedaçada. Uma névoa viva, torrente luminosa,
arrastando consigo no alvorecer, o primeiro hálito dos montes e das
águas acordadas, humedecia as arestas dos muros, o granito da cidade
ainda em bloco, meia sumida na noite. O Pita sentiu que alguma coisa
de extraordinário se passava nessa madrugada de Abril: um jorro de vida
brotara, uma aparição, um sonho realizara-se tornado em matéria. A
própria luz dir-se-ia enternecida, estremecendo ao tocar na Árvore.
Envolvia um fluido, um rastro de emoção. Erguida, enorme, transformara em
flor a dor que as suas raízes tinham bebido. Com um grito o Pita viu o
Gabiru pendurado num ramo.

Namorara sempre, depois do escárnio da Mouca aquela Árvore, cismando
num encontro etéreo para depois da cova. A tísica, nos últimos dias,
quando a morte a tocara, não tirava dos troncos despidos o olhar
absorto.

--Aquela Árvore,--dizia--aquela Árvore...

Não sei se repararam... As criaturas mesmo antes da agonia pertencem
mais a um outro mundo do que à terra. A matéria está já toda embebida de
mistério, há mais luz do que noite... As coisas que pertencem ao corpo
emudecem e põe-se a falar dentro em nós a poeira de astros de que é
feita a alma.

--A Árvore! a Árvore!...--dizia ela para Sofia--Donde nasce
aquilo--olhe--que a faz tremer? Engrossa e de noite irradia luz...
Lembra-se do ano passado que para ali veio um passarito morar? E da
sua voz? Parecia água a cair...

Quando para sempre a levaram o Gabiru mergulhou na dor. Isolou-se mais.
Monologava e os olhos esqueciam-se-lhe nos sítios que ela amara. As
noites tinham já esse encanto que alheia, cheias de gritos, de vida no
escuro, de palores esquecidos...

Altas horas à janela, todo o céu pontilhado de estrelas, ouviu soluços
na quietude da noite. Caía um luar enorme e a treva tácita parecia
esperar escutando. Só muito ao longe, no silêncio que lhe pareceu
presago, dir-se-ia que uma nascente deixara correr um fio de água--só
um fio... Ou talvez fosse luar que corresse... Diríeis lágrimas. Pôs-se
a olhar inquieto. A Árvore mais esguia ao palor do luar, parecia
transformada. Acenavam-lhe os ramos--e que voz era aquela, fina e
meiga, que o chamava?.... Ou seria água nascendo ou um fio de luar a
correr?

Desceu três a três os degraus e ei-lo no quintal. Vestira o luar a
Árvore e sob a magia da noite a eclosão fizera-se. Cobriam-na
flores--cheiinha--e todas elas eram como pequeninas bocas a chamá-lo,
com uma voz conhecida.

Ao luar, na luz indecisa da noite, lhe pareceu a Árvore como um branco
fantasma a fugir e a chamá-lo. Baixaram-se os seus troncos para o tomar
e ouvindo aquela voz amiga, desfaleceu apertado, morto, levado pelos
ramos...




XXVI

NATAL DOS POBRES


Natal...

Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para lá as árvores
despidas não bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta hora a rasto
pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na
natureza se concentra e sonha. Há no entanto um grande rio revolto que
nunca cessa de correr...

       *       *       *       *       *

Longe pelos caminhos, através de pinheirais sumidos e calados, vão
velhinhas tristes, de saia pelos ombros, para consoar nesta noite com
os filhos. Andam trôpegas léguas e léguas. As suas mãos calosas, as
caras enrugadas, onde as lágrimas abriram sulcos, os olhos tristes,
contam o que elas têm passado na vida, dias sem pão, suor de aflições,
desamparos, maus tratos...

Os cavadores deixaram mortos os arados nos campos, que a chuva alaga.
Que tudo repouse. O vinho de hoje conforta, como as lágrimas choradas
pelas nossas desgraças, o lume de hoje aquece como o amor de nossas mães.

       *       *       *       *       *

Nos soutos, sob a chuva que cai mansa e contínua, andam pobres que não
têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os
tenha na sua mão de pai. Partem, chegam, vêm de muito longe, para verem
os seus meninos, matando saudades. Quase não comem e sustentam filhos,
sustentam netos. Os velhos, que têm atrás de si uma vida de martírio e
fomes, dizem:

--É hoje o maior dia do ano...

Na lareira arde um canhoto. Cabe o nevão. A cozinha é negra, de telha
vã, é negro o frio, mas as almas sentem-se agasalhadas. Por um buraco
avistam-se as estrelas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das
pinhas, abafadas na cinza, repartem um pão que é o suor do seu rosto,
bebem um vinho aquecido em árvores que as suas mãos cortaram.

Sentados ao lume não falam. As brasas vão-se extinguindo como um poente,
ou como uma alma que vai deixar-nos. A Morte passa. No buraco do telhado
a estrela reluz, o nevão cabe com um ruído de flores desfolhadas, e
cada um cisma em alguma coisa de indeterminado e vago, de longínquo: em
certa hora da vida, na mãe, num filho ausente, naquela morta que
passou seus dias a sacrificar-se por nós...

--O lume apaga-se...

--Deitai-lhe canhotos.

O lume apaga-se e as sombras da noite, em revoadas, vêm escutar-nos
atentas.

       *       *       *       *       *

Os pobres são como os rios. Estancam a sede da terra, fazem inchar as
raízes e crescer as árvores; acarretam; moem o pão nos moinhos. Ei-la a
vida da terra. Todas as catedrais se construíram da sua dor; sem eles
a vida pararia.

Natal dos pobres! natal dos pobres!... Porque é que criaturas
misérrimas, encontram ainda na sua gélida nudez, horas para recordar e
amar? Pobres repartem o seu pão; espezinhados dão-nos das suas lágrimas.
Vinho quente! vinho quente e amargo, que sabe a aflição. Chegam-se uns
para os outros para se aquecerem. Nas enfermarias, nos sítios onde se
sofre, os míseros e os doentes quedam-se muito tempo a cismar. Os
pobres pensam que existem seres ainda mais pobres, lares desamparadas,
onde nem o lume se acende; cuidam numa velhinha, que, a essa mesma
hora, cisma, abandonada e sozinha, ao pé de brasas extintas, no filho
doente, no filho ausente... Há cabanas nuas, lares rotos, almas mais
gélidas que o nevão.

       *       *       *       *       *

As lágrimas que se choram e se não vêm são as piores: caem sobre a
alma.

       *       *       *       *       *

Sofia sobe as escadas com uma caneca de vinho quente, para repartir com
o Gebo. Na sua fisionomia há um cansaço enorme.

A chorar, misturando-lhe lágrimas, o velho, mais gordo e todo branco,
bebe o azedo vinho quente das prostitutas. Depois abraçados soluçam na
trapeira fria. Fora não se ouve rumor: as coisas ingeridas escutam.
Põem-se a cismar na mãe que descansa na terra encharcada. Tudo tão
triste, dias sem pão, e o amor a prendê-los, a uni-los, mais forte que a
desgraça. Não sentem ódio, nem têm forças para gritos. Baixinho o velho
Gebo e a filha choram aquela que a terra primeiro tragou.

--Se o Senhor também nos levasse...

E Sofia bebendo do mesmo copo:

--Tenha paciência, tenha paciência...

--Se o senhor nos levasse juntos, na mesma hora... Cuido que não tinha
tanto frio.

--Aí tem pão.

--Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse contigo, minha filha, não
tinha tanto medo.

--A mãe lá nos espera. Na cova acabam-se as precisões e as lágrimas...

--Tudo se acaba na cova. Chegada a nossa hora, acaba-se também a
desgraça.

--Aqui tem o vinho.

Natal dos pobres, noite de comunhão, noite de lágrimas e saudades! Não
é chuva que cai sem ruído, são lágrimas. O Gebo abre a janela e põe-se
a falar para a escuridão com palavras que a noite escuta, com palavras
que a noite leva. Sofia o ampara.

       *       *       *       *       *

Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres. Com os cotovelos fincados
nas tábuas, olham o vinho quente e cismam... Ceia de Natal! Ceia de
Natal!... Até as prostitutas se querem lembrar... Moídas de pancadas,
tem más palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se pequeninas para
que lhes perdoem uma vida infame.

Falam! falam!... Parece que a mesma Primavera negra fez dar emoção a
estas criaturas exploradas e servidas. Lembram-se da sua vida, sempre
lágrimas, risos sem piedade... Uma começa:

--Ninguém canta?

E logo outra, como se as palavras lhe saíssem de golfão:

--Eu cá foi por fome que me desfrutaram. Ninguém queria saber de mim e
a minha madrasta calcava-me aos pés.

--Eu nem sei como foi...

--E eu então--continua--foi por fome. O pai estava encarangado e a minha
madrasta era tão má, que, por eu me demorar num recado, partiu-me um
braço.

--Pois eu foi assim de repente...--diz outra--Ia pela rua fora. Vinha da
fábrica, começou a chover e uma lama!... Tinha frio e um homem pôs-se a
falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquilo foi... E a
falar, a falar, até me doía o coração! E nunca mais o vi. Se o vir acho
que nem o conheço.

--Enganam e nunca mais querem saber.

--A mim minha mãe bem me pregava, mas a gente que há-de fazer?

--Ontem os soldados puseram-me o corpo negro,--diz uma.

E mostra a triste carne magoada, os seios murchos e com nódoas. No
ombro os ossos furam-lhe a pele.

--Quando eu morrer... oh quando eu morrer!...

--Tola!

--Que tem? Tenho ali a roupa apartada.

--A mim quando saí do asilo enganaram-me, levaram-me. Eu não sabia
nada. Depois comecei a servir. Enganaram-me e punham-me fora... Depois
não tinha mais para onde ir ...

--Eu cá tive um filho...

Uma que estava calada soluçou no escuro. E como todas se voltassem
pôs-se a rir e a ajeitar os cabelos.

--Eu tive um filho e pus-me a criá-lo. Depois de isso o meu amigo nunca
mais quis saber. Quando eu o procurava ria-se. Mostrava-lhe o inocente
e ele punha-se a rir.--Mulheres não faltam, dizia-me. Vai-te!--E a
gente fica feia. Vai um dia e disse-me:--Se cá tornas chamo a
polícia.--Eu chorei até não ter mais lágrimas e acabou-se tudo. São
todos o mesmo. Noutro dia vi-o mas ele fingiu que não me conheceu.

--E o teu filho era bonito?

--Era um anjinho do céu. Tanto chorei que secou-se-me o leite de
chorar. A gente sempre é mais tola!... Pôs-se muito chupadinho e morreu.

--A Maria já deitou um à roda.

--Eu cá se tivesse um filhinho acho que morria por ele. Não tinha
coração para o dar a criar.

--A gente não podemos ter filhos.

--Eu cá era uma inocente. Até me dá riso! Tinha treze anos e foi logo
ao entrar para a fábrica. O mestre foi quem me desfrutou. Agarrou-me,
mas eu não sabia e pus-me a chorar.--Cala-te! se dizes, vais para a
rua!--Abandonou-me, outros vieram... A gente há-de cumprir o seu fado.

--Eu cá fui um miminho. Meu pai tinha de seu... Depois tudo esqueci,
porque senão a gente morria. Meu pai era muito meu amigo. Era preciso
não ter coração para o enganar. Nem ele podia supor mal de mim, nem do
outro que entrava na nossa casa. Meu pai era também muito amigo dele e
tinha-lhe valido sempre. Ainda me lembro, quando meu pai comigo no
colo me dizia:--Tu és o meu coraçãozinha...--Eu sempre tive um colo!
Olhai: embalava-me como às crianças.--Falta-te a tua mãe, mas eu sou a
tua mãe, queres?--Era uma dor do coração enganá-lo e nós enganámo-lo
ambos. E eu bem sabia que ele era casado, mas mentia-me...

--Porque será que os homens mentem sempre?

--Mentia-me sempre, e eu era inocente. Mentiu-me e mentia a meu pai. O
pior é que um dia fiquei grávida. Começou o meu castigo.--Vou-lhe dizer
tudo.--Diz--disse ele. Matá-lo. Se queres diz...--Eu calei-me.--E
agora?--Agora...--Eu já lhe não queria, acho mesmo que nunca lhe quis
deveras. Foi uma desgraça. Já estava escrito que fosse desgraçada,
acabou-se!... Depois não podia esconder o meu erro. Só meu pai não
reparava... E ele que me imaginava uma inocente!... esperai...--E
agora? agora?.... perguntei-lhe. Então arranjei com que meu pai me
deixasse ir com ele e a mulher para uma quinta. Se vós vísseis!... A
pobre da mulher! Batia-lhe sempre, tratava-a pior que a um
cão.--Cala-te!--e ela calava-se, a pobre.--Fala!--e ela falava.--Ó
estupor tu não te calarás!--Ela tinha os cabelos todos brancos e vai
em um dia perguntei-lhe quantos anos tinha.--Trinta, respondeu-me, e
calou-se. Fiquei passada. O homem diante dela dava-me beijos para a
ver chorar. Dizia-lhe:--Vou dormir com ela, ouves, velha?--E dormia
comigo. A senhora não dizia palavra. Chorava e punha em mim uns olhos
tão tristes, que faziam aflição. Um dia que ficamos sozinhas, ela
disse-me:--A menina há-de ser uma infeliz--Eu chorei, e ela com a mão
nos meus cabelos, a fazer-me festa:--Coitada! coitada, que sorte a sua
tão negra!... Ainda eu...--Porque o não deixa? perguntei-lhe.--Já me
tinha deitado ao rio se não fossem os meus filhos.

--Ele sempre há desgraças? Às vezes mais vale ser mulher da vida.

--Esperai pelo resto... Tive as dores uma noite no verão, em Agosto, e a
pobre da senhora é que me tratou. Ele levou-me logo o filho. Na outra
sala ouvi gritos. Vai e atirei-me pela cama fora, sem saber o que
fazia.--Onde está o meu filho?--Fui mesmo de rastros e pus-me à porta a
escutar. Eles berravam--Se falas esgano-te!--dizia o malvado à
mulher.--Mata-me! tornava ela.--Tu queres a minha desgraça?
Estorcego-te!--Depois ouvi um grande grito e fiquei como morta.--O nosso
filho? o meu filho?--Nasceu morto.--A mulher a um canto chorava. Chorou
sempre depois.

--Tinha-o matado, o malvado?....

--Tinha. Afogou o na latrina. Depois veio a policia. Esperai... A
criada ouvira os gritos. Sabe-se sempre tudo, o diabo tapa dum lado e
descobre do outro. Ele fugiu para o Brasil, eu fui presa, e meu pai
diante duma ingratidão tão negra--queria crer?--estalou-lhe o coração.
Depois... depois... A gente quando nasce já tem a sua sina escrita.

--E a ti?.... Não falas?--perguntam a uma sumida no escuro.

--A mim enganaram-me. Foi há tanto tempo que já me não lembra. Tudo
perdi.

--E a tua família?

--A gente não tem família.

       *       *       *       *       *

Na noite, a um canto do Hospital o velho _banco_ de tábuas puídas, dá
lhe também para cismar. A ventania parou. Duma fresta tomba luar. A
treva amontoa-se ao fundo, e, para além, nos corredores abobadados, arde
um lampião. Direis que o negrume remexe: pedaços de escuridão
destacam-se, escoam-se sem ruído pelas muralhas húmidas e espessas. Mais
para o fundo há como um abismo, vala comum de treva empastada. Os
gritos redobram; depois, por momentos, o silêncio sufoca, como o dum
sepulcro.

--Se é luar que cai daquela fresta,--cuida o banco.--Se fosse
luar!...

Pela escada vê se a enfermaria onde os lampiões em fila dão uma
claridade triste, que mostra os corpos moldados em branco, caídos nos
leitos: parece uma necrópole subterrânea e imensa.

--Se fosse luar...--Há que tempos que não sinto o luar. Era como um
ruído branco que me envolvia outrora na floresta. Neva às vezes luar. E
havia ainda outras vozes... Sempre se sonha, quando certas noites
nascem! Era diferente... Havia rumor nas folhas e o vento dizia aos
ramos histórias acontecidas noutros montes. Há épocas em que o vento
traz noivados, ais de sapos, frangalhos arrancados às flores... Se
aquela poeira fosse luar... E se o luar se pusesse a correr sobre mim,
aquecendo-me como outrora, quando em mim subia não sei o quê de
misterioso e forte?

Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os últimos lampiões
apagam-se um a um, como se alguém lhes soprasse. É a Morte seguindo o
seu caminho. Sombras esvoaçam. E a cova, negra, toma corpo, vive, mais
calada, maior, vala infinita, a que uma luzinha dá alma. E o _banco_
cisma:

--Há que tempos que não sinto em mim a luz da manhã, que traz consigo a
vida de tudo o que existe, dos rios, das outras árvores, nem o sol a
crescer em vagas de oiro, nem a água verde, melancólica, e tão mansa
entre os choupos que parece ir vogando já morta... Sinto-me transido...
Transido? Isto é como fogo, mas trespassa-me de frio. E não há nevão,
mas ouço sempre gritos, ais, dores... Oh se fosse luar!... Destas
enfermarias corre também um sonho parecido com luar... Será uma
fonte?.... As fontes! nem te lembres das fontes!... Aqui parece que as
minhas fibras mergulham num mar revolvido, que eu ignoro, mas que é
feito de gritos.

Baixo a pedra começa também a lembrar-se e àquela hora perdida da noite
toda a alma inconsciente do Hospital estremece. Quer recordar, palpita e
logo esquece... Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes,
materializam-se e são como nuvens: são de fogo, são de luar. Sombras aos
bandos dissolvem-se, para outra vez se criarem.

--Acho que sempre é luar... E quando havia sol? Torrentes corriam pelo
meu tronco, inundavam a minha roupa cascosa e em volta numa poeira azul
andava um turbilhão de bichos. Outras árvores flutuavam na mesma poalha
e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata. Longe--e que encanto
aquela companhia sempre presente e amiga!--o fio do rio chalrava.
Folhas caíam e iam devagarinho viajar sobre a água verde. Para
onde?.... Debaixo de mim, até ao mais fundo das minhas raízes quantas
vidas protegi e defendi!... As minhas raízes tocavam na vida!... As
vezes caía um pé de água, mas depois vinham sempre teias de sol, fios de
sol, para me enredar--e o sol traz consigo um cheiro a terra e a renovo
que consola, o hálito dos montes e dos pinheiros meus amigos.

Nas temporadas fúnebres em que a água cai a golfões, a gente
concentra-se e fica meio adormecida. Os montes envolvem-se em nuvens, os
bichos na terra tremem de frio sob as raízes e as folhas secas estalam
e gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes se descerra a
névoa, os montes são mendigos, com um grande manto remendado. Ao fim da
tarde levanta se dos campos um lindo luar azulado que sobe e se
dispersa. É a névoa. Baba de oiro luz na água e os choupos são sombras.
Ao longe havia um biombo verde de pinheiros, depois montes, e depois
poentes doirados... Porque é que me ponho a pensar e a cismar? Há tanto
tempo que dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Há-de ser do
luar... Oh se ainda houvesse luar!

       *       *       *       *       *

As mulheres calaram-se. Não há ruído. Elas próprias sonham. Em torno
da mesa, na cozinha saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Algumas
pensam decerto num lar e bebem as lágrimas que caem no vinho e o
gelam.

--A esta hora a minha mãezinha há-de por força pensar em mim...--começa
uma.

--E tu porque não foste consoar com ela?

--Punham-me fora! queriam-me lá!... Meu pai, meus irmãos...

--Em minha casa faz-se uma consoada muito grande. Assam-se pinhas no
lar, e minhas irmãs pequeninas... oh minhas irmãs pequeninas!...

E sufocada desata de repente a chorar. As outras não se riem como de
costume. Só uma, sentindo que iam todas chorar, canta:

     Se vires a mulher perdida...

--Raparigas é o fado... De que serve agora chorar? Ninguém foge ao seu
fado.

--À noite a minha mãe aquecia vinho e dava-mo na cama. Sempre a gente é
criada para uma vida! Quem adivinha?

--Cala-te!

--Eu era o miminho de todos, eu...

--Só eu nunca tive mãe, de mim ninguém se importa! Acabou-se!

       *       *       *       *       *

Na escuridão as cinzas que restam num lar, fazem tristeza e saudade.
Brilham, esmorecem, vão-se apagar: são vidas que se extinguem, a alma da
treva que em redor sufoca. Assim o Prédio ao abandono, sob a enxurrada,
parecia cismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parara trágico
defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida,
contempla o seu destino.

       *       *       *       *       *

Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm pão e se ajuntam
friorentos em torno dum lume que não aquece; natal dos seres que a
desgraça usou... O vinho enregela, o pão é duro, mas resta ainda este
lume, que jamais se apaga:--Amanhã! amanhã!...

       *       *       *       *       *

Que poesia tão triste não vai caindo como um choro sobre aquelas almas
de misérrimos, de gebos, de prostitutas, de desgraçados!

Numa trapeira o gato-pingado quer dizer:--Amo-te!--mas foi sempre tão
nu que não sabe exprimir o que sente.

Na alma daquela criatura humilde, despida e escarnecida, que tinha
medo de sonhar e até de chorar, fizera-se um clarão. Tal o espanto
enternecido duma pedra, a que uma raiz se apega e que a olha deitar
flor na primeira Primavera.--Fui eu, apesar da minha secura, pensa o
calhau, que a trouxe no meu ventre.

Sem falar, bebem juntos, ele e a Rata o mesmo vinho. Ele diz:

--Ambos somos desgraçados e sozinhos.

O vinho que havia aquecido dá-lho com um pedaço de pão. Ela olha-o,
tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia pois
alguém que a amasse?...

--Bebe.

--É tão bom a gente estar junta.

--Não se tem frio.

--Esta noite sabes?... Lembro-me de minha mãe... Porque seria que ela
me enjeitou?

Fora choram. A Rata ergue-se e vê no corredor uma rapariguinha que a mãe
pôs fora da porta e que chora e pensa:

--E se eu me deitasse afogar?

Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, mísera, rota, ressequida, diz,
pondo-lhe a mão na cabeça:

--Deus te crie para boa sorte...

Na terra só os pobres sabem ser desgraçados.

       *       *       *       *       *

Meia noite! meia noite!... Para que tudo se crie, para que o pó se
transforme em vida, que é necessário? Torrentes de chuva, oceanos
de água. Eis a vida... Para que do que é matéria algo de radioso irrompa,
que é preciso? Um atlântico de lágrimas.

Da matéria tem nascido à custa de gritos, de fibras torcidas, o
immorredoiro espírito. Através das idades ele se criou, através da dor
veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo
material. A dor é a Primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se
entrar na morte há sempre gritos. A dor ara o céu cheio de estrelas e
os seres humildes.

Que se cria de tudo isto? que é que se alimenta no infinito? Destes
pobres espezinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas--húmus,
amálgama, protoplasma, espírito lácteo, donde se constroem os mundos.
Na vala comum os seus corpos, cansados de sofrer, são a vida da
terra: as árvores, o pão, as formas, a seiva esplendente. No infinito é
da sua dor que se sustenta Deus.


Maio de 1899--Janeiro de 1900.




ÍNDICE


Carta-Prefácio
I.--O enxurro
II.--O Gebo
III.--As mulheres
IV.--O Gabiru
V.--História do Gebo
VI.--Filosofia do Gabiru
VII.--Primavera
VIII.--Memórias de Luísa
IX.--Filosofia do Gabiru
X.--História do Gebo
XI.--Luísa e o morto
XII.--Filosofia do Gabiru
XIII.--Essa rapariguinha
XIV.--O escárnio
XV.--Fala
XVI.--História do Gebo
XVII.--O que é a vida
XVIII.--História do Gebo
XIX.--O Gabiru treslê
XX.--A mouca
XXI.--Aí têm os senhores a natureza
XXII.--Filosofia do Gabiru
XXIII.--A outra Primavera
XXIV.--A morte
XXV.--A árvore
XXVI.--Natal dos pobres




Notas:

[1] Estes pedaços são arrancados às reflexões filosóficas do Gabiru, a
que ele chamou _A Árvore_. _A Árvore_ porquê? Porque com ela
germinaram, deitaram grandes ramos, raízes subterrâneas e fundas. _A
Árvore_ sustentou-se de desgraça. As suas raízes alimentaram-se deste
húmus--a vida dos pobres, das prostitutas, dos gebos. Damos aqui alguns
pedaços do livro, o necessário apenas para se ver a transformação do
Gabiru, pelo contacto com os seres humildes e a dor, prometendo
publicá-lo mais tarde com a sua conclusão.













End of the Project Gutenberg EBook of Os Pobres, by Raul Brandão

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS POBRES ***

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http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
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business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
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outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
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works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
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